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Um soldado carrega uma arma ao peito, com a bandeira ucraniana destacada no seu colete de proteção. Créditos: shutterstock

A Ucrânia Inverteu a Maré

A resiliência, a tecnologia e o apoio europeu obrigaram a Rússia a recuar para uma posição defensiva.
Este artigo, publicado em parceria com a Foreign Policy e escolhido por Raquel Vaz-Pinto, investigadora do IPRI-NOVA, explica «de modo aprofundado as razões por que a Ucrânia, apesar das assimetrias de poder e de tamanho face à Rússia, continua forte e com futuro».
16 min

Há várias semanas, conheci uma jovem chamada Nastya num parque infantil em Kharkiv, na Ucrânia. Nastya brincava com o seu irmão mais novo, chamado Hlib, acompanhada pelo seu velho labrador, e desfrutava de uma manhã tranquila junto às ruínas da Escola Especializada n.º 134.

Pouco mais de quatro anos antes, o recreio de Nastya e de Hlib era tudo menos tranquilo. A 27 de fevereiro de 2022, a escola transformou-se num campo de batalha, onde soldados ucranianos, polícias e voluntários civis enfrentaram um destacamento das Spetsnaz, forças especiais russas que uns dias antes tinham entrado na Ucrânia juntamente com as tropas invasoras de Moscovo.

Terminada a violenta batalha, que se prolongou por 13 horas, os soldados russos que se encontravam no interior da escola estavam maioritariamente mortos, o edifício tornara-se uma ruína e a tentativa do presidente russo, Vladimir Putin, de tomar rapidamente a segunda maior cidade da Ucrânia tinha sido debelada.

A família de Nastya tem aguentado estoicamente os bombardeamentos russos, que já ceifaram a vida de vários milhares de civis na região de Kharkiv

Nastya, na altura com 16 anos, vivia ali perto e contou-me o choque que sentiu quando ouviu as explosões e viu o fumo. Correu para a rua para perceber o que se passava, mas os pais, apavorados, puxaram-na de volta para dentro.

Desde esse dia de 2022, a família de Nastya tem aguentado estoicamente os bombardeamentos russos, que já ceifaram a vida de vários milhares de civis na cidade e na região de Kharkiv. O mesmo se pode dizer de incontáveis outras famílias — como as que visitei noutro bairro de Kharkiv, onde um míssil de cruzeiro russo atingiu um prédio residencial e matou 11 pessoas em março de 2026.

No mês passado [em maio de 2026], enquanto pensava na Nastya e no Hlib, os ucranianos sofreram uma das vagas mais mortíferas de ataques com mísseis e drones alguma vez lançados pela Rússia contra alvos civis. Integrado numa delegação da «Renew Democracy Initiative» — uma organização criada pelo mestre de xadrez Garry Kasparov —, visitei não só Kharkiv, mas também Kyiv e outros lugares da Ucrânia, e o que observei deixou bem clara a barbárie cega da guerra liderada por  Putin.

Hoje, as defesas aéreas da Ucrânia intercetam regularmente entre 80% e 90% dos drones e mísseis lançados contra alvos urbanos

A minha visita, porém, também me convenceu de duas outras coisas: em primeiro lugar, a Rússia está a perder a guerra. Em segundo lugar, a luta da Ucrânia não deve deixar nenhum cidadão norte-americano indiferente. O grau de barbárie de Putin só tem paralelo na sua futilidade. Lenta mas inexoravelmente, o presidente russo está a perder a guerra: a Rússia não consegue derrotar a Ucrânia e corre o risco de sangrar até à morte na tentativa de o fazer.

Apesar dos ataques constantes da Rússia e do sofrimento incessante causado aos ucranianos, Putin não lhes conseguiu quebrar o moral.

Em Kharkiv, as pessoas vão à escola, vão às compras, encontram-se nos cafés e continuam a viver o dia a dia de forma aparentemente normal, num ato de subtil resistência. Tal como tantos dos seus antepassados que lutaram contra os antigos senhores imperiais ou coloniais, os ucranianos nunca se renderão, independentemente dos ataques de Putin.

A resiliência dos ucranianos é uma das principais razões por que a guerra de Putin não consegue alcançar os objetivos. Uma outra razão é a crescente capacidade do país para se defender. Segundo as autoridades nacionais, hoje em dia as defesas aéreas da Ucrânia intercetam regularmente entre 80% e 90% dos drones e mísseis lançados contra alvos urbanos, facto que não passou despercebido aos Estados árabes do Golfo Pérsico, que agora procuram a ajuda de Kyiv.

Em abril de 2026, as forças ucranianas comunicaram a morte ou o ferimento grave de mais de 35 000 soldados russos, o maior número mensal de baixas da guerra

Mesmo durante os ataques maciços que presenciei em Kyiv ao longo da minha visita — longas noites marcadas por sirenes de alerta, ataques aéreos e explosões distantes —, os drones e mísseis russos foram maioritariamente neutralizados.

Os que conseguem passar, porém, têm consequências trágicas. De acordo com as Nações Unidas, só em abril de 2026, foram mortos pelo menos 238 civis ucranianos e 1404 ficaram feridos — os valores mensais mais altos desde julho de 2025. Ainda assim, apesar  da terrível situação, os números poderiam ser bem piores.

Também no campo de batalha, Putin tem vindo a falhar redondamente. O exército russo continua a sofrer pesadas baixas, conquistando pouco ou nenhum território.

Em abril de 2026, as forças ucranianas comunicaram a morte ou o ferimento grave de mais de 35 000 soldados russos, o maior número mensal de baixas da guerra. Em maio, o ritmo manteve-se, com o exército russo a registar, em muitos dias, baixas superiores a 1000 soldados. Segundo as autoridades ucranianas, desde o início da invasão, foram mortos ou gravemente feridos mais de 1,3 milhões de soldados russos.

A maioria das baixas russas é provocada por drones com «visão na primeira pessoa», pilotados remotamente por pilotos ucranianos

A ofensiva da primavera de 2026, planeada pela Rússia com muita antecedência — visando romper a faixa de fortalezas da defesa ucraniana em Donetsk até este verão — não foi bem-sucedida, e as tropas russas continuaram a ser massacradas. Mas há mais.

Desde o início da invasão em larga escala, a Rússia perdeu equipamento no valor de 500 mil milhões de dólares, incluindo mais de 10 000 carros de combate, 25 000 veículos blindados e 30 000 sistemas de artilharia.

Atualmente, a maioria das baixas russas é provocada por drones com «visão na primeira pessoa» (FPV), pilotados remotamente por pilotos ucranianos que se encontram em locais seguros, muitas vezes longe da linha da frente. Alguns dos drones FPV são pequenos quadricópteros que explodem com o impacto. Outros funcionam como bombardeiros: sobrevoam as posições inimigas, lançam explosivos e depois regressam à base, podendo ser reutilizados.

Qual David contra Golias, neste momento a Ucrânia consegue vencer o exército russo e tem vindo a recuperar território

Produzidos em massa e a baixo custo, na prática, estes drones transformaram a guerra entre a Rússia e a Ucrânia numa revolução militar do século XXI equivalente à que ocorreu na Frente Ocidental da Primeira Guerra Mundial.

Nesta guerra, porém, estão em causa não umas quantas centenas de metros de terra de ninguém entre as trincheiras dos Aliados e as das forças alemãs, mas sim zonas de morte que se estendem num raio de 16 ou mais quilómetros, onde qualquer soldado ou veículo corre o risco de ser detetado, atacado e destruído por um drone assassino.

Aterrorizados, os soldados russos apelidaram alguns destes drones ucranianos de «Baba Yaga», uma bruxa que, no folclore eslavo, se alimenta de crianças inocentes e vive numa casa decorada com os ossos e crânios das suas vítimas.

Com a ajuda dos drones «Baba Yaga» e de outras armas inovadoras produzidas internamente, a Ucrânia está a resistir, apesar de enfrentar um país com cinco vezes mais habitantes e um PIB nominal dez vezes maior. Qual David contra Golias, neste momento a Ucrânia consegue vencer o exército russo e tem vindo a recuperar território, anunciando que, desde o final de janeiro de 2026, reassumiu o controlo sobre 480 quilómetros quadrados.

A maré da guerra está a mudar, o que nos lembra que os países pequenos podem, de facto, derrotar os grandes — uma lição aprendida pelos Estados Unidos no Vietname, pela União Soviética no Afeganistão e que a Rússia também pode, em breve, aprender na Ucrânia.

Neste momento, o recrutamento russo não é de todo suficiente para compensar as baixas infligidas pela Ucrânia

Por detrás deste fenómeno está o moral. «Na guerra», disse Napoleão Bonaparte, «o moral está para o físico como três está para um». O exército russo é constituído por prisioneiros, soldados de minorias étnicas da Rússia e mercenários vindos de lugares tão distantes como África, muitas vezes atraídos por pagamentos iniciais avultados, suficientes para lhes mudar a vida, ou simplesmente por mentiras descaradas.

Contudo, à medida que as condições na linha da frente e as pesadas baixas da Rússia se foram tornando mais conhecidas, o Kremlin enfrenta cada vez mais dificuldades no recrutamento de soldados. Neste momento, o recrutamento russo não é de todo suficiente para compensar as baixas infligidas pela Ucrânia.

Segundo vários testemunhos, o Kremlin pondera agora enveredar pela mobilização forçada em grande escala, opção que Putin tem evitado, por receio de desencadear uma onda de contestação interna.

Em contrapartida, os ucranianos estão empenhados em lutar pela sua pátria, pelas suas famílias e pela liberdade de não viverem sob o jugo russo.

As consequências potencialmente fatais de viver sob o domínio russo ficaram bem à vista nos crimes hediondos cometidos por soldados russos contra civis em Bucha, em Mariupol e noutras cidades e vilas ucranianas, no rapto de cerca de 20 000 crianças ucranianas pela Rússia e nas brutais campanhas de russificação empreendidas nos territórios ocupados. Perante tais perspetivas, é natural que os soldados ucranianos lutem com unhas e dentes.

A Ucrânia tem também apostado na capacidade intelectual de uma população altamente empreendedora

Para reinventar a guerra, a Ucrânia tem também apostado na capacidade intelectual de uma população altamente empreendedora, sobretudo através do desenvolvimento, da produção em massa e da utilização inovadora dos drones — e, cada vez mais, dos mísseis de baixo custo.

Em Kyiv, na delegação da «Renew Democracy Initiative», conhecemos dois desses ucranianos inovadores, protagonistas que merecem um lugar de destaque nesta história: Oleksandr Kamyshin e Pavlo Yelizarov.

Antes da guerra, Yelizarov era produtor de um programa de entrevistas políticas. Depois da invasão russa, alistou-se no exército e doou milhares de dólares para fundar o que se tornaria conhecido como «Grupo de Lasar», responsável por adaptar os drones de longo alcance ao lançamento de bombas, através dos quais foram abatidos milhares de soldados russos, bem como destruídos incontáveis carros de combate e outros veículos militares.

A Ucrânia aumentou a produção anual de drones de apenas 2000 unidades antes da invasão russa para mais de 4 milhões em 2025

O drone Vampire, criado e produzido pela SkyFall, uma empresa ucraniana de tecnologia de defesa, é o mais conhecido dos «Baba Yagas». Fabricado pela Reactive Drone, outra empresa ucraniana, o Kazhan pode servir de nave-mãe para vários drones explosivos mais pequenos, pilotados de forma independente.

Em janeiro, o presidente Volodymyr Zelensky nomeou Yelizarov para o cargo de vice-comandante da Força Aérea ucraniana, onde é responsável por desenvolver a versão ucraniana do sistema de defesa aérea israelita denominado «Iron Dome», incluindo um canhão laser que lembra a saga Star Wars, atualmente já a ser testado no combate aos drones russos.

Em 2022, Kamyshin era o diretor executivo dos Caminhos de Ferro da Ucrânia. Tendo conseguido coordenar o êxodo de centenas de milhares de refugiados ucranianos que saíram do país por via férrea, Zelensky recrutou-o para supervisionar o fabrico cada vez mais intensivo de drones na Ucrânia.

A figura de Kamyshin — um corte de cabelo à moicano, barbicha e t-shirt pretas — não é a de um responsável da defesa típico. Mas as aparências iludem. Sob a sua liderança, a Ucrânia aumentou a produção anual de drones de apenas 2000 unidades antes da invasão russa para mais de 4 milhões em 2025, graças à emergência de centenas de novos fabricantes nacionais de drones.

Kamyshin pretende alcançar a meta de 7 milhões de drones em 2026, o que aumentaria a capacidade da Ucrânia para inundar as frentes de combate com drones, mas também exportá-los para países aliados e parceiros em todo o mundo.

Quer a Ucrânia quer a Rússia estão igualmente a testar a utilização de enxames de drones aéreos controlados de forma autónoma por sistemas de IA

Não é de admirar que as perdas russas tenham atingido níveis tão elevados. Com tantos drones no ar, há poucos soldados ou veículos que sobrevivam na chamada «zona de morte». As ofensivas terrestres da Rússia tornaram-se missões suicidas.

Ambos os adversários já começaram também a experimentar a utilização de drones autónomos controlados por inteligência artificial — supostamente, a Ucrânia já recorreu a drones avançados (chamados «Martians» pelas tropas russas, mas conhecidos pelos ucranianos como «Hornets») capazes de voar a alta velocidade por longas distâncias, sem precisarem de comunicar com os pilotos humanos sediados na Ucrânia. Esta autonomia permite que os «Martians» voem de forma quase indetetável ao longo de muitos quilómetros, evitando o bloqueio eletrónico sem que para isso tenham de estar ligados aos finos fios de fibra ótica atualmente utilizados por ambos os países.

Quer a Ucrânia quer a Rússia estão igualmente a testar a utilização de enxames de drones aéreos controlados de forma autónoma por sistemas de IA, com o objetivo de cercar e atingir múltiplos alvos no campo de batalha. A seleção dos alvos mantém-se a cargo dos humanos, mas, a partir daí, os sistemas de IA assumem o controlo dos enxames de drones.

À medida que estas e outras capacidades se tornam mais rápidas e complexas, será cada vez mais difícil manter os humanos a par de tudo, e os drones vão tornar-se progressiva e necessariamente mais autónomos. Em suma, o futuro da guerra aproxima-se a passos largos.

As recentes reconquistas territoriais da Ucrânia podem ser atribuídas, em parte, à adoção de uma abordagem inovadora que conjuga soldados de infantaria, drones aéreos e robôs terrestres

Na opinião do MI6 — o serviço de informações externas do Reino Unido —, a Ucrânia ocupa hoje a posição mais forte no campo de batalha desde há um ano. As recentes reconquistas territoriais da Ucrânia podem ser atribuídas, em parte, à adoção de uma abordagem inovadora que conjuga soldados de infantaria, drones aéreos e robôs terrestres em unidades de assalto integradas.

Recentemente, Zelensky fez notar que, provavelmente pela primeira vez na história, houve uma posição inimiga a ser tomada exclusivamente por robôs não tripulados, sem nenhuma participação de soldados humanos.

É possível que estes progressos tecnológicos venham a permitir que a Ucrânia quebre o impasse no terreno e, ao mesmo tempo, minimize as suas baixas. Nas palavras de Mykola Zinkevych, que comandou a unidade ucraniana responsável pela missão, «a vida humana não tem preço, ao passo que os robôs não sangram».

Há cada vez mais ataques ucranianos de longo alcance contra infraestruturas energéticas, centros logísticos e de produção militar

Entretanto, os drones marítimos da Ucrânia conseguiram expulsar a frota russa do Mar Negro. É agora a vez de perseguir os navios sombra — os petroleiros e navios-tanque de gás russos que escapam às sanções ocidentais —, chegando até ao Mediterrâneo.

No interior da Rússia, há cada vez mais ataques ucranianos de longo alcance contra infraestruturas energéticas, centros logísticos e de produção militar, o que causa graves prejuízos à economia russa e dificulta o abastecimento das frentes de combate.

Estes ataques são perpetrados através de drones explosivos de longo alcance e de mísseis de cruzeiro que a Ucrânia concebeu e fabricou, na sua maioria, por conta própria e a baixo custo. Os ataques em território russo aumentam drasticamente o custo económico da guerra para a Rússia e anulam uma boa parte dos ganhos — estimados em 10 mil milhões de dólares — inesperadamente obtidos pela Rússia graças à guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, da qual resultou o aumento dos preços da energia e o abandono, por parte do presidente dos EUA, Donald Trump, das sanções norte-americanas relacionadas com o petróleo russo.

A derrota de Viktor Orbán permitiu que a União Europeia finalmente avançasse com a aprovação de um empréstimo de 105 mil milhões de dólares à Ucrânia

Os parceiros europeus e asiáticos da Ucrânia continuam a prestar um apoio significativo, nomeadamente através do fornecimento dos intercetores de defesa aérea Patriot — cuja disponibilidade se tornou escassa devido à guerra dos EUA contra o Irão —, bem como de drones intercetores provenientes da Alemanha.

Para assegurar a ajuda ucraniana na sua defesa contra os drones iranianos Shahed, vários estados do Golfo assinaram pactos de defesa válidos por dez anos, em troca de investimentos na defesa ucraniana.

A Ucrânia também celebrou parcerias com a Alemanha e os Países Baixos destinadas ao fabrico de drones. E, em abril, na Hungria, a derrota do então primeiro-ministro Viktor Orbán permitiu que a União Europeia finalmente avançasse com a aprovação de um empréstimo de 105 mil milhões de dólares à Ucrânia.

Em 1994, Washington obrigou a Ucrânia a entregar as armas nucleares da era soviética, e em troca ofereceu garantias de que os EUA defenderiam a segurança ucraniana

Neste contexto de solidariedade europeia, os Estados Unidos têm-se mantido notoriamente ausentes. Sob a administração Trump, o país mudou efetivamente de lado, abstendo-se de qualquer ajuda adicional à Ucrânia e ao mesmo tempo apoiando a Rússia nas suas ações de intimidação para levar Zelensky a aceitar os termos de rendição impostos por Putin. Aliás, segundo o vice-presidente J.D. Vance, deixar a Ucrânia à sua sorte é uma das «maiores conquistas» da administração Trump.

Um dos momentos mais comoventes da nossa visita a Kyiv foi quando perguntámos a um importante empresário ucraniano o que é que os ucranianos pensam hoje dos norte-americanos. Depois de ponderar cuidadosamente na melhor forma de responder, o nosso interlocutor disse simplesmente: «Traição».

Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, declarou que esta «não é uma guerra dos Estados Unidos». No entanto, em 1994, no Memorando de Budapeste, Washington obrigou a Ucrânia a entregar as armas nucleares da era soviética, e em troca ofereceu garantias de que os Estados Unidos defenderiam a segurança ucraniana no caso de a Rússia atacar. Aparentemente, as promessas dos EUA perderam o valor.

É de lamentar esta abordagem, uma vez que os Estados Unidos têm interesses reais nesta guerra. O conflito vai muito além da definição das fronteiras russas, ou mesmo da segurança da Europa. Também afeta diretamente os valores estruturais da identidade norte-americana.

A guerra estará, com toda a probabilidade, a contribuir para o aprofundamento da identidade nacional ucraniana, mas também acelera a transformação da Ucrânia num caldo de culturas semelhante ao dos EUA

Tal como os Estados Unidos, a Ucrânia é uma nação poliglota, composta por pessoas de várias origens étnicas — ucranianos, crimeanos, russos, bielorrussos, judeus, moldavos, húngaros, entre outros. A guerra estará, com toda a probabilidade, a contribuir para o aprofundamento da identidade nacional ucraniana, mas também acelera a transformação da Ucrânia num caldo de culturas semelhante ao dos EUA — uma nação assente menos na origem dos antepassados e mais nos valores em que se acredita.

Há combatentes oriundos da Rússia, da Bielorrússia e de todo o mundo — incluindo dos Estados Unidos — que estão a optar por assumir a nacionalidade ucraniana e por lutar pela liberdade da nação  e pela sua integração na Europa e no Ocidente democrático.

Foi esta grande ideia unificadora que, em 2014, mobilizou os manifestantes da Revolução de Maidan e os levou a enfrentarem o fogo dos atiradores furtivos, acabando por derrubar o ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovych, um cleptocrata pró-Putin. Trata-se de uma ideia que aterroriza Putin e os seus fiéis oligarcas: se os ucranianos podem viver numa nação livre e democrática plenamente integrada na Europa, porque não os vizinhos russos?

Os ucranianos tornaram-se uma força extraordinária, e o Ocidente deve estar grato por tê-los do seu lado

Os ucranianos e os seus incontáveis apoiantes lutam por ideias transcendentais e universais: a liberdade democrática, o Estado de direito, os direitos humanos e a possibilidade de as crianças e os jovens, como Hlib e Nastya, procurarem alcançar a felicidade e viverem vidas normais.

Estes valores encontram eco na maioria dos cidadãos norte-americanos e são claramente a razão pela qual — apesar da mudança de rumo da administração Trump, afastando-se da Ucrânia e aproximando-se da Rússia — uma ampla maioria continua a apoiar a adesão à NATO e a concessão de ajuda à Ucrânia para derrotar a Rússia. A maioria dos norte-americanos sabe que os ucranianos estão na primeira linha de um combate universal contra a tirania autoritária.

A Ucrânia não é um caso de caridade. Tem uma vasta experiência duramente conquistada nas práticas da guerra moderna, uma capacidade de inovação comprovada e uma base industrial sólida. Os ucranianos tornaram-se uma força extraordinária, e o Ocidente deve estar grato por tê-los do seu lado. Todos aqueles que amam a liberdade devem defender a Ucrânia e reconhecer que esta é também a sua luta.

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