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O exterior da sede da NATO, com todas as bandeiras dos países-membros da organização.

O atlantismo não morreu — está a ser renegociado

As crónicas da morte anunciada da NATO são francamente exageradas.
Escolhido por Raquel Vaz-Pinto, investigadora do IPRI-NOVA, este artigo da Foreign Policy faz uma «análise menos pessimista do momento atual que a NATO atravessa», mostrando que a aliança não está a chegar ao fim, mas está, sim, a ser redefinida em termos mais equilibrados e mais sustentáveis.
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Os obituários do atlantismo — a identidade da aliança transatlântica — estão a ser escritos demasiado cedo. É certo que a administração Trump abalou profundamente as relações entre os EUA e a Europa. Mas o recente ensaio de Nathalie Tocci, publicado na revista Foreign Policy, no qual a autora defende que o atlantismo, enquanto força viva e operacional, chegou ao fim, confunde uma transformação necessária com uma doença terminal. Não há indícios de que a aliança transatlântica esteja em risco de extinção, mas sim de que é preciso torná-la mais exigente e, em última análise, mais duradoura, sinalizando a necessidade urgente, e há muito adiada, de a Europa se tornar uma entidade geopolítica madura.

A ideia de que o atlantismo chegou ao fim assenta numa lógica que o considera inseparável da ordem liberal internacional, que entrou em colapso. Mas o atlantismo nunca foi apenas um projeto de valores ideológicos. Foi — e continua a ser — uma convergência de interesses securitários, económicos e tecnológicos entre duas regiões que, em conjunto, representam cerca de 43% do PIB mundial e constituem a aliança militar mais capaz do mundo.

As alianças perduram não apenas devido à partilha de valores, mas porque os seus membros identificam uma ameaça comum e acreditam que os seus interesses ficarão mais bem servidos numa organização coletiva

Em «Why Alliances Endure or Collapse» [Porque perduram ou colapsam as alianças], um importante ensaio publicado em 1997, Stephen M. Walt propôs uma linha argumentativa da maior relevância: as alianças perduram não apenas devido à partilha de valores, mas porque os seus membros identificam uma ameaça comum e acreditam que os seus interesses ficarão mais bem servidos numa organização coletiva do que individualmente. Hoje, quer os valores partilhados, quer o alinhamento estratégico estão a ser postos à prova, e as divergências agravam-se.

No que diz respeito aos valores, o apoio explícito do presidente dos EUA, Donald Trump, aos movimentos de extrema-direita na Europa constitui uma contradição flagrante: os partidos que a sua administração apoia opõem-se precisamente às expectativas que Washington deposita nos aliados europeus, nomeadamente no que se refere ao aumento dos gastos em defesa, à mitigação dos riscos associados à dependência face à tecnologia e às cadeias de abastecimento chinesas e às pressões sancionatórias sobre Moscovo.

No que diz respeito aos interesses estratégicos, os europeus encaram a Rússia como uma ameaça existencial à sua segurança a longo prazo, enquanto Washington considera que a China é o seu rival existencial. No que se refere à governação tecnológica, à soberania de dados, às alterações climáticas e ao comércio internacional, as abordagens transatlânticas são cada vez mais divergentes.

Em vez de um verdadeiro diálogo, os EUA e a Europa têm preferido fazer de conta que as perceções sobre ameaças e interesses não são cada vez mais divergentes

Neste contexto, é necessário abrir um debate franco e bem fundamentado, contrariando a já demasiado longa tendência dos Estados Unidos e da Europa para evitarem conversações. Em vez de um verdadeiro diálogo, ambos os lados têm preferido fazer de conta que as perceções sobre ameaças e interesses não são cada vez mais divergentes. Para isso, recorrem à reconfortante narrativa dos valores partilhados, em vez de enfrentarem diretamente os interesses convergentes, os interesses contraditórios e aquilo de que cada lado realmente precisa do outro.

Walt explica também as condições em que as alianças se dissolvem: uma assimetria visível na distribuição de responsabilidades, situações em que uns membros tiram temporariamente vantagens de outros mas em que isso é percebido como um problema estrutural e orientações políticas internas que levam os membros da aliança por rumos incompatíveis.

Estas três linhas de rutura estão atualmente presentes nas relações transatlânticas. Nenhum grande Estado europeu escapou à ascensão da extrema-direita. As eleições para o Parlamento Europeu de 2024 traduziram-se em ganhos históricos para os partidos nacionalistas. Nas eleições federais alemãs de 2025, o partido de extrema-direita «Alternativa para a Alemanha» (AfD) tornou-se a segunda maior força política do país. Prevê-se que as eleições presidenciais francesas de 2027 sejam o teste mais decisivo até à data, e a extrema-direita tem registado resultados competitivos nas sondagens.

As alianças dependem da existência de governos nacionais com legitimidade para tomarem decisões difíceis em conjunto, e a polarização interna corrói precisamente essa capacidade.

Pela primeira vez desde que se comprometeram, em 2014, a gastar pelo menos 2% do PIB em defesa, todos os 32 aliados da NATO estão a cumprir esse compromisso

A resposta da Europa às políticas de Trump não tem sido de retraimento nem de resignação. Tem-se verificado uma mobilização de dimensões inéditas. Em 2025, os Estados-membros europeus da NATO e o Canadá aumentaram, em conjunto, os orçamentos de defesa em 20% (a preços reais), atingindo um total de 574 mil milhões de dólares, o maior aumento num único ano em toda a história da aliança atlântica.

Pela primeira vez desde que se comprometeram, em 2014, a gastar pelo menos 2% do PIB em defesa, todos os 32 aliados da NATO estão a cumprir esse compromisso. A Alemanha ultrapassou o seu limite constitucional de endividamento e investiu 114 mil milhões de dólares em defesa. A Polónia está no bom caminho, prestes a atingir os 5% do PIB. A Noruega já ultrapassou os Estados Unidos no que toca aos gastos em defesa per capita. Manter ou não o aumento das despesas em defesa depois dos próximos ciclos eleitorais é uma questão que torna o avanço da extrema-direita particularmente significativo.

Haverá quem interprete a evolução dos últimos 18 meses como uma rutura. Porém, os desenvolvimentos recentes são, pelo contrário, um indício de amadurecimento geopolítico: o fim de um automatismo que tem prevalecido nas relações transatlânticas desde a fundação da NATO.

A dependência estratégica da Europa em relação a Washington foi, durante muito tempo, tanto uma escolha como uma necessidade. Os dois mandatos de Trump tornaram explícito que o antigo acordo transatlântico, assente numa dependência assimétrica e na primazia assumida dos EUA enquanto garante da segurança europeia, não iria sobreviver intacto ao século xxi. A mudança deve traduzir-se numa Europa que assuma a responsabilidade pela sua própria segurança, que desenvolva a sua capacidade industrial e que se relacione com Washington enquanto parceiro estratégico de peso, e não com uma postura de subordinação.

Joe Biden terá sido o último presidente norte-americano instintivamente atlantista, porém, constata-se que muitas das suas políticas prejudicaram os interesses estratégicos e económicos europeus

Tocci sugeriu que Joe Biden terá sido o último presidente norte-americano instintivamente atlantista, num sentido emocional — e tem razão. Pondo de lado as emoções, porém, constata-se que muitas das suas políticas prejudicaram os interesses estratégicos e económicos europeus. No domínio da segurança, a retirada caótica do Afeganistão em 2021 foi levada a cabo sem consultar os aliados europeus, incluindo o Reino Unido e a Alemanha, que apoiavam a missão dos EUA naquele país. No domínio das relações comerciais, a Lei para a Redução da Inflação, de Biden (Inflation Reduction Act — IRA) impôs regras protecionistas que foram altamente desestabilizadoras para a indústria europeia, e manteve — ao abrigo da Secção 232, que abrange as exportações da União Europeia — a lógica dos direitos aduaneiros sobre o aço e o alumínio até bem tarde no seu mandato.

A administração Obama já tinha dado passos nesta direção. No seu discurso de despedida como secretário da Defesa, em 2011, Robert Gates lançou um aviso que hoje soa a profecia: «A crua realidade é que haverá cada vez menos vontade e paciência no Congresso dos EUA […] para gastar verbas cada vez mais preciosas em nome de nações que aparentemente não estão dispostas a dedicar os recursos necessários ou a fazer as mudanças necessárias para serem parceiros sérios e aptos a garantir a sua própria defesa.»

Alertando para uma «aliança de dois níveis», Gates avisou que os futuros líderes dos EUA «podem concluir que o retorno do investimento dos Estados Unidos na NATO não compensa o custo». As duas administrações de Trump acabariam por obrigar os aliados a constatar que não podiam adiar mais a tomada de decisões.

Apesar do aumento generalizado das taxas aduaneiras dos EUA registado em 2025, os 7,4 biliões de dólares em investimento transatlântico e os quase 2 biliões de dólares em comércio anual refletem uma relação sem paralelo

O futuro da relação transatlântica, portanto, não pode depender dos laços emocionais de cada líder individual. Deve assentar na interdependência estrutural, que tem vindo a ser aprofundada. Apesar do aumento generalizado das taxas aduaneiras dos EUA registado em 2025, os 7,4 biliões de dólares em investimento transatlântico e os quase 2 biliões de dólares em comércio anual refletem uma relação sem paralelo, a qual não mostra sinais de abrandamento. As empresas de armamento norte-americanas estão a posicionar-se de forma agressiva no mercado europeu, que poderá valer cerca de 1,14 biliões de dólares até 2035. E a projeção internacional do poder das forças armadas dos EUA depende das bases europeias, do acesso ao Mediterrâneo e das infraestruturas logísticas europeias.

A cimeira da NATO, que irá decorrer [teve lugar de 7 a 8 de Julho deste ano] em Ancara, Turquia, é o momento para definir os termos em que, na prática, esta interdependência se deve traduzir. O encontro irá pôr à prova os líderes europeus, revelando se eles conseguem dar os próximos passos necessários. É preciso que aconteçam quatro coisas.

Washington tem de deixar de tratar a autonomia operacional europeia como uma ameaça

Em primeiro lugar, a Europa precisa urgentemente de reformular a sua arquitetura de aquisições no setor da defesa. Estima-se que, em 2025, os Estados-membros da UE tenham investido 447 mil milhões de dólares em defesa. No entanto, os procedimentos necessários para efetivar as aquisições continuam a ser lentos, fragmentados e reféns das grandes empresas nacionais. As aquisições conjuntas, as normas vinculativas de interoperabilidade e os prazos de aquisição muito acelerados exponenciam o poder militar — não são mera sofisticação burocrática.

Em segundo lugar, Washington tem de deixar de tratar a autonomia operacional europeia como uma ameaça. A invocação automática do lema «sem duplicação, sem discriminação, sem dissociação» como pretexto para bloquear a consolidação industrial europeia é estrategicamente contraproducente. A existência de uma base de defesa europeia mais forte é um trunfo, não uma ameaça, para a NATO. O objetivo é a complementaridade estratégica, não a substituição.

Em terceiro lugar, a cimeira de Ancara deve estipular formalmente os novos termos da partilha transatlântica de responsabilidades: a responsabilidade europeia pela defesa convencional no continente — forças terrestres, defesa territorial, logística e defesa aérea de curto alcance —, a par do compromisso norte-americano de fornecer meios estratégicos — capacidades de ataque de longo alcance, serviços de informações, vigilância e reconhecimento, meios marítimos de ponta e poder de dissuasão nuclear. A doutrina francesa de dissuasão avançada, que tem vindo a ganhar terreno, deve ser entendida como um complemento ao «guarda-chuva nuclear» dos EUA, e não como alternativa.

Em quarto lugar, a cimeira deve lançar um pacto transatlântico de tecnologia militar. A existência de um quadro formal, negociado em Ancara e estruturado através da NATO, para o desenvolvimento conjunto, a transferência de tecnologias e a coprodução nas áreas da inteligência artificial, dos sistemas autónomos e das capacidades cibernéticas transformaria os ativos industriais da aliança atlântica num verdadeiro multiplicador de força. Além disso, enviaria um sinal inequívoco a Pequim de que a competição tecnológica não será necessariamente ganha pela China. O novo grupo de trabalho para a defesa e tecnologia do German Marshall Fund (EUA) foi concebido precisamente para ajudar a desenvolver esse pacto.

O atlantismo não está prestes a acabar. Está a ser renegociado em termos mais equilibrados e sustentáveis

Os aliados europeus e o Canadá terão agora de assegurar três abordagens em simultâneo.

Em primeiro lugar, devem continuar a colaborar com os Estados Unidos nas áreas em que há interesses convergentes: manobras de dissuasão na região do Indo-Pacífico, governação da IA, concorrência tecnológica com a China e defesa do espaço euro-atlântico.

Em segundo lugar, devem também estar preparados para agir com menos ou mesmo nenhuma participação dos Estados Unidos em matérias com interesses divergentes — nas políticas para as alterações climáticas, nas políticas comerciais, no envolvimento com instituições multilaterais e na gestão de crises de proximidade que Washington tem pouca vontade de resolver.

Em terceiro lugar, devem igualmente aprofundar as parcerias com outras potências, assumindo uma estratégia deliberada de diversificação e proteção, nomeadamente através da colaboração com os Estados do Golfo e os atores regionais em matérias de segurança energética e de estabilização de crises, intensificando a cooperação industrial no domínio da defesa com o Japão, a Coreia do Sul e a Austrália, no âmbito dos quadros minilaterais emergentes, e envolvendo as potências emergentes nas questões do combate às alterações climáticas, do desenvolvimento e da governação tecnológica, nos casos em que a coordenação transatlântica, por si só, se revela insuficiente.

O atlantismo não está prestes a acabar. Está a ser renegociado em termos mais equilibrados e sustentáveis. Esta renegociação é penosa, mas já devia ter acontecido há muito tempo. O principal desafio reside na necessária sucessão de etapas, a qual deve assegurar que a transição não prejudique os interesses estratégicos a longo prazo dos EUA e da Europa nem comprometa a capacidade global de dissuasão, sobretudo quando se enfrentam crises geopolíticas, como as que estão atualmente em curso, que exigem coordenação, planeamento e previsibilidade. Gerir adequadamente essa sucessão de etapas permitirá preservar relações transatlânticas funcionais e voltadas para o futuro.

A aliança atlântica que daí surgir terá uma configuração diferente da que foi montada em 1949. E estará igualmente mais bem adaptada ao mundo real que hoje existe.

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