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Imagem do troféu do Mundial 2026 em foco e, ao fundo, desfocado, Donald Trump. Créditos: shutterstock

O futebol e a identidade norte-americana

O futebol é uma modalidade desportiva que simboliza um determinado tipo de relação com o mundo. Escolhido por Raquel Vaz-Pinto, investigadora do IPRI-NOVA, este texto, publicado em parceria com a «Foreign Policy», explica «o que significa, do ponto de vista político, económico e social, ser fã de futebol nos EUA.»
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Entre junho e julho, os Estados Unidos, juntamente com o Canadá e o México, coorganizam o Campeonato do Mundo da FIFA. O campeonato coincide com o 250.º aniversário da independência dos EUA. Chega também num momento político em que o governo anfitrião criou, através da sua agenda mais vasta de combate à imigração, fortes obstáculos à participação de adeptos de muitos dos países qualificados. Ao mesmo tempo que acolhem o Campeonato do Mundo, os Estados Unidos impedem a entrada dos adeptos do Campeonato do Mundo.

Em inúmeras ocasiões, tem-se chamado a atenção para esta contradição, mas o que mais passou despercebido é o facto de este ser apenas o capítulo mais recente de um debate, travado no interior do futebol norte-americano, que começou na década de 1870 — um debate, conduzido através do desporto, sobre quem pertence aos Estados Unidos e a quem o país pertence.

Nos últimos 150 anos, sem interrupção, o facto de os norte-americanos jogarem futebol, assistirem a jogos ou rejeitarem este desporto tem sido uma forma de responder a uma questão mais importante: quem é que pode ser considerado americano?

O futebol chegou [aos EUA] por um caminho diferente, trazido pelas pessoas que incomodavam os nativistas norte-americanos

No século que se seguiu à independência, os norte-americanos procuraram inventar uma cultura desportiva nacional, mas também utilizaram o desporto para inventar a própria nação.

Walter Camp, um estudante universitário de Yale no final da década de 1870, redefiniu as regras do râguebi inglês para criar o futebol americano (não o futebol).

Em 1905, Albert Goodwill Spalding encomendou um estudo para determinar as origens do beisebol, tendo a Comissão Mills concluído que o jogo fora inventado por Abner Doubleday em Cooperstown, estado de Nova Iorque, em 1839. Assim, o beisebol passou a ser reivindicado como uma invenção autóctone e imaculada, livre de qualquer ascendente britânico. Como argumentam Andrei Markovits e Steven Hellerman, historiadores do futebol e autores de Offside: Soccer and American Exceptionalism, as origens da cultura desportiva dos EUA tinham de residir em solo norte-americano.

Mesmo assim, o futebol chegou por um caminho diferente, trazido pelas pessoas que incomodavam os nativistas norte-americanos. Em Fall River, estado de Massachusetts, os operários têxteis britânicos e irlandeses, bem como os imigrantes em todo o nordeste industrial, originários da Escócia, Inglaterra, Alemanha e Hungria, trouxeram consigo o «futebol das associações».

A American Soccer League (ASL), fundada em 1921, teve um breve período de sucesso graças ao apoio destes imigrantes, rivalizando com a NFL (National Football League, do futebol americano) em termos de público ao longo de toda a década de 1920. Thomas W. Cahill, um americano de origem irlandesa residente em St. Louis, passou décadas a tentar integrar os Estados Unidos no futebol mundial, deslocando-se ao Congresso da FIFA em Estocolmo em 1912 e fundando, no ano seguinte, o que viria a ser a Federação de Futebol dos EUA.

A base de adeptos constituía um eleitorado político bem definido: a classe operária industrial imigrante residente no Norte do país

A base de adeptos constituía um eleitorado político bem definido: a classe operária industrial imigrante residente no Norte do país, no período entre as duas guerras mundiais. Tratava-se de um eleitorado cuja identidade norte-americana era ativamente contestada. A Lei Johnson-Reed, de 1924, tinha acabado de impor fortes limites à imigração proveniente da Europa do Sul e de Leste; a segunda versão do Ku Klux Klan vivia um apogeu.

Quando a Grande Depressão (que, como faz notar Simon Kuper em World Cup Fever, também arruinou as finanças da FIFA) levou ao desmantelamento da ASL, o colapso coincidiu com o reavivar da questão da pertença ao/do país. O futebol regrediu para os redutos de imigrantes, onde permaneceu durante meio século.

A 29 de junho de 1950, num estádio em Belo Horizonte, no Brasil, um estudante de contabilidade haitiano chamado Joe Gaetjens, que jogava pelos Estados Unidos, marcou o único golo de um jogo do Mundial entre os Estados Unidos e a Inglaterra. Os jogadores ingleses, que eram os grandes favoritos, regressaram a casa em desgraça. A imprensa norte-americana, por seu lado, mal referiu o acontecimento. Cahill morreu em 1951, convencido de que a sua campanha tinha falhado. Os Estados Unidos não se qualificaram para nenhuma das edições do Mundial entre 1954 e 1990.

Ao longo dessas quatro décadas, a descolonização fez do futebol uma língua franca no contexto das nações pós-coloniais, e a União Soviética empenhou-se em desenvolver uma diplomacia futebolística, dirigida a esse mundo pós-colonial: aderiu à FIFA em 1952, conquistou a medalha de ouro olímpica em 1956 e desistiu de um jogo de qualificação em 1973, em Santiago do Chile, recusando jogar num estádio onde o regime de Augusto Pinochet tinha detido prisioneiros. Apesar deste cenário propício a um potencial confronto entre o soft power dos EUA e o da União Soviética, os Estados Unidos preferiram exportar o beisebol.

Para tornar o jogo mais claramente americano, a NASL redefiniu algumas regras: um relógio de contagem decrescente em vez da progressão de 90 minutos, uma linha de fora de jogo a 35 jardas [32 metros] e penáltis em vez de empates

Entretanto, em 1968, foi fundada a North-American Soccer League (NASL), um foco de grandes esperanças numa era de internacionalismo liberal. Porém, havia neste organismo uma cisão relativamente à velha questão que o desporto vinha colocando há um século.

Em Nova Iorque, o futebol era sinónimo de glamour cosmopolita, e havia grandes estrelas importadas, como Pelé, a jogar pelo Cosmos, que era financiado por investidores de Manhattan.

Para tornar o jogo mais claramente americano, a NASL redefiniu algumas regras: um relógio de contagem decrescente em vez da progressão de 90 minutos, uma linha de fora de jogo a 35 jardas [32 metros] e penáltis em vez de empates. Quando Filadélfia ganhou o campeonato de 1973 com seis titulares norte-americanos, a revista Sports Illustrated chamou a notícia à capa: «O futebol tornou-se americano». Uma capa deste tipo nunca teria feito sentido para o beisebol!

A partir de 1979, a NASL regulamentou explicitamente a «pertença» nacional, exigindo que todos os clubes fizessem alinhar pelo menos dois jogadores norte-americanos ou canadianos, número que aumentou para três em 1980.

A liga entrou em colapso em 1985, num cenário de reintensificação da Guerra Fria em que o dinheiro era preferencialmente atribuído a desportos considerados mais autenticamente americanos — aqueles em que os Estados Unidos podiam vencer a União Soviética ou em que as suas equipas seriam, com elevada probabilidade, campeãs «mundiais».

O futebol tornou-se símbolo de um determinado tipo de relação com o mundo, num contexto de globalização e de ordem internacional liberal

O país regressou ao Mundial em 1990 e foi o anfitrião em 1994. A 4 de julho de 1988 — uma data fortuita que se repete no calendário deste ano —,  a FIFA atribuiu a organização do campeonato aos Estados Unidos, sob a condição de que o país criasse uma liga profissional.

A Major League Soccer (MLS) começou a jogar em 1996. Graças à televisão por satélite e à Internet, o futebol dos clubes europeus chegou às casas dos cidadãos dos EUA. Em meados da década de 1990, as soccer moms [mães do futebol] eram já um grupo-alvo importante nas campanhas presidenciais, e o futebol funcionava cada vez mais através de um sistema de clubes privados sediados em subúrbios abastados.

Em How Soccer Explains the World, livro publicado em 2004, o jornalista Franklin Foer dedicou o capítulo final às «guerras culturais do futebol nos EUA»: torcer pelo Arsenal ou pelo Milan tornou-se uma afirmação de identidade globalizada e cosmopolita; ser fã de uma equipa da Premier League era muitas vezes associado a um semestre de faculdade passado no estrangeiro. O futebol tornou-se símbolo de um determinado tipo de relação com o mundo, num contexto de globalização e de ordem internacional liberal.

Os conservadores acusavam o interesse pelo futebol de ser uma prova prima facie ao declínio dos EUA, associando este desporto à imigração e à decadência cultural

O que conferiu a esse símbolo uma carga política foi o facto de o outro lado da guerra cultural também o encarar enquanto tal. Os conservadores acusavam o interesse pelo futebol de ser uma prova prima facie ao declínio dos EUA, associando este desporto à imigração e à decadência cultural, conforme deixaram bem claro figuras do partido como Ann Coulter, num artigo memorável de 2014. A comunidade de fãs do futebol politizou-se porque os seus opositores classificaram este desporto como antiamericano.

A par de uma cultura de fãs anglo-cosmopolitas — expressa nas equipas da MLS, transmissões da Premier League pela NBC, bandeiras do Chelsea nos subúrbios —, há uma cultura de adeptos imigrantes que se mantém.

A seleção mexicana conta com cerca de 60 milhões de adeptos a residir nos Estados Unidos, mais do que a própria seleção masculina deste país. A Liga MX foi a liga de futebol mais vista nos EUA, até ter sido ultrapassada pela Premier League em 2023; houve mais espectadores nos Estados Unidos a assistirem à final do Torneio de Abertura em 2019 do que à final da Liga dos Campeões da UEFA desse ano.

À semelhança do que acontece na escolha de um carro, de uma loja ou de um restaurante de fast food, ser fã de futebol é, nos EUA, um teste decisivo à identidade partidária

Nenhum destes eleitorados está representado na coligação governamental do presidente Donald Trump. Segundo um artigo académico, «o futebol é mais popular nos estados azuis [democratas] e menos popular nos estados vermelhos [republicanos]» e os adeptos do futebol são genericamente considerados «elitistas, liberais e presunçosos».

A classe cultural cosmopolita que assiste à Premier League posiciona-se conscientemente no polo oposto ao movimento que levou à reeleição do atual presidente. Enquanto noutros países se observam divisões de classe entre clubes de futebol, nos Estados Unidos ser-se fã do futebol tornou-se um fenómeno politizado. À semelhança do que acontece na escolha de um carro, de uma loja ou de um restaurante de fast food, ser fã de futebol é, nos EUA, um teste decisivo à identidade partidária.

Entretanto, as comunidades de imigrantes oriundos da América Latina e das Caraíbas, unidas por uma cultura futebolística de língua espanhola, estão entre os principais alvos da agenda de controlo da imigração da atual administração. Os mecanismos de controlo e fiscalização continuarão a funcionar em pleno ao longo do campeonato, no pressuposto de que os adeptos mais afetados não serão aqueles que a administração tem motivos políticos para proteger.

O caráter americano da identidade de ambos os tipos de adeptos de futebol tem sido questionado, mais ou menos nos mesmos termos que Coulter utilizou uma década atrás. Em janeiro deste ano, ao organizar uma festa para assistir à Taça das Nações Africanas, o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, mais não fez do que defender, como o fizeram 100 anos antes os trabalhadores têxteis de Fall River, que ser-se fã de futebol também é americano.

A maioria dos norte-americanos mais propensos a torcer pela seleção masculina dos EUA são provavelmente aqueles que se opõem ao governo coorganizador do campeonato

O presidente é, aliás, um anfitrião entusiasta do Mundial, tendo criado um grupo de trabalho na Casa Branca e recebido inclusivamente o primeiro Prémio da Paz da FIFA de sempre durante o sorteio. O gesto acabaria por se revelar prematuro e, desde o início da guerra contra o Irão, pelo menos um enviado sugeriu substituir a seleção iraniana pela italiana, que não conseguiu qualificar-se.

Talvez se trate de uma estratégia para conquistar o segmento da população americana que é simultaneamente composto por potenciais adeptos de futebol e potenciais eleitores de Trump. Contudo, a maioria dos norte-americanos mais propensos a torcer pela seleção masculina dos EUA são provavelmente aqueles que se opõem ao governo coorganizador do campeonato.

O Mundial de 2026 coincide com as comemorações do aniversário dos EUA, num momento ilustrativo da forma como, neste país, o futebol tem levantado sistematicamente a questão de saber quem é de facto americano. O governo coanfitrião do campeonato tem uma resposta. Os adeptos de futebol têm outra.

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