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Donald Trump e Xi Jinping lado a lado, a andar sobre uma passadeira vermelha, na cerimónia de boas-vindas do presidente americano à China.

O pragmatismo de Trump em relação à China é bem-vindo

A rivalidade com Pequim é inevitável. Uma rutura económica seria desastrosa. Este texto, publicado em parceria com a «Foreign Policy», foi escolhido por Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE-IUL, que lembra que «esta relação bilateral é demasiado importante para a economia e segurança global para poder dispensar bons canais de comunicação».
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Os leitores habituais desta coluna sabem que não sou um apologista da política externa do presidente Donald Trump no seu segundo mandato. Das ameaças de se apoderar da Gronelândia e de anexar o Canadá ao aumento unilateral de taxas alfandegárias para níveis astronómicos, passando pelo fiasco da guerra com o Irão, Trump tem sido imprudente, caótico e profundamente desestabilizador. Há, no entanto, uma área fundamental em que os seus instintos — e talvez até as suas opções políticas — me parecem acertados: a relação entre os EUA e a China.

Nas recentes interações de Trump com Xi Jinping, tivemos uma versão raramente vista do presidente norte-americano. Trump mostrou-se respeitoso, quase reverente, empenhado em destacar a sua relação pessoal com Xi. Este, pelo contrário, manteve-se formal, contido e nunca particularmente caloroso. A assimetria foi reveladora.

Trump tem faro para a fragilidade e tira o máximo partido dela

Trump é obcecado com o poder. Mais do que a ideologia ou os valores, o presidente norte-americano pensa em termos de trunfos negociais e poderio. Insulta os aliados europeus porque sabe até que ponto estes continuam dependentes da proteção militar norte-americana e do acesso aos mercados norte-americanos. Trump tem faro para a fragilidade e tira o máximo partido dela.

Porém, com a China, acabou por compreender algo que, em grande medida, Washington ainda tem dificuldade em aceitar emocionalmente: Pequim também tem grandes capacidades em dimensões-chave — económica, tecnológica, industrial e militar — e sabe utilizá-las com eficácia. Assim, de uma postura beligerante, Trump evoluiu para uma atitude mais complexa, que combina rivalidade e cooperação. E talvez seja precisamente isso que a relação entre os dois países exige.

Compare-se esta visita de Trump [à China, em maio de 2026] com o primeiro encontro entre os enviados de Biden e os seus homólogos chineses em Anchorage, realizado em 2021. Os diplomatas norte-americanos optaram por uma repreensão pública à China, divulgada pelos canais televisivos, condenando as suas violações dos direitos humanos, os seus ataques no ciberespaço e a sua disrupção da ordem global. Os diplomatas chineses responderam com igual veemência. O resultado foi menos um encontro diplomático sério do que uma polémica pública para conquistar audiências nos canais noticiosos.

Uma boa parte dos democratas centristas temem ser retratados como demasiado «brandos com a China». Por isso, tendem a contrariar essa imagem através de uma retórica maximalista

Nos Estados Unidos, uma boa parte dos democratas centristas temem ser retratados como demasiado «brandos com a China». Por isso, tendem a contrariar essa imagem através de uma retórica maximalista, multiplicando os confrontos simbólicos.

Depois de inicialmente se ter mostrado cético em relação às taxas aduaneiras impostas por Trump à China, prometendo revogá-las, o presidente Joe Biden acabou por mantê-las quase todas em vigor. Além disso, no seu mandato, Biden nunca visitou a China, nem convidou Xi para Washington.

O gabinete de Biden também subscreveu a acusação — lançada pela primeira administração Trump — segundo a qual as ações repressivas da China na região de Xinjiang constituíam um genocídio, uma palavra que evoca ações de extermínio em larga escala como o Holocausto ou o massacre de 1994 no Ruanda. As prisões e os campos de reeducação chineses em Xinjiang são hediondos, e a perseguição aos uigures já foi classificada como um genocídio por dezenas de académicos. No entanto, como fez notar a revista The Economist, estas ações chinesas não correspondem ao que a maioria das pessoas associa à palavra «genocídio».

O volume da produção industrial da China supera a soma da produção total dos EUA, do Japão e da Alemanha

O grande trunfo de Trump é não poder ser atacado pela direita. Ganhou as eleições de 2016 com uma campanha feroz contra a China, responsabilizando-a pela perda de postos de trabalho no setor industrial, pelos desequilíbrios comerciais e pela queda da produção fabril nos Estados Unidos. De certa forma, a analogia adequada não é a de «Nixon a ir à China», mas sim a do presidente Ronald Reagan — o grande falcão, à direita do presidente Richard M. Nixon — a ir à União Soviética.

Trump pode dar-se ao luxo de proceder a uma viragem deste tipo precisamente porque a sua base de apoio o seguirá para onde ele quiser. A comprová-lo, veja-se a rapidez com que muitas figuras do movimento MAGA [make America great again] mudaram de opinião relativamente ao Irão a partir do momento em que Trump deixou claro o seu apoio à intervenção militar.

Porque é que pode fazer sentido adotar uma abordagem mais cooperativa em relação à China? Porque, de facto, a China não é a União Soviética. Tomando o PIB como indicador, no final da Guerra Fria a economia soviética era menor do que a de Itália. Em contrapartida, a China é a segunda maior economia do mundo, o principal parceiro comercial de mais de 120 países e uma potência tecnológica em domínios que vão dos veículos elétricos e baterias aos drones, da indústria de ponta à inteligência artificial. O volume da sua produção industrial supera a soma da produção total dos EUA, do Japão e da Alemanha.

Uma situação de guerra fria em grande escala contra a China em nada se assemelharia ao conflito com a União Soviética (...) sgnificaria destruir a própria economia global

Uma situação de guerra fria em grande escala contra um país deste tipo em nada se assemelharia ao conflito com a União Soviética num mundo que já estava dividido em dois campos. Significaria destruir a própria economia global. Os consumidores norte-americanos teriam de enfrentar preços mais elevados e crises de abastecimento de certos produtos. As empresas norte-americanas perderiam o acesso a um dos maiores mercados do mundo. As universidades perderiam muitos dos seus melhores estudantes. Mas os prejuízos não seriam meramente económicos.

Uma guerra fria com a China levaria à criação de dois blocos tecnológicos e geopolíticos hostis, numa espiral de confrontação crescente.

É evidente que os EUA e a China são rivais. Num mundo bipolar, isso é inevitável. Seguramente, nas próximas décadas, os dois países vão competir ao nível económico, militar e estratégico. Mas a rivalidade não implica necessariamente uma rutura total. Nas semanas antes de morrer, Henry Kissinger disse-me que, na sua opinião, os futuros líderes dos EUA e da China não deveriam perder de vista o modo como, em 1914, nacionalistas numa competição cega às suas consequências resultaram numa guerra mundial que destruiu toda a ordem global.

 

Os dois países devem competir com determinação, mas, simultaneamente, devem manter relações comerciais, dialogar e colaborar sempre que possível

Na era da inteligência artificial, da ciberguerra e das armas nucleares, manter abertos os canais de cooperação é mais importante do que nunca. Os dois países devem competir com determinação, mas, simultaneamente, devem manter relações comerciais, dialogar e colaborar sempre que possível, seja em matérias de estabilidade nuclear, de segurança da IA, de pandemias ou de crises financeiras.

Durante a Guerra Fria, Washington e Moscovo sempre mantiveram conversações de controlo de armamento, mesmo em momentos de grande tensão, porque ambos os lados sabiam que se entrassem numa competição descontrolada poderiam causar uma catástrofe.

Hoje, esse perigo continua a ser real. E se Trump — por razões mais radicadas no instinto do que na reflexão — acabou por reconhecer esta realidade fundamental, então, pelo menos nesta questão, o seu pragmatismo faz todo o sentido.

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