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Imagem de robôs, dentro de um ringue, com luvas de boxe. Uma plateia a assistir e a filmar.

A China está a ganhar a corrida mundial pela IA

Os modelos de ponta dos EUA são demasiado caros para uma grande parte do mundo. Publicado em parceria com a «Foreign Policy», este artigo «absolutamente surpreendente», diz Raquel Vaz- Pinto, investigadora do IPRI-NOVA, explica a rivalidade entre os EUA e a China na corrida global pela inteligência artificial.
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Atualmente, qual é o modelo de inteligência artificial (IA) mais popular? Se perguntar a qualquer pessoa nos Estados Unidos ou na Europa, vai provavelmente ouvir falar dos méritos do ChatGPT da OpenAI, do Claude da Anthropic ou do Gemini da Google. Tudo errado. Nas últimas duas semanas, a IA mais utilizada no mundo foi um modelo de que poucos ocidentais alguma vez ouviram falar: o Kimi K2.6, um modelo chinês de código aberto que ficou em primeiro lugar no ranking do OpenRouter.

Este dado revela que, ao focarem as suas atenções nos semicondutores de referência e em saber qual é o modelo de IA mais avançado, os decisores políticos e os CEO ocidentais estão possivelmente a fixar-se na corrida errada. Pelo seu lado, a China tem construído silenciosamente um caminho diferente: um ecossistema de modelos de código aberto que são baratos e, simultaneamente, têm qualidade suficiente para a maioria dos tipos de utilização. Quando os países ocidentais se aperceberem finalmente desta realidade, é bem possível que os modelos de IA chineses se tenham tornado as referências globais e se revelem difíceis de substituir, mesmo que o Ocidente disponha de tecnologias mais avançadas.

 

Com a sua aposta na estratégia de IA de código aberto, Pequim está, no fundo, a reinventar a lógica subjacente à Nova Rota da Seda

Segundo a narrativa ocidental, o controlo sobre as exportações dos EUA impede que a China aceda a chips de processadores de ponta, o que abranda o desenvolvimento das empresas chinesas de IA. Embora sendo isso verdade, há outra face igualmente relevante da história: estando Pequim centrada em modelos de IA de acesso universal e com uma boa relação custo-benefício, as empresas chinesas não precisam dos chips mais recentes para vencer a corrida global da IA.

Veja-se o Kimi K2.6, o emblemático modelo de código aberto da Moonshot AI, sediada em Pequim. Por comparação com as melhores referências deste setor, o Kimi K2.6 é muito semelhante aos modelos ocidentais de ponta, como o Claude Opus 4.7 da Anthropic e o GPT-5.5 da OpenAI. Em termos de preço, situa-se noutro universo: o Kimi custa cerca de 4 dólares por milhão de tokens de saída, sendo entre seis e oito vezes mais barato do que o Opus 4.7 e o GPT-5.5. (Um token é a unidade básica em que um modelo de linguagem divide o texto para o processar.) Para um utilizador ocasional, esta diferença de custo pode não ter grande importância. Para uma empresa que gere centenas de utilizadores de IA, pode ser decisiva.

O Kimi não é um caso isolado. Enquanto o modelo Moonshot lidera os rankings de utilização em interface, o Qwen da Alibaba, também chinês, tem progredido rapidamente no sentido de se tornar o ecossistema de referência para modelos de IA alojados localmente. Dois factos ilustram esta evolução. Em primeiro lugar, em março, o Qwen tinha conquistado mais de 50% das transferências globais de modelos de código aberto, tendo ultrapassado o seu maior concorrente ocidental, o Llama da Meta, no final de 2025. Em segundo lugar, o Qwen já foi transferido cerca de mil milhões de vezes. O Qwen não é interessante apenas para as empresas preocupadas com os custos. Em novembro passado, o governo de Singapura anunciou que iria abandonar o Llama e criar o seu próprio modelo de IA soberano a partir do Qwen.

A aposta da China na IA é uma estratégia de longo prazo com um claro objetivo final: garantir que os modelos chineses de IA se tornem (e, assim, definam) os modelos globais

Com a sua aposta na estratégia de IA de código aberto, Pequim está, no fundo, a reinventar a lógica subjacente à Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative — BRI), de certa forma virando-a do avesso. No âmbito da BRI, as empresas chinesas construíam infraestruturas em países terceiros com pleno financiamento público chinês, numa tentativa de fidelizar esses países e mantê-los na órbita da China. A implementação de modelos de IA chineses de código aberto segue a mesma lógica, mas desta vez a infraestrutura é invisível e gratuita.

O custo marginal de distribuição da IA é quase inexistente (os principais custos — servidores e eletricidade para os alimentar — são suportados pelo país anfitrião), o que faz da implementação da IA um investimento muito mais barato para Pequim do que a construção de portos, ferrovias ou centrais elétricas. Além disso, a BRI criou infraestruturas chinesas com elevado grau de visibilidade, algumas das quais se revelaram impopulares. Em contrapartida, a dependência da IA é invisível tanto para os decisores políticos como para a população, o que reduz as probabilidades de contestação.

A aposta da China na IA é uma estratégia de longo prazo com um claro objetivo final: garantir que os modelos chineses de IA se tornem (e, assim, definam) os modelos globais. A lógica subjacente é que, ao instituir uma ferramenta-padrão de IA, a China pode rapidamente tornar-se a referência de facto no setor.

Quando os programadores e as empresas recorrem às arquiteturas criadas na China, acabam por aplicar premissas técnicas e modelos chineses, conferindo a Pequim um poder de influência a longo prazo. Trata-se de uma abordagem que integra uma estratégia mais ampla: Pequim estabeleceu o plano «China Standards 2035», em que estipula o objetivo nacional de fazer com que os produtos chineses se tornem referências mundiais, com vista a definir os modelos tecnológicos da próxima geração.

Nos últimos anos, esta abordagem foi testada pela China através da disponibilização gratuita do acesso ao software de transporte marítimo Logink. Esta plataforma depressa se tornou uma referência no setor da logística marítima, tendo sido implementada em pelo menos 86 portos de 24 países.

A batalha pela definição dos modelos globais de IA será maioritariamente travada no Sul Global

A batalha pela definição dos modelos globais de IA será maioritariamente travada no Sul Global. As economias ocidentais fixaram-se nos modelos dos EUA, enquanto a China opera com os seus próprios modelos. Os países decisivos para o desfecho desta batalha encontram-se no resto do mundo, e há três fatores que colocam os modelos chineses em posição de vantagem para conquistar essas regiões. Em primeiro lugar, a IA produzida nos EUA é demasiado cara para ser plenamente implementada nas economias em desenvolvimento, mais sensíveis aos custos.

Em segundo lugar, os modelos norte-americanos são, por norma, alimentados com dados ocidentais, o que os torna inadequados para compreender os contextos locais nos países do Sul Global. Em contrapartida, os modelos chineses de código aberto podem ser descarregados e adaptados com os dados específicos de cada país. Um exemplo paradigmático é o AfriqueQwen-14B, uma IA construída a partir do Qwen que foi adaptada a 20 línguas africanas através do treino com dados africanos. O modelo ocidental de código aberto de referência — o Llama — apenas disponibiliza umas poucas línguas do Sul Global.

Em terceiro lugar, o crescente ressentimento de várias regiões do globo contra os Estados Unidos tem contribuído para reforçar a estratégia da China. Para tirar o máximo partido desta circunstância, Pequim não precisa de mover uma palha, uma vez que Washington encara a competição global em matéria de IA como uma corrida pela segurança nacional, em que tem de vencer a China, e não oferece nada aos países que precisam de ferramentas de baixo custo e com qualidade suficiente.

Esta questão ficou bem patente em duas importantes cimeiras sobre o impacto da IA nas economias do Sul Global. Em abril de 2025, em Kigali, no Ruanda, a Cimeira Mundial sobre a IA em África e a respetiva Declaração Africana sobre IA apelaram a uma governação da IA assente na ética, na sustentabilidade e na responsabilidade — algo que provavelmente soaria estranho aos executivos tecnológicos de Silicon Valley.

Pequim pode sempre ameaçar desligar os seus modelos de IA, nomeadamente restringindo o acesso a atualizações em países que procurem estabelecer relações com Taiwan

Na Cimeira sobre o Impacto da IA na Índia, realizada em fevereiro, os decisores políticos do Sul Global redobraram a aposta. Nova Deli enquadrou a ordem dos trabalhos sob o lema «Pessoas, Planeta e Progresso», sublinhando a importância da capacitação social, do desenvolvimento e da inclusão. À margem da cimeira, Amitabh Kant, antigo sherpa da Índia no G-20, declarou: «Estamos a fornecer mais dados à OpenAI do que os EUA. Os dados do Sul Global estão a ajudar a aperfeiçoar modelos. Os EUA irão vender produtos de custo elevado aos países do Sul Global. Por isso, a Índia precisa de construir modelos com base nos seus próprios dados.»

A objeção óbvia a esta narrativa — segundo a qual os países do Sul Global poderiam rejeitar a IA chinesa por motivos de segurança — afigura-se frágil. Os governos do Sul Global não rejeitaram nem as ferrovias, nem as centrais elétricas, nem os portos construídos pelos chineses no âmbito da BRI. Não existindo oferta ocidental de IA a preços acessíveis no horizonte (neste momento, as empresas de IA dos EUA atravessam dificuldades financeiras, sendo improvável que baixem os preços), há ainda menos motivos para esperar um comportamento diferente desta vez. Além disso, a oferta chinesa de IA é especialmente difícil de recusar. Para isso contribui o facto de os modelos de código aberto não terem um fornecedor único, sendo distribuídos discretamente através de websites públicos, e não por via da assinatura de contratos entre Estados, em negócios que podem gerar manchetes e impopularidade.

Os analistas que desconfiam da opção chinesa podem igualmente sugerir que os modelos de Pequim trazem a censura do Partido Comunista da China incorporada. Mesmo quando alojado localmente, o DeepSeek por vezes recusa-se a responder a perguntas sensíveis. Porém, essa censura tem sido dirigida especificamente a temas sensíveis para a China, como Taiwan, Tiananmen, Tibete e Xinjiang, o que a torna praticamente irrelevante para as necessidades locais no Sul Global. É certo que Pequim pode sempre ameaçar desligar os seus modelos de IA, nomeadamente restringindo o acesso a atualizações em países que procurem estabelecer relações com Taiwan. No entanto, sob a presidência de Donald Trump, Washington tem-se revelado errática e imprevisível, o que dá aos líderes do Sul Global motivos de sobra para acreditarem que, a longo prazo, mais vale confiar na IA chinesa do que depender da tecnologia norte-americana.

Mais do que centrarem-se a disputa entre o ChatGPT, o Claude e o Gemini, os decisores políticos ocidentais talvez devam refletir sobre as suas próprias propostas de IA a apresentar ao Sul Global

No mundo da IA, a verdadeira competição pode não residir no hardware nem no acesso aos chips mais avançados. Pelo contrário, é muito possível que a corrida global pela IA seja sobretudo uma disputa para decidir quais serão os modelos que se tornarão a infraestrutura de referência nos países ainda em aberto. A China não precisa de dominar os modelos mais avançados para vencer a corrida pela IA. Se os modelos chineses se tornarem a opção economicamente mais acessível e com qualidade suficiente nos mercados emergentes, Pequim terá assegurado uma influência que ficará por décadas.  

Na corrida pela IA, mais do que centrarem-se a disputa entre o ChatGPT, o Claude e o Gemini, os decisores políticos ocidentais talvez devam refletir sobre as suas próprias propostas de IA a apresentar ao Sul Global, antes que os modelos sejam fixados. Até lá, os programadores da Ásia, da África e da América Latina continuarão a aperfeiçoar as suas arquiteturas com base no Kimi, no Qwen e no DeepSeek.

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