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Imagem aérea de uma exploração minéria de terras raras, em Moutain Pass, nos EUA.

As terras raras tornaram-se a principal arma comercial da China

Washington nem sempre foi tão vulnerável ao domínio de Pequim na produção de terras raras - metais e minerais essenciais usados, por exemplo, em toda a tecnologia de defesa, na produção de energia verde e em tratamentos médicos. Este é o 18º artigo da «Foreign Policy», publicado pela Fundação em parceria editorial com esta revista internacional. Uma escolha de Raquel Vaz-Pinto, investigadora do IPRI-NOVA, pela «importância quase omnipresente destas matérias-primas no nosso quotidiano».
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Ao longo dos vários meses de negociações comerciais tensas entre os EUA e a China, tornou-se evidente até que ponto os Estados Unidos dependem da China para obter terras raras  matérias-primas essenciais para incontáveis tecnologias, dos caças a jato às turbinas eólicas.

Desde que, em abril de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a imposição de taxas aduaneiras sobre grande parte do mundo, chegando a aumentar as tarifas aplicadas à China para uns impressionantes 145%, Washington e Pequim mantêm-se em estado de guerra comercial aberta. A China retaliou, tirando partido de uma das principais vulnerabilidades de Washington: as terras raras.

A par de outras contramedidas, Pequim impôs novos limites às suas exportações, sobretudo direcionadas para as terras raras pesadas que produz. A China mantém um domínio absoluto sobre as cadeias de abastecimento mundiais destes minerais: as empresas chinesas controlam cerca de 85% da extração e processamento de terras raras e 92% da produção de ímanes.

Antes de Trump assumir o cargo, no início de 2025, Pequim já tinha proibido as exportações das tecnologias necessárias à produção, extração e separação de ímanes de terras raras.

Nas negociações comerciais entre os EUA e a China, «ficou claro que os metais raros e os minerais essenciais são o calcanhar de Aquiles dos EUA», afirmou Ashley Zumwalt-Forbes, que, durante a administração Biden, foi vice-diretora para o setor das baterias e minerais essenciais no Departamento de Energia dos EUA. «Não se pode subestimar a sua importância», resumiu.

Antes de Trump assumir o cargo, no início de 2025, Pequim já tinha proibido as exportações das tecnologias necessárias à produção, extração e separação de ímanes de terras raras. As contramedidas mais recentes foram ainda mais longe, o que desencadeou fortes protestos por parte dos fabricantes norte-americanos e levou a duas rondas de negociações de alto nível entre responsáveis dos dois países.

Após semanas de negociações frustradas e trocas de acusações, o Ministério do Comércio da China confirmou, no final de junho, que aprovaria os pedidos de exportação de terras raras para os Estados Unidos e que, em contrapartida, Washington «cancelaria uma série de medidas restritivas que tomou contra a China».

As terras raras tornaram-se a «ferramenta mais poderosa» da China nas negociações, afirmou Gracelin Baskaran, especialista em segurança de minerais essenciais no Center for Strategic and International Studies. «Os EUA precisam de ter acesso às terras raras e, por essa razão, estão dispostos a negociar. Para a China, isso é um forte instrumento de negociação.»

Desde os sistemas de armamento mais avançados até às infraestruturas necessárias para a energia verde, as terras raras são componentes essenciais de muitas tecnologias de ponta.

Mas, afinal, o que são as terras raras? De forma simples, trata-se de um conjunto de 17 elementos metálicos da tabela periódica, com nomes como neodímio ou disprósio.

Existem dois tipos de terras raras, explicou Baskaran: leves e pesadas. A China domina sobretudo a separação das terras raras pesadas, o que fez com que as restrições mais recentes  incidindo precisamente sobre estas  tivessem um impacto muito negativo para os Estados Unidos. «Não temos fontes alternativas de terras raras pesadas», afirmou.

Apesar do nome, não são realmente assim tão raras. «O nome é, na verdade, um equívoco», explicou Adam Webb, analista da consultora Benchmark Mineral Intelligence. «Estes minerais não são tão incomuns na crosta terrestre. O que é realmente difícil e desafiante é o seu processamento.»

Desde os sistemas de armamento mais avançados até às infraestruturas necessárias para a energia verde, as terras raras são componentes essenciais de muitas tecnologias de ponta. Cada caça F-35, por exemplo, integra mais de  400 quilos de terras raras; uma turbina eólica exige mais de 450 quilos destes minerais.

«As terras raras estão em todas as formas de tecnologia de defesa; são usadas em aparelhos de ressonância magnética, no tratamento de cancros; estão nos telemóveis, nos computadores portáteis, nos chips», acrescentou Baskaran. «Por serem tão transversais, a sua escassez não afeta apenas um setor isolado.»

Ao longo de décadas, Pequim investiu grandes volumes de capital e recursos em investigação e infraestruturas industriais, abrindo caminho ao domínio atual do mercado.

No que diz respeito às cadeias de abastecimento, Washington nem sempre foi tão vulnerável ao domínio de Pequim.

Em tempos, os Estados Unidos foram o maior produtor mundial de terras raras, recorda Baskaran. Contudo, há várias décadas que a indústria mineira norte-americana se retraiu, à medida que aumentavam as preocupações ambientais e as empresas enfrentavam dificuldades financeiras. Os legisladores passaram a encarar a mineração como uma atividade que podia ser deslocalizada para outros países e, em 1996, o Congresso extinguiu o Departamento de Minas dos EUA.

Enquanto os EUA abandonavam a mineração, a China redobrava esforços. Ao longo de décadas, Pequim investiu grandes volumes de capital e recursos em investigação e infraestruturas industriais, abrindo caminho ao domínio atual do mercado, o que lhe permitiu definir preços mundiais e tornou difícil a concorrência de outros países.

Além disso, a China tem usado os minerais raros como arma geopolítica, como quando interrompeu temporariamente as exportações para o Japão em 2010. A medida abalou Tóquio, que rapidamente procurou reduzir a dependência de Pequim. A Casa Branca, pelo contrário, não tomou medidas semelhantes.

A tentativa, por parte de Trump, de reforçar a segurança da cadeia de abastecimento de minerais é central na forma como o governo aborda as relações com a Ucrânia, a Gronelândia e o Canadá.

«A questão é que, há já 15 anos  15!  os chineses proclamaram que dominavam o setor e que, por essa via, controlariam tudo», afirmou Christopher Ecclestone, estratega da consultora Hallgarten & Co. «Aparentemente, em Washington ninguém lhes prestou atenção.»

Se os legisladores norte-americanos não prestaram atenção na altura, agora prestam. As terras raras e os minerais essenciais foram prioritários tanto na primeira administração Trump como na administração Biden. Para incentivar a produção interna, Biden promulgou a Lei para a Redução da Inflação (Inflation Reduction Act).

No segundo mandato de Trump, os recursos naturais voltaram ao centro das atenções, com o presidente a usar os minerais essenciais como argumento para declarar uma emergência energética nacional no seu primeiro dia de regresso ao cargo. A tentativa, por parte de Trump, de reforçar a segurança da cadeia de abastecimento de minerais é central na forma como o governo aborda as relações com a Ucrânia, a Gronelândia e até o Canadá. Segundo a Bloomberg, Trump pondera ainda reativar organismos da era da Guerra Fria para fomentar projetos de exploração de terras raras.

Nos últimos meses, legisladores democratas e republicanos apresentaram vários projetos de lei  como a Lei para a Segurança de Ímanes de Terras Raras (Rare Earth Magnet Security Act) e a Lei para a Segurança de Minerais Essenciais (Critical Minerals Security Act)  destinados a promover a indústria nacional e reduzir a dependência de Pequim.

Para criar novas cadeias de minerais e desenvolver capacidade de processamento são precisos vários anos, e os EUA partem em desvantagem nesta corrida geopolítica.

No centro destes esforços está a MP Materials, responsável pela única mina de terras raras atualmente operacional nos EUA e beneficiária de vários subsídios federais. Em 2024, segundo a própria empresa, recebeu um crédito fiscal de 58,5 milhões de dólares para construir a primeira unidade industrial totalmente integrada de ímanes de terras raras do país.

«Acho que houve uma mudança profunda de mentalidade nas instituições governamentais e no setor», afirmou Matt Sloustcher, diretor de comunicações da MP Materials. «A ideia de que estamos perante uma ameaça deixou de ser meramente teórica.»

Ainda assim, apesar dos esforços para criar novas cadeias de abastecimento, os analistas consideram que, no futuro próximo, a China deverá manter o seu domínio. Para criar novas cadeias de minerais e desenvolver capacidade de processamento são precisos vários anos, e os EUA partem em desvantagem nesta corrida geopolítica.

«Os EUA vão continuar a depender da produção chinesa por mais algum tempo», afirmou Webb, da Benchmark. «As terras raras são uma moeda de troca muito forte. A China pode continuar a utilizá-las nas negociações porque, na prática, não existe nos EUA uma torneira que, de repente, comece a produzir mais metais de terras raras.» E concluiu: «É preciso tempo para desenvolver depósitos e é preciso tempo para desenvolver capacidade de refinação.»

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