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Ursula von der Leyen sentada ao lado de Donald Trump, com duas bandeiras dos EUA atrás.

Destruir a União Europeia é o modelo de negócios de Trump

Washington quer carta-branca para os investimentos de Silicon Valley e da Rússia. A UE é um obstáculo para os EUA, ao passo que a extrema-direita é uma aliada.
Este é o 16º artigo da «Foreign Policy», publicado pela Fundação em parceria editorial com esta revista internacional. Escolhido por Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE-IUL, este texto dá a conhecer «a estratégia económica norte-americana, que passa pelo enfraquecimento da Europa».
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Perante os ataques políticos e económicos que o presidente dos EUA, Donald Trump, desferiu ao longo do último ano, os líderes europeus reagiram com elogios, jantares de gala organizados pela casa real britânica e a promessa de comprar mais armas e gás natural liquefeito aos EUA. Contudo, contrariamente às expectativas de quem acreditava ter desvendado o segredo para lidar com Trump, os ataques dos EUA à Europa foram-se multiplicando ao longo do tempo.

Em novembro, Trump apresentou uma proposta de paz, constituída por 28 alíneas, para resolver a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, sem consultar a Ucrânia. Entretanto, a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada em Dezembro, declara que a Europa está em «declínio económico» e a atravessar um processo de «extinção civilizacional», apoiando abertamente partidos hostis à União Europeia (UE).

Não se trata de decisões impulsivas e desconexas. No seu conjunto, elas concorrem para a prossecução de uma estratégia concebida para alcançar as ambições geoeconómicas da administração Trump: total liberdade desregulamentada para as empresas tecnológicas de Silicon Valley na Europa e a reativação das relações comerciais com a Rússia à custa da soberania ucraniana e europeia.

Os responsáveis da administração Trump para as negociações de paz já não pretendem usar os ativos congelados da Rússia para reconstruir a Ucrânia.

Quer o desejo da administração Trump de abrir a Rússia ao investimento norte-americano, quer o desejo de manter a Europa aberta às empresas tecnológicas dos EUA exigem uma única e a mesma coisa: a debilitação estrutural da UE. Ao atuarem precisamente neste sentido, os partidos de extrema-direita europeus são não apenas aliados ideológicos, mas também uma parte integrante do plano de negócios de Trump.

Os observadores europeus ficaram alarmados devido a vários aspetos da proposta de paz de Trump para a Rússia e a Ucrânia. Há, porém, um novo detalhe que deve ser considerado especialmente alarmante. Segundo um artigo recente do Wall Street Journal, os responsáveis da administração Trump para as negociações de paz já não pretendem usar os ativos congelados da Rússia para reconstruir a Ucrânia. Pelo contrário, consideram que esse dinheiro deve servir como capital de investimento para um maior envolvimento económico norte-americano na Rússia.

Em concreto, essa opção permitiria que as empresas norte-americanas adquirissem ativos ou participassem em joint ventures, tirando partido dos fundos retidos pela Europa.

Este plano terá sido delineado em Miami pela equipa de negociação de Trump e os seus congéneres russos, no âmbito de conversações sobre como revitalizar a economia russa, que vale dois biliões de dólares.

Ao normalizarem as relações com a Rússia, os EUA esperam criar espaço comercial para que as suas empresas sejam as primeiras a penetrar nos setores de que os europeus foram excluídos.

Neste contexto, a agenda de Trump pode ser entendida não como um plano diplomático para a paz, mas antes como um plano de reestruturação empresarial: reativar o gasoduto Nord Stream 2, reintegrar a Exxon no projeto de gás de Sacalina, adquirir empresas energéticas russas em dificuldades, como a Lukoil, e desenvolver projetos de gás natural e terras raras no Ártico.

Ao normalizarem as relações com a Rússia, os EUA esperam criar espaço comercial para que as suas empresas sejam as primeiras a penetrar nos setores de que os europeus foram excluídos, beneficiando das consequentes vantagens.

No entanto, esses projetos tornar-se-iam mais lucrativos se a Europa voltasse a abrir os seus mercados à Rússia, especialmente à energia russa. Para tal, é preciso atenuar as sanções contra a Rússia, liberalizar os licenciamentos e eliminar a resistência política no interior da UE.

Em suma, o plano de paz de Trump para a Ucrânia é um instrumento político que vai abrir caminho para uma série de acordos comerciais lucrativos. Para o levar a bom porto, é preciso superar obstáculos: os governos europeus e as instituições da UE.

A existência de uma UE forte e coesa é o maior obstáculo ao plano de negócios alargado da administração norte-americana.

Acontece que os gigantes tecnológicos de Silicon Valley também veem Bruxelas como uma forte ameaça aos seus modelos de negócio. Enquanto a administração Trump pressiona no sentido de uma desregulamentação total das empresas de inteligência artificial nos Estados Unidos, a UE e os seus Estados-membros mantêm o compromisso e a capacidade de regulamentar a atividade das grandes empresas tecnológicas.

A administração Trump intensificou os seus ataques à Europa depois de a UE ter imposto uma multa de 140 milhões de dólares à X, de Elon Musk, que acusou de usar um design enganador e de falta de transparência.

No âmbito de uma iniciativa de regulamentação mais abrangente, Bruxelas está igualmente a investigar a Meta e a Google relativamente a funcionalidades da IA, ao acesso a dados e ao controlo de plataformas.

Como escreveu Ed Luce, jornalista britânico do Financial Times, quando olham para a Europa, os empresários de Silicon Valley e a equipa de Trump «apenas veem obstáculos a ultrapassar». De novo, fica claro que a existência de uma UE forte e coesa é o maior obstáculo ao plano de negócios alargado da administração norte-americana.

Os líderes europeus não podem dar-se ao luxo de se deixarem dividir ou manipular no sentido de fazerem concessões unilaterais nas negociações com os EUA.

Como pode a Europa responder a esta ofensiva? O problema central é o facto de, enquanto prosseguem os ataques da Rússia na Ucrânia, a Europa depender dos Estados Unidos em matéria de segurança, o que confere uma vantagem significativa à administração Trump em qualquer escalada de tensões. A Europa está empenhada em extinguir um incêndio no seu quintal, ao mesmo tempo que o bombeiro se prepara para chegar a acordo com o incendiário.

Nestas circunstâncias, os líderes europeus têm de encontrar uma resposta unificada e vigorosa  a começar pela clareza quanto ao que a Europa espera de Washington. Um ponto de partida razoável é que sejam firmemente respeitadas as linhas vermelhas da Europa em relação à Rússia e à Ucrânia, e que se ponha fim à interferência dos EUA nos assuntos políticos internos da Europa. Esta tomada de posição deve ser alicerçada num plano de paz europeu para a Ucrânia.

Os líderes europeus não podem dar-se ao luxo de se deixarem dividir ou manipular no sentido de fazerem concessões unilaterais nas negociações com os Estados Unidos. Em matéria de política digital, a Comissão Europeia detém plenas competências e deve usar a sua autoridade com firmeza. No entanto, deixou de ser possível coordenar a política para a guerra russo-ucraniana através das estruturas formais da UE, cujas negociações serão garantidamente inviabilizadas pela Hungria e a Eslováquia.

Os EUA não podem operacionalizar o seu plano para a Rússia à revelia das decisões legais da Europa e das suas infraestruturas financeiras.

Doravante, os líderes europeus devem reunir esforços através de uma coligação informal de Estados-membros com uma agenda política comum. Essa coligação já existe em versão embrionária: há muito que os líderes da Alemanha, da Finlândia, de França e de Itália coordenam a sua ação diplomática junto de Trump  um grupo que deve agora alargar-se, integrando a Dinamarca, a Polónia, os Países Baixos, a Noruega e outros Estados-membros da UE com ideias semelhantes. A recente decisão, tomada pela UE, de prolongar as sanções à Rússia através de uma votação por maioria foi um passo importante para contornar as potenciais forças de bloqueio.

Atualmente, a UE controla a maior parte dos ativos soberanos russos que foram congelados, bem como os mecanismos legais necessários para utilizar os seus lucros avultados. Assim, os Estados Unidos não podem operacionalizar o seu plano para a Rússia à revelia das decisões legais da Europa e das suas infraestruturas financeiras. A Europa tem, portanto, um real trunfo negocial nesta questão, e tem de estar pronta para dele tirar partido.

Por outro lado, os europeus devem criar uma lista coordenada dos ativos europeus que os Estados Unidos valorizam e não querem perder. Isso implica olhar para os Estados-membros e o mercado único da UE enquanto um dos maiores mercados do mundo para empresas de tecnologia, agronegócio, serviços e plataformas digitais dos EUA.

Washington também depende da Europa numa vasta gama de outros domínios, nomeadamente a produção de bens fundamentais para a indústria avançada e as cadeias de abastecimento de tecnologias essenciais.

Caso não consiga unir-se e fazer frente às interferências dos EUA, a Europa vai acabar numa situação em que os seus próprios ativos (...) e as suas próprias instituições políticas serão usados contra ela.

Por fim, a Europa tem de criar uma narrativa pública coerente, capaz de combater a interferência política dos EUA na Europa, a qual se processa através do apoio a partidos de extrema-direita. O principal público-alvo desta narrativa devem ser os próprios europeus.

Em vez de se envolverem numa guerra cultural contra Washington ou contra a extrema-direita, os líderes europeus devem pôr constantemente em evidência as verdadeiras motivações comerciais que estão por detrás dos ataques da administração Trump à Europa.

A Europa tem de facto trunfos negociais face aos Estados Unidos, mas para os tornar operativos tem de os usar estrategicamente e de forma coordenada.

Caso não consiga unir-se e fazer frente às interferências dos EUA, a Europa vai acabar numa situação em que os seus próprios ativos, o seu próprio mercado e as suas próprias instituições políticas serão usados contra ela.

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