Aprender numa era digital
Há mais de 30 anos, a Internet chegava a Portugal, em 1991. Mas só nos últimos anos o acesso a dispositivos digitais, como os smartphones, que nos permitem estar ligados ao mundo a todo o momento, se tornou omnipresente. Entretanto, a Internet tornou-se mais completa e eficiente, as ligações mais rápidas, e a inteligência artificial (IA) deixou de ser ficção científica.
Estas mudanças vieram alterar a forma como acedemos à informação, como a usamos e como a partilhamos. Ferramentas digitais, incluindo aplicações e programas de aprendizagem personalizados, entraram nas escolas. Mas há duas perguntas que importa fazer: será que estas ferramentas vieram alterar a forma como aprendemos? E como maximizar os benefícios e evitar possíveis efeitos negativos?
Diferentes gerações e a atenção e foco na era digital
Ao contrário do que se poderia imaginar, a literacia digital é importante para todas as gerações, não apenas para alunos ou pessoas mais velhas. Não é por terem nascido numa era digital que as gerações mais novas têm «superpoderes digitais».
Em 2001, o termo «nativos digitais» foi usado pela primeira vez para designar a geração nascida depois de 1984. Esta geração foi a primeira a ter contacto com ferramentas e tecnologias digitais ao longo de toda a vida e, de acordo com a teoria dos «nativos digitais», isso terá feito com que desenvolvesse características únicas, incluindo uma habilidade inata para utilizar estas ferramentas e executar diversas tarefas em simultâneo no mundo digital sem sofrer consequências adversas ao nível da atenção, concentração e aprendizagem.
No entanto, este argumento não se baseia em investigação científica rigorosa. Quando outros investigadores analisaram cientificamente esta questão, concluíram que a ideia de que existe uma geração especialmente apta e com características únicas para lidar com tecnologia é um mito.
Esta geração, tal como as que nasceram mais tarde, depois de 1994 ou de 2004, tem competências básicas para utilizar a Internet e diversas ferramentas digitais, mas não possui conhecimentos tecnológicos profundos e muito menos é imune aos efeitos negativos que a utilização dessas ferramentas pode criar.
Embora estas gerações possam facilmente usar tecnologias para comunicar e em atividades de lazer, isso não significa que tenham a mesma facilidade em usá-las para aumentar os seus conhecimentos.
Mas porque é que a questão dos «nativos digitais» é relevante quando analisamos a educação na era digital? Associado ao mito de que nascer e crescer com acesso à Internet e a recursos digitais torna os indivíduos «nativos digitais» está um outro mito — o de que os humanos conseguem desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo (incluindo a crença de que alguns géneros são melhores a fazê-lo do que outros).
Acreditar que as gerações mais novas têm «super-poderes» digitais muitas vezes significa acreditar que conseguem realizar diversas tarefas ao mesmo tempo — por exemplo, navegar na Internet, fazer os trabalhos de casa e enviar mensagens aos amigos — sem prejuízo para o desempenho em nenhuma delas, já que as conseguem realizar automaticamente.
Claro que isso não é verdade: as tarefas não são realizadas de forma automática e nenhum humano consegue desempenhar várias ao mesmo tempo sem que o seu desempenho seja prejudicado, a não ser que todas as tarefas secundárias, realizadas em paralelo com a principal, não exijam recursos cognitivos (como a atenção) e possam ser executadas de forma automática.
Portanto, a inclusão de ferramentas e dispositivos digitais nas escolas e nas salas de aula deve ser feita tendo em conta que os alunos não têm uma capacidade extraordinária para prestar atenção a múltiplas tarefas ao mesmo tempo, e que a divisão de recursos cognitivos entre várias tarefas resultará invariavelmente numa pior aprendizagem.
O foco da atenção é indispensável para aprender e a utilização destes dispositivos tem um grande potencial de disrupção da atenção, com efeitos negativos na aprendizagem. Este facto reforça os argumentos a favor da limitação do acesso a telemóveis durante as aulas e até da sua proibição total durante o tempo letivo.
Existem outros aspetos a ter em conta na discussão sobre a proibição destes dispositivos nas escolas, incluindo a sua ligação ao cyberbullying e o impacto negativo na saúde mental. Mas, focando-nos apenas na aprendizagem, se as necessidades de literacia digital estiverem satisfeitas e as falsas noções sobre o uso de tecnologias no ensino forem desconstruídas, as ferramentas digitais podem ser utilizadas para maximizar e tornar a aquisição de conhecimentos mais eficiente.
Não inovar pode ser a melhor forma de usar a tecnologia
A utilização de ferramentas digitais na educação pode ser benéfica, desde que obedeça a princípios fundamentais baseados em ciência e válidos independentemente do contexto educativo.
As estratégias de ensino e aprendizagem que a ciência cognitiva já identificou como as mais eficazes são: a prática de recuperação, ou o uso de testes repetidos, nos quais os alunos recuperam e reproduzem várias vezes os conhecimentos adquiridos, em diferentes contextos; o estudo espaçado e intercalado, ou a repetição frequente e devidamente espaçada das sessões de estudo e de teste, se possível intercalando temas diferentes; e a aprendizagem ativa, na qual os alunos são encorajados a procurar e a questionar a informação, participando ativamente na construção do seu conhecimento.
A utilização de computadores e programas que permitam implementar estas estratégias pode diminuir o tempo despendido pelos professores (por exemplo, a elaborar e a corrigir testes) e melhorar o desempenho escolar dos alunos. Na maioria dos casos, será importante que professores e encarregados de educação garantam que os alunos interajam com essas ferramentas de forma ativa (por exemplo, vendo vídeos educativos em conjunto e discutindo-os durante e depois do visionamento).
Escrever notas em papel ou no computador?
Uma das perguntas mais comuns é se os alunos devem usar os seus computadores e outros dispositivos digitais para tirar apontamentos ou se devem escrever à mão, em papel. Vários estudos indicam que a escrita manual tem muitas vantagens face ao uso de tecnologias. Uma meta-análise de 24 estudos mostrou que os alunos que escrevem à mão parecem aprender mais e ter um melhor desempenho escolar do que aqueles que usam o computador. Algumas investigações sugerem ainda que tirar notas manualmente parece aumentar a memória para detalhes factuais e melhorar a compreensão de conceitos e a capacidade de síntese. Um estudo em particular indicou, por outro lado, que os alunos que escreviam no computador usavam mais palavras e captavam a informação mais verbatim. Poderá ser precisamente por exigir um maior esforço e uma maior capacidade de síntese que a escrita manual leva a uma melhor aprendizagem.