Os outros Jogos Olímpicos nazis
Os Jogos Olímpicos de Verão que tiveram lugar na Alemanha há 90 anos foram um marco de tal modo importante – acolhidos pela cidade de Berlim, sob governo nazi, com Adolf Hitler a assumir a presidência em pose imperial e o velocista norte-americano Jesse Owens a desafiar o racismo nazi ao ganhar quatro medalhas de ouro – que os Jogos Olímpicos de Inverno desse mesmo ano foram remetidos a uma mera nota de rodapé da história. No entanto, os Jogos Olímpicos iniciados a 6 de fevereiro de 1936 também decorreram na Alemanha, e puseram a nu a perspetiva dramática da ideologia nazi.
Antes de se reunirem em Berlim, os desportistas chegaram de comboio à aldeia bávara de Garmisch-Partenkirchen, coberta de neve. A apenas uma hora e meia de carro, situava-se o campo de concentração de Dachau, já então em pleno funcionamento. Era a quarta edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, que não tinham a projeção dos tradicionais jogos de verão, com a sua herança grega. Mesmo assim, a competição de inverno foi meticulosamente orquestrada pelos nazis, por forma a mostrar a civilidade ostensiva da Alemanha – por outras palavras, por forma a camuflar os seus terríveis projetos –, e também como ensaio para os Jogos de Verão.
Os Jogos Olímpicos de Inverno foram um complemento para a Alemanha, que ganhou a concessão como anfitrião dos Jogos de Verão no ano de 1931 (contra a candidatura de Barcelona) antes de os nazis chegarem ao poder, dois anos depois. Até 1925, a Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial ficara excluída das competições olímpicas, pelo que a concessão dos Jogos simbolizou o reconhecimento de que a Alemanha democrática regressava à comunidade internacional, regida pelo cumprimento do direito.
Contudo, a ascensão dos nazis ao poder, em janeiro de 1933, e o derrube da República de Weimar esvaziaram essa lógica, sendo razões mais do que suficientes para que o Comité Olímpico Internacional (COI) revogasse a concessão dos Jogos Olímpicos à Alemanha.
Pouco depois de assumir o poder, no começo de 1933, o regime nazi criou o seu primeiro campo de concentração no sopé dos Alpes, em Dachau, Baviera, originalmente destinado a encarcerar prisioneiros políticos e, mais tarde, transgressores da ideologia racial e da «higiene social», incluindo homossexuais e ciganos. Antes de terem ganho pleno fôlego as prisões e o assassínio em massa dos judeus, já havia muitos judeus alemães entre os «políticos» (socialistas, comunistas) detidos em Dachau e, depois, noutros campos de concentração.
O histórico de atuação nazi era suficientemente preocupante para que, em 1934, o Comité Olímpico norte-americano enviasse à Alemanha o seu presidente, Avery Brundage, incumbido de investigar as condições dos atletas judeus e as políticas nazis em relação aos Jogos Olímpicos. Na América do Norte e na Europa, as conversações sobre a possibilidade de um boicote intensificavam-se, à medida que as políticas nazis ganhavam forma.
Brundage era a favor de manter a Alemanha como país anfitrião – havia simpatizantes do fascismo no COI –, e a sua visita não o fez mudar de ideias, ainda que, em 1934, por toda a Alemanha, nomeadamente em Garmisch-Partenkirchen, se lessem graffiti e cartazes à porta dos estabelecimentos comerciais dos judeus, com mensagens como «Não compres aos judeus» e «Os judeus são a nossa desgraça».
O boicote às empresas judaicas haveria de se transformar numa longa campanha organizada contra os judeus de todas as profissões, aos quais foi retirada a cidadania alemã. No departamento de veículos motorizados de Garmisch, Brundage terá certamente visto um cartaz que anunciava «Juden Zutritt Verboten» (Proibida a entrada a judeus) e, a partir de 1934, os judeus foram proibidos de adquirir propriedades naquele distrito, que em 1933 votara esmagadoramente nos nacional-socialistas.
Apesar dos sinais evidentes, o relatório enviado por Brundage ao COI atestou que os judeus não eram discriminados na Alemanha nem nos desportos alemães. Quanto aos cartazes antissemitas omnipresentes, Brundage ignorou-os, lançando uma piada infame: «No meu clube em Chicago, os judeus também não são permitidos.» Na União Atlética Amadora dos Estados Unidos, o seu relatório fez pesar a balança a favor da participação nos jogos: por uma pequena margem – 58 votos a favor e 56 contra –, ganhou a participação e não o boicote.
Os nazis apostavam tudo em passar a imagem de uma Alemanha respeitável, razão pela qual temiam que um espectador ou atleta judeu fosse atacado nas ruas, o que poria em causa a realização dos Jogos de Verão – verdadeiro prémio dos nazis. Assim, todas as sinaléticas antissemitas foram retiradas de Garmisch antes da chegada de meio milhão de visitantes ao resort alpino, em fevereiro de 1936, quebrando o recorde de audiências que fora atingido quatro anos antes em Lake Placid, no estado de Nova Iorque.
Ao contrário do que Brundage relatara, em 1935 a Alemanha já tinha afastado os atletas judeus de todas as suas competições desportivas, facto que poderia vir à tona no decorrer das provas. Foi por esse motivo, mas não só, que Rudi Ball, uma estrela judia alemã do hóquei – responsável pela medalha de bronze que os alemães haviam conquistado em Lake Placid – foi reintegrado na seleção olímpica alemã. Desde o início do regime nazi, Ball jogava numa equipa italiana, que de bom grado dera as boas-vindas ao lateral-direito de 1,63 metros de altura e 63 quilos, um dos melhores jogadores da Europa.
No entanto, por ser um jogador de enorme talento, a equipa alemã queria-o de volta; um dos seus ex-companheiros – Gustav Jaenecke, o capitão da equipa olímpica – declarou que não participaria nos Jogos Olímpicos sem a presença de Ball. Além disso, Ball era judeu por parte do pai, o que pode ter facilitado as coisas. Ball, por sua vez, impôs os seus próprios termos: só jogaria pela Alemanha se os nazis permitissem que a sua família deixasse o país, o que aconteceu.
Numa cerimónia matinal pomposa e ao som de bandas militares, os dez dias dos Jogos Olímpicos de Inverno tiveram início na plataforma de esqui recém-inaugurada, onde Hitler, vestindo um longo casaco de couro preto e rodeado por membros do COI e altos responsáveis nazis, abriu oficialmente os Jogos.
Hoje, acima do restaurante Olympiahaus, junto à pista original de salto de esqui, ainda se vê o terraço onde estiveram Hitler e a sua entourage. As provas de inverno incluíram patinagem artística, patinagem de velocidade, hóquei masculino, bobsleigh, esqui cross-country e, pela primeira vez, esqui alpino. Com 646 atletas de 28 países, incluindo Japão, Turquia e Jugoslávia, foram os maiores Jogos Olímpicos de Inverno até então.
Para os nazis, as proezas físicas estavam tão intimamente associadas à grandeza nacional que acreditavam que sairiam dos Jogos como o grande campeão. Não foi esse o caso, ainda que a Alemanha tenha terminado em segundo lugar. A Noruega, liderada por Ivar Ballangrud, uma lenda da patinagem de velocidade, e pela melhor patinadora artística do mundo, Sonja Henie, conquistou o maior número de medalhas. Os Estados Unidos levaram para casa o ouro na prova dupla masculina de bobsleigh.
No hóquei masculino, que foi sobretudo disputado numa pista de gelo natural no Lago Riessersee, houve reviravoltas inesperadas. A Alemanha não passou da segunda ronda, embora Ball tenha ajudado a equipa a vencer dois jogos da primeira ronda, marcando contra a Itália e a Suíça. Depois disso, sofreu uma lesão que o afastou dos jogos, o que determinou o destino da equipa. Hitler, provavelmente por causa da participação de Ball, recusou-se a assistir aos jogos de hóquei. Na final, a equipa favorita, do Canadá, perdeu para a surpreendente Grã-Bretanha por 2 a 1.
Provalmente graças à sua prestação olímpica, Ball escapou às câmaras de gás. Tendo sobrevivido ao Holocausto, voltou a jogar pela sua antiga equipa, o Berliner Schlittschuh-Club, depois da guerra. Passado não muito tempo, porém, juntou-se à família na África do Sul, onde se tornou empresário. Morreu em 1975, em Joanesburgo, aos 64 anos.
Os Jogos Olímpicos de Inverno de 1936 foram um sucesso estrondoso para Hitler: o espetáculo internacional jogou a seu favor, adiando a condenação mundial do regime nazi. No dia da cerimónia de encerramento, o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, registou no seu diário: «Todos elogiam a nossa organização. Foi deslumbrante. Uma imagem maravilhosa no final. Enquadrada pelas montanhas eternas. Depois, o fogo extinguiu-se. Os Jogos de Inverno terminaram.»
A Baviera, em especial a sua capital, Munique, era considerada o «berço» do nacional-socialismo e um viveiro da extrema-direita, servindo de terreno fértil para a ascensão inicial de Hitler. Em Garmisch- Partenkirchen, depois dos jogos, as autoridades voltaram a afixar as proibições antissemitas e, a partir de 1937, incluíram nos seus panfletos turísticos a instrução explícita de que «os judeus não são bem-vindos». Um ano depois, os últimos judeus que viviam na aldeia foram obrigados a partir. «Agora, estamos de novo entre alemães!», exultou o jornal local.
Depois da cerimónia de abertura, perfeitamente encenada, a Alemanha já trazia na mira a vitória propagandística seguinte: os Jogos Olímpicos de Verão, a decorrer em agosto, em Berlim, a capital nazi. Com nove vezes mais ingressos vendidos, o Olympiastadion – uma construção monumental, segundo o cânone estético nazi – ficou completamente lotado. Desta vez, a Alemanha conquistou o maior número de medalhas, ainda que as vitórias de Jesse Owens, atleta afro-americano de provas de velocidade e do salto em comprimento, tivessem posto em causa as teorias hitlerianas da supremacia ariana.
Tal como em Garmisch, logo após os Jogos Olímpicos, os nazis abandonaram todos os sinais de aparente tolerância e intensificaram a perseguição aos judeus, acelerando o rearmamento e adaptando a aldeia olímpica para fins militares. Então, a Alemanha deu início à construção de novos campos de concentração, todos superando a escala de Dachau e permitindo o assassínio em massa dos judeus da Europa.