Conseguirá o Conselho do Ártico sobreviver?
O azar parece perseguir o Conselho do Ártico. Menos de um ano antes de Donald Trump ter feito declarações cada vez mais ameaçadoras, que alarmaram a Europa, de que iria apoderar-se da Gronelândia, uma região autónoma ártica da Dinamarca, coube precisamente aos dinamarqueses assumirem a presidência rotativa deste fórum intergovernamental, cuja missão é promover a cooperação entre os oito Estados da região do Ártico.
Para piorar a situação, a ministra dos Negócios Estrangeiros do governo autónomo da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, foi forçada a demitir-se em março deste ano, depois de o seu partido ter abandonado o governo de coligação por razões de política interna. Com a demissão, Motzfeldt viu-se também obrigada a abandonar a presidência do Conselho do Ártico, depois de ter sido a primeira figura política gronelandesa a desempenhar essa função, que ajuda a coordenar e orientar as respetivas atividades no Extremo Norte. O Conselho do Ártico informou a Foreign Policy de que o novo ministro dos Negócios Estrangeiros gronelandês assumiria a presidência, mas até à data ninguém foi nomeado de forma permanente para o cargo, deixando o conselho sem uma liderança clara.
Nada disto é um bom augúrio para um órgão que atravessa um momento de profundas tensões internas. No Fórum Económico Mundial de Davos, realizado em janeiro, na Suíça, Trump afastou a possibilidade de ocupar militarmente a Gronelândia e recuou relativamente à ameaça de impor tarifas aduaneiras adicionais à Europa, uma arma de coerção económica para forçar um acordo relativamente à ilha no ártico que fosse favorável aos EUA. Ainda assim, o governo dinamarquês mantém-se alerta. A primeira-ministra Mette Frederiksen afirmou que a soberania continua a ser uma «linha vermelha» e que qualquer tentativa de anexar a Gronelândia significaria o fim da NATO. O Conselho do Ártico pode ser uma vítima mais imediata.
«O conselho continuará a levar por diante a sua agenda» de cooperação, afirmou Klaus Dodds, professor de Geopolítica na Universidade de Middlesex, em Londres, e coautor do livro Unfrozen: The Fight for the Future of the Arctic, publicado em 2025. «Mas só um imprudente seria capaz de garantir que o Conselho não está mortalmente ferido.»
Há muito que o Conselho do Ártico se tem centrado na proteção ambiental, no desenvolvimento sustentável e na valorização de vozes indígenas na região — uma missão que parece cada vez mais entrar em choque com a rivalidade geopolítica desenfreada e uma competição pelos recursos minerais do Ártico. Apesar de tudo, ao longo dos anos, o Conselho tem mostrado a capacidade para trabalhar discretamente nos bastidores. Essa pode ser a sua salvação.
O Conselho do Ártico foi fundado há 30 anos, em 1996, no contexto da visão predominante no pós-Guerra Fria para o Extremo Norte como uma zona de paz, uma visão originalmente defendida pelo líder soviético Mikhail Gorbachev. Os seus oito Estados-membros — Noruega, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Canadá, Islândia, Rússia e Estados Unidos — colaboram em questões científicas, deixando de lado questões mais políticas. A participação neste fórum é voluntária e não está constrangida por tratados. Os membros reúnem-se para debater temas como a monitorização do ecossistema ártico, operações de busca e salvamento, prevenção e resposta a derrames de petróleo. Embora, ao longo da sua história, o Conselho tenha ajudado a negociar com sucesso três acordos vinculativos sobre estes temas. É também o único fórum internacional que inclui líderes indígenas como partes interessadas, tratadas em pé de igualdade.
Para muitos observadores, o maior sucesso do Conselho é a sua capacidade de manter o Ártico como uma zona de paz. O Conselho foi nomeado três vezes para o Prémio Nobel da Paz — em 2018, 2019 e 2022 —, pelo contributo para a paz, criação de confiança e a cooperação nas regiões polares. (Trump, aliás, também foi nomeado várias vezes para o prémio. O facto de o Nobel lhe continuar a escapar parece mesmo ter sido um fator determinante para a renovação das ameaças de anexar pela força a Gronelândia, se tivermos em conta as mensagens que trocou com o primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Stoere.)
«No seu melhor, [o Conselho] foi inovador e procurou contribuir para um futuro mais promissor no Ártico. A visão de Gorbachev, no entanto, foi abandonada por uma Rússia determinada a recuperar a sua grandeza imperial», afirmou Dodds.
Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o fórum tem caminhado sobre gelo fino. Na época, perante tamanha turbulência geopolítica, muitos analistas de questões do Ártico deram o grupo por condenado. Os especialistas proclamaram o fim do «excecionalismo ártico» — a ideia de que a região seria imune às guerras e tensões que assolam outras partes do mundo. O Conselho suspendeu temporariamente as suas atividades, uma situação tanto mais delicada quanto era a Rússia que detinha a presidência rotativa aquando da invasão.
O Conselho do Ártico conseguiu, sobreviver a uma guerra de agressão por parte de um Estado ártico [a Rússia] contra um Estado de fora da região do ártico [a Ucrânia], mas por pouco. Em grande medida, isso foi possível graças à hábil gestão norueguesa das relações entre a Rússia e o Ocidente, depois de Oslo ter assumido a presidência rotativa em 2023. (A presidência do Conselho do Ártico muda cada dois anos.)
Desde que, em 2024, a Noruega assumiu a presidência rotativa, uma cooperação, mesmo que limitada, foi retomada, e o Conselho tem procurado manter um perfil discreto. As reuniões dos grupos de trabalho — que outrora implicavam encontros presenciais por todo o Ártico — passaram a realizar-se online. A diplomacia a nível ministerial cessou. Esta aposta na «despolitização» do Conselho tem sido elogiada como uma das razões da sua sobrevivência.
Em maio de 2025, porém, a Dinamarca assumiu a presidência, num novo momento de grandes tensões geopolíticas, e esse tipo de atenções voltou a recair sobre o Conselho do Ártico. Agora, a organização enfrenta uma crise ainda mais séria: trata-se de um Estado ártico [os EUA] a ameaçar outro Estado ártico [a Dinamarca]. Nas palavras de Dodds, «a América de Trump desferiu um golpe quase fatal [no Conselho do Ártico]».
«Neste momento, há dois grandes focos de conflito numa organização que já estava sob pressão», afirmou Michael Sfraga, reitor interino da Universidade do Alasca em Fairbanks, que serviu como embaixador itinerante dos EUA para os assuntos do Ártico durante a administração Biden. «E, francamente, temos de continuar a reforçar o Conselho. Precisamos de o manter em funcionamento e de o tornar mais forte.»
Svein Vigeland Rottem, investigador sénior do Instituto Norueguês Fridtjof Nansen e autor do livro The Arctic Council: Between Environmental Protection and Geopolitics, publicado em 2019, expressou a expectativa de que o trabalho do Conselho possa prosseguir em determinadas áreas — a menos que ocorra um ataque militar. «É precisamente essa a incógnita», declarou. «É difícil imaginar o Conselho do Ártico sem os EUA.»
Acrescentou ainda que, por comparação com a presidência da Noruega, a Dinamarca e a Gronelândia parecem já demonstrar muito menos empenho no Conselho do Ártico enquanto plataforma sólida de cooperação. O Conselho comemorou o seu 30.º aniversário numa receção em Tromsø, na Noruega, no início deste ano — e não na Dinamarca. Pedimos ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia que comentasse, mas não obtivemos resposta.
Kenneth Hoegh, presidente da associação de Altos Funcionários do Ártico (Senior Arctic Officials) e porta-voz do Conselho, disse à Foreign Policy que a Dinamarca está empenhada em garantir que a cooperação prossiga e que o trabalho do Conselho avance. «O Conselho do Ártico não tem mandato para abordar ou comentar assuntos relacionados com reivindicações territoriais ou de segurança», afirmou. «Reconhecemos que a dinâmica geopolítica que se tem vindo a desenrolar no Ártico ao longo dos últimos anos colocou o Conselho numa posição difícil, mas o Conselho do Ártico é resiliente. Os canais diplomáticos estão abertos e o diálogo continua.»
Para alguns observadores, o facto de a presidência do Conselho do Ártico ter sido assumida, em apenas quatro anos, por dois países árticos de alguma forma envolvidos em conflitos territoriais mostra que a política da região está a atravessar uma mudança mais profunda. «A guerra na Ucrânia invalidou o conceito de excecionalismo ártico. Resta-nos a realidade do Ártico», afirmou Sfraga. «Atualmente, é claro que o Ártico não está à margem das grandes questões geopolíticas.»
Há quem questione se o Canadá e os países nórdicos irão formar uma aliança mais estreita, nomeadamente tendo em conta que Trump ameaçou o país vizinho de o tornar no «51.º estado». Recentemente, os países nórdicos aprofundaram laços com Otava: no ano passado, o Canadá assinou uma parceria estratégica com a Suécia centrada na defesa, na inteligência artificial e na cibersegurança, bem como um acordo de cooperação em matéria de defesa com a Finlândia, em torno da construção naval e dos navios quebra-gelo.
Se o ambiente acabar por se amenizar no Ártico — se a guerra na Ucrânia terminar e os Estados Unidos recuarem totalmente em relação à Gronelândia —, então «será apontado o papel do Conselho na preservação da paz, por ter mantido o Ártico a salvo e seguro», afirmou Vigeland Rottem. «Não é um cenário impossível no prazo de cinco anos.»