O impacto de Ormuz no abastecimento de hélio
Mesmo com a suspensão do conflito entre os Estados Unidos e o Irão, graças ao cessar-fogo que tem sido sucessivamente prorrogado nas últimas semanas, as sequelas económicas e a escassez de matérias-primas industriais — petróleo, gás natural, combustível para aviação, tungsténio, enxofre, fertilizantes — continuam a agravar-se.
A esta lista acresce uma matéria-prima muitas vezes desconsiderada, mas não menos importante: o hélio.
Talvez os leitores associem o hélio ao gás que mantém os balões de festa no ar e que eleva a voz a novos registos, mas a verdade é que a sua aplicação tem um alcance muito maior. Incolor e mais leve do que o ar, o hélio é também um componente fundamental em várias das tecnologias mais importantes do mundo, sendo utilizado na produção de semicondutores e de equipamentos médicos, por exemplo.
«Se pensarmos em semicondutores, fibra ótica ou em tudo o que utilize ímanes supercondutores, as consequências da falta de hélio são gigantescas em termos económicos», afirmou Nicholas Snyder, CEO da North American Helium, empresa atualmente responsável pela produção de mais de 7% do hélio da América do Norte. «Se pensarmos em aplicações médicas, como as ressonâncias magnéticas, as consequências também aí [são] enormes.»
Depois de várias semanas de guerra no Médio Oriente, com ataques a infraestruturas energéticas, a comercialização mundial do hélio — extraído sobretudo como subproduto da produção de gás natural — sofreu um rude golpe. Como segundo maior produtor mundial de gás natural liquefeito (GNL), o Qatar é um importante centro de produção de hélio, representando cerca de um terço da produção mundial antes do início da guerra.
Esse cenário mudou depois de o Irão ter atacado as instalações de Ras Laffan, no Qatar — a maior central de GNL do mundo —, o que levou a empresa estatal QatarEnergy a suspender a produção, declarando força maior, e a reduzir as suas exportações anuais de hélio em 14%.
Por outro lado, é agora difícil proceder às exportações nesta região: habitualmente, o grosso das exportações de hélio do Qatar transita pelo Estreito de Ormuz, o ponto de estrangulamento marítimo vital que a guerra bloqueou.
Toda esta turbulência fez disparar os preços do hélio: os preços spot terão duplicado no mês de março. Porém, dado que esta matéria-prima é transacionada sobretudo através de contratos a longo prazo — e o transporte internacional de contentores de hélio implica prazos de entrega mais alargados — é possível que se avizinhe um cenário ainda pior.
«Este alerta sobre a indústria do hélio já vem tarde», afirmou Snyder, sobretudo para países como a Coreia do Sul e Taiwan, que adquiriam a maior parte deste gás a um único fornecedor no Médio Oriente.
Sendo uma matéria-prima essencial para várias tecnologias-chave, o hélio tem propriedades físicas únicas que tornam difícil para os governos constituírem ou manterem reservas por longos períodos. O hélio só pode ser transportado internacionalmente em estado líquido, a 4 graus Kelvin [cerca de −270 °C], explicou Snyder, classificando este gás como uma mercadoria «perecível». «Não há no mundo capacidade de armazenamento disponível para resolver facilmente este problema», acrescentou.
Os Estados Unidos são uma grande potência no que respeita ao hélio. Na verdade, são o maior produtor mundial, tendo produzido 43% da produção mundial em 2025, de acordo com dados do United States Geological Survey (Serviço Geológico dos Estados Unidos).
O governo norte-americano reconheceu a importância do hélio para as aplicações industriais e de defesa em 1925, quando aprovou a Lei do Hélio (Helium Act) para regulamentar a produção deste gás e criar uma reserva estratégica federal perto de Amarillo, no estado do Texas. Durante a Guerra Fria, na década de 1960, essa reserva foi alargada, devido à utilização do hélio em mísseis e foguetes. No entanto, a perspetiva mudou em 1996, quando o governo ordenou a privatização da reserva estratégica (Helium Privatization Act).
Segundo a lógica então defendida pelo Congresso, a manutenção de uma grande reserva de hélio sob o domínio federal dos Estados Unidos era demasiado dispendiosa e originava preços «anormalmente baixos», explicou Patrick Wilson, diretor e fundador do Semiconductor & Innovation Group, uma consultora sediada em Washington. Na primeira administração Trump, Wilson foi responsável pelo Departamento do Comércio e antes disso fora administrador executivo da Semiconductor Industry Association, onde colaborou na redação da Lei para a Gestão do Hélio (Helium Stewardship Act) de 2013 — a qual, perante o receio de uma crise de abastecimento, faseou a privatização da reserva de hélio. Esta lei previa a privatização total até 2021, prazo que acabou por ser adiado com a pandemia de COVID-19. Finalmente, o controlo federal do hélio terminou em 2024.
«A manutenção de todos estes reservatórios é extremamente dispendiosa […], pelo que houve uma vaga de governos a abandonar o setor», recordou Wilson. «Hoje, o governo não tem praticamente nenhuma reserva estratégica.»
Perante a atual ameaça iminente de uma crise de abastecimento — para cuja prevenção, precisamente, a antiga reserva estratégica servia —, há quem defenda que esta seja recuperada. «Agora, o que temos é um sistema privado ao serviço das necessidades comerciais, não um instrumento público concebido como proteção contra problemas de abastecimento graves a nível nacional ou mundial», escreveu esta semana Robert Z. Lawrence, do Peterson Institute for International Economics. O hélio «não é apenas uma de entre várias matérias-primas», acrescentou. «Os custos sociais de não dispor de reservas adequadas são muito superiores aos custos individuais.»
Do outro lado do mundo, surge o mesmo tipo de preocupação: em abril, a Associação da Indústria de Semicondutores de Taiwan apelou ao governo taiwanês para que «aumente as reservas estratégicas de hélio e gás natural».
Na última década, os chips semicondutores tornaram-se um alicerce da economia global, alimentando grande parte da tecnologia que sustenta o nosso quotidiano e servindo tecnologias avançadas, incluindo mísseis, modelos de inteligência artificial, centros de dados e computação quântica.
Ora, nada disso funciona sem hélio. Este gás é um componente essencial em múltiplas etapas do processo de fabrico de chips, desde o arrefecimento dos ímanes utilizados para manter as pastilhas de silício estáveis — de modo que os padrões eletrónicos que as fazem funcionar possam ser gravados nelas — até à eliminação de potenciais contaminantes do ambiente de produção. Os fabricantes de chips «não só precisam de muito hélio, como precisam dele permanentemente», disse Wilson.
A procura de hélio deverá aumentar à medida que os semicondutores se tornam mais avançados e indispensáveis. Num relatório de 2024, a empresa de estudos de mercado IDTechEx previu que a procura de hélio por parte da indústria mundial de semicondutores aumentaria mais de cinco vezes na próxima década, o que tem também implicações significativas para o boom dos centros de dados de IA, nos quais alguns países do Golfo Pérsico, como o Qatar, investiram milhares de milhões de dólares.
«A economia da IA funciona com tokens, os tokens funcionam com unidades de processamento gráfico (GPU), e as GPU dependem do hélio do Qatar, do bromo israelita e de navios-tanque de GNL, que têm como única via de passagem um estreito com cerca de 40 quilómetros de largura no Golfo Pérsico», escreveu David Pan — responsável pela área da indústria de IA na empresa financeira Moody’s — numa declaração enviada por email à imprensa.
Apesar do cessar-fogo que em grande medida se tem mantido até ao momento — estando suspensos os ataques iranianos ao Qatar e a outros países do Golfo — o Estreito de Ormuz permanece fechado devido aos sucessivos bloqueios norte-americanos e iranianos.
«Se o cessar-fogo se mantiver e a situação evoluir para um conflito em que o Irão fique mais isolado e os países vizinhos não se envolvam, imagino que a produção [de hélio] possa ser retomada com alguma celeridade — mas se não conseguirem retirá-lo da região, isso não serve de nada», disse Bettina Weiss, chefe de gabinete e responsável pela estratégia corporativa da SEMI, uma associação de cadeias de abastecimento da indústria de semicondutores com mais de 3000 membros a nível mundial. «Mesmo que o estreito abrisse hoje, seriam necessários entre quatro e seis meses para normalizar o abastecimento», acrescentou. «Portanto, não podemos simplesmente dizer: ‘OK, o conflito acabou, o Qatar está de volta, vamos em frente.’ Estas coisas levam muito tempo a reequilibrar-se.»
Por sua vez, Weiss e Wilson salientaram que os custos para a indústria de chips continuarão a subir — não só por causa do hélio, mas também devido a outros fatores de produção, agravados pelos atrasos nos transportes —, o que poderá gerar um efeito de bola de neve na economia global.
«Estamos perante um exemplo perfeito de como a indústria microeletrónica é vulnerável e de como pode levar ao aumento dos custos de tudo o resto», acrescentou Wilson.