Terá a Europa finalmente percebido que está sozinha?
Este é o 15º artigo da «Foreign Policy», publicado pela Fundação em parceria editorial com esta revista internacional. Escolhido por Raquel Vaz-Pinto, investigadora no IPRI-NOVA, o texto é «uma chamada de atenção muito bem fundamentada sobre a necessidade de a Europa repensar a sua relação transatlântica».
Os europeus deixaram-se iludir com a ideia de que o presidente dos EUA, Donald Trump, era imprevisível e inconsistente, mas, em última análise, controlável. Embora estranhamente reconfortante, essa ideia era errada.
Desde o discurso que J.D. Vance, vice-presidente dos EUA, proferiu em fevereiro de 2025 na Conferência de Segurança de Munique, no qual denegriu a Europa, até à nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada a 4 de dezembro, há muito que a administração Trump tem uma visão clara e consistente para a Europa. Nessa visão, as relações entre os EUA e a Rússia são prioritárias, e procura-se dividir para reinar no continente, sendo grande parte do trabalho sujo realizada por forças nacionalistas e de extrema-direita europeias, que agora contam com o apoio de Moscovo e de Washington.
É mais do que tempo de a Europa compreender que se encontra, no que toca à guerra entre a Rússia e a Ucrânia e à segurança do continente, na melhor das hipóteses, sozinha. Na pior das hipóteses, a Europa enfrenta agora dois adversários: a leste, a Rússia; a oeste, os Estados Unidos de Trump.
De cada vez que Trump ou outros membros da sua administração atacam a Europa, nomeadamente a Ucrânia, os europeus recebem o golpe com um sorriso forçado e esforçam-se por bajular a Casa Branca. Estão convencidos de que essa é a melhor maneira de reagir – de que se trata de uma manobra inteligente, capaz de tirar partido da suposta incoerência e vaidade de Trump para o trazer de volta ao redil transatlântico.
A verdade, porém, é que, em todas as ocasiões em que dedicou alguma atenção à guerra na Ucrânia, Trump ficou do lado da Rússia – desde a armadilha montada em fevereiro passado contra o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, no Sala Oval, passando pelo tapete vermelho estendido em agosto, no Alasca, para o presidente russo, Vladimir Putin, até ao «plano de paz» de 28 pontos que foi provavelmente redigido em Moscovo. Em todas estas ocasiões, os europeus ampararam o golpe, esforçando-se por manter Washington envolvida e por resgatar os destroços do vínculo transatlântico. Os europeus já deram tantas vezes a face a Trump que é caso para questionar se ainda lhes resta alguma.
A Europa apostou mal, investindo num interminável e cíclico Feitiço do Tempo[1]. No que se refere à Europa, à Ucrânia e à Rússia, a administração Trump tem sido extraordinariamente coerente. Trump quer pôr fim à guerra na Ucrânia, sobretudo porque a considera um obstáculo à normalização das relações entre os EUA e a Rússia – em especial, aos negócios planeados entre a sua comitiva e os comparsas do Kremlin.
A ordem mundial liberal está fora de questão; em seu lugar, Trump quer instituir a lei da sobrevivência dos mais aptos. Em vez da tradicional rivalidade entre superpotências, Trump aposta numa conivência imperial com a Rússia e a China. O resto do mundo, incluindo a Europa, faz parte do menu colonial.
Do ponto de vista estratégico, esta abordagem tem, no curto prazo, alguma lógica. Ideologicamente, está em linha com o apoio concedido a partidos e a governos de extrema-direita na Europa e noutras regiões.
Estas forças não só partilham os ideais nacionalistas e socialmente conservadores defendidos pelo MAGA (make America great again), como se têm empenhado em dividir a Europa e esvaziar o projeto de integração europeia, beneficiando da conivência das forças de centro-direita, que desempenham o papel de idiotas úteis. Contudo, nada é menos patriótico do que os supostos patriotas e nacionalistas que, na Europa, têm vindo a destruir a unidade europeia, procurando associar-se à Rússia.
A visão apresentada na nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA é escassa em políticas concretas relacionadas com a Europa, mas contém uma mensagem clara: o único vínculo transatlântico concebível será feito entre as forças de extrema-direita, com os americanos alfa a dominarem os seus vassalos europeus. Trata-se de uma cópia exata da visão e estratégia que a Rússia de Putin tem, desde há muitos anos, procurado implementar relativamente à Europa.
Se Trump ainda não conseguiu subjugar a Europa aos seus desejos, isso não se deve a nenhumas manobras inteligentes da Europa. Ao lisonjearem Trump, chamando-lhe «paizinho», ao oferecerem-lhe presentes e ao convidarem-no para jantares de gala da casa real britânica, os europeus não vão salvar nem a Ucrânia nem as relações transatlânticas. De igual modo, a frenética diplomacia europeia, as viagens de grupo a Washington e os planos de paz alternativos também não vão funcionar.
Trump só não concretizou ainda a sua visão para a guerra na Ucrânia e para um novo equilíbrio de poderes na Europa simplesmente porque Putin se está a fazer de difícil. Porém, os europeus não podem contar com um eterno bloqueio, por parte de Putin, de um acordo entre os EUA e a Rússia – essa não pode ser uma estratégia de segurança para a Europa.
Em alternativa, o que devem os europeus fazer?
A boa notícia é que há uma massa crítica de públicos e governos europeus que estão cientes de que a segurança europeia passa por Kyiv. Entre eles, incluem-se a Alemanha, França, a Grã-Bretanha, a Polónia, os países nórdicos, os Estados Bálticos, os Países Baixos, Espanha, Portugal e, com alguma relutância, Itália – nem que seja porque os italianos detestam ser postos de parte.
Estes países compreendem que a guerra de conquista imperial da Rússia começou pela Ucrânia, mas não terminará aí, e que a capitulação de Kyiv terá por consequência a libertação de recursos russos para abrir novas frentes contra a Europa. Tragicamente, a Ucrânia é o território-tampão que impede que a guerra híbrida em curso na Europa se transforme numa investida militar muito mais grave.
A segunda boa notícia é que a Europa tem vários trunfos – talvez mais do que os Estados Unidos – no que se refere à guerra na Ucrânia. Desde que assumiu a Presidência, Trump travou o apoio dos EUA à Ucrânia.
É a Europa que detém a maioria dos ativos congelados da Rússia, que impõe sanções realmente penalizadoras, que apoia economicamente a Ucrânia e que lhe fornece o grosso da ajuda militar. Graças, em parte, aos investimentos europeus na Ucrânia, a defesa do país assenta cada vez mais na sua própria indústria nacional.
Não pretendo com isto fazer um retrato injustificadamente otimista. Os Estados Unidos continuam a ser fundamentais para a Ucrânia e a Europa, sobretudo devido aos serviços de informações que fornecem, através dos quais a Ucrânia consegue intercetar ataques de drones e mísseis russos contra as suas cidades e infraestruturas, bem como identificar alvos para ataques de maior alcance em território russo. Por outro lado, os Estados Unidos lucram com a venda de armas aos europeus, que as fornecem à Ucrânia – armas essas que a Europa não fabrica, ou pelo menos não em quantidade suficiente.
Esta questão leva-nos a um problema maior que afeta a segurança ucraniana e europeia. Neste momento, a Europa está empenhada em reduzir a sua vulnerabilidade, aumentando os gastos em defesa; porém, isso implica comprar mais armas aos EUA. Assim, a Europa está a mitigar a sua vulnerabilidade de curto prazo à custa de uma dependência de longo prazo em relação aos Estados Unidos, que agora utilizam a dependência dos seus aliados nominais como arma de negociação. Os europeus estão longe de resolver este dilema.
Embora não esteja à vista uma resposta sistémica ao problema da segurança da Europa, os europeus têm capacidade para impedir a capitulação da Ucrânia e criar condições para uma paz justa. Faltam apenas dois ingredientes – e é imperativo acioná-los.
Em primeiro lugar, a capacidade da Europa para se focar nos objetivos estratégicos. Os líderes europeus e as instituições europeias têm uma noção teórica da estratégia de longo prazo, mas, na prática, ficam muitas vezes toldados por interesses específicos de curto prazo.
O caso mais evidente é a pouca visão da Bélgica e do Banco Central Europeu ao decidirem não utilizar os ativos congelados da Rússia para ajudar a Ucrânia. Embora o recurso a esses ativos acarrete indubitáveis riscos financeiros e legais, nada se compara às potenciais consequências políticas, económicas e securitárias que a queda da Ucrânia implicaria para a Europa.
Em segundo lugar, a coragem. Os líderes europeus devem ter a coragem de ir a Washington agradecer educadamente a Trump pelos seus esforços de «paz» e persuadi-lo de que, pelo mundo fora, há muitos outros conflitos a precisarem da sua atenção. Devem deixar claro que têm capacidade para se encarregarem de resolver a guerra na Ucrânia, e que apenas precisam que os EUA continuem a fornecer informações e a garantir a venda de armamento, enquanto a Europa ganha tempo para desenvolver a sua própria produção.
A Europa não pode acabar com a guerra de um dia para o outro, mas pode comprometer-se a criar condições que garantam a segurança a longo prazo. Se for preciso lisonjear, a Europa pode sempre prometer que, no dia em que a paz chegar, terá todo o prazer em erguer um monumento, construir uma praça ou criar um galardão dourado e brilhante em homenagem a Trump.
[1] Referência ao filme de 1993 (Groundhog Day) realizado por Harold Ramis e protagonizado por Bill Murray e Andie MacDowell, em que um repórter televisivo de personalidade arrogante fica preso no mesmo dia, num ciclo aparentemente infinito.