Tempestades e cheias: 5 perguntas a Filipe Duarte Santos
1. Podemos esperar no futuro mais comboios de tempestades como estes, que têm assolado o país e deixaram 68 concelhos em estado de calamidade?
Temos tido um bloqueio da corrente de jato no norte do oceano Atlântico, frente à Península Ibérica. A corrente de jato são ventos muito intensos de oeste em altitude, a cerca de 10.000 metros, que arrastam consigo as depressões (sistemas de baixa pressão atmosférica que provocam chuvas e vento) e que causam parte da turbulência que sentimos quando viajamos de avião.
A corrente de jato separa as massas de ar quente e húmido a sul das massas de ar frio e mais seco a norte. Situa-se à volta do Ártico, como se fosse um colar, mas por vezes tem meandros como os rios e vem mais para sul. Nas últimas semanas a corrente de jato veio muito para sul no Atlântico Norte e ficou numa posição bloqueada, quase sem se mover, a apontar para a Península Ibérica. Consequentemente as tempestades (depressões muito cavadas, ou seja, com pressão muito baixa no centro) que arrasta vêm embater na costa de Portugal e afetam a Espanha e também Marrocos.
Não sabemos prever quando iremos ter de novo uma situação destas, de um «comboio» de tempestades sucessivas, mas sabemos que a intensidade das tempestades está a aumentar tanto em termos de velocidade do vento como de quantidade de precipitação.
Esta intensificação dá-se devido às crescentes quantidades de gases com efeito de estufa (principalmente dióxido de carbono, metano e óxido nitroso) que são lançadas na atmosfera devido a algumas atividades humanas e que causam aquilo que chamamos alterações climáticas antropogénicas.
2. Como se formam estas tempestades que chegam do hemisfério norte?
As tempestades sempre fizeram parte da circulação geral da atmosfera e resultam em parte dos processos de transferência de energia térmica das regiões tropicais para as latitudes mais elevadas.
Nas latitudes de Portugal temos tempestades ou ciclones extratropicais que são bastante diferentes dos ciclones tropicais das regiões tropicais que, atualmente, devido ao aquecimento das águas oceânicas causado pelas alterações climáticas, se deslocam para latitudes mais elevadas e no Atlântico chegam aos Açores e até a Portugal Continental na sua fase final e já relativamente enfraquecidos. Foi o caso do ciclone Leslie que provocou grande destruição no centro de Portugal Continental em 13 de outubro de 2018.
3. Que outros fenómenos intensos podemos esperar, quer no Inverno, quer no Verão?
A intensificação do efeito de estufa na Terra, causada pelas crescentes emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, aumentam muito a quantidade de energia térmica armazenada no sistema climático, composto pela atmosfera, hidrosfera, criosfera, biosfera e litosfera.
Esta maior quantidade de energia provoca eventos meteorológicos extremos mais intensos e por vezes também mais frequentes.
Há que distinguir entre eventos relacionados com a temperatura e com a precipitação. Quanto aos primeiros temos ondas de calor e de frio. As ondas de calor estão a tornar-se mais intensas (temperaturas máximas mais elevadas), prolongadas e mais frequentes. São uma das principais causas do excesso de mortalidade e morbilidade associado às alterações climáticas. As ondas de frio estão a tornar-se menos frequentes. Estas duas tendências opostas resultam de que a temperatura média da atmosfera à superfície está a aumentar, como se sabe. Já aumentou cerca de 1,2 graus Celsius desde o período pré-industrial.
Quanto à precipitação há um aumento da intensidade dos ciclones tropicais e dos ciclones extratropicais mais intensos. Por outras palavras estamos a ter ciclones cada vez mais intensos. Este aumento de intensidade manifesta-se em ventos cada vez de maior velocidade e em crescentes quantidades de precipitação. Não há evidência de um aumento da frequência destes ciclones. Por outro lado, em algumas regiões do mundo, tal como na região do Mediterrâneo e sul da Europa a frequência e a duração das secas está a aumentar. Há uma maior variabilidade intersazonal e interanual que, porém, não é possível prever com os modelos climáticos de que dispomos.
4. As cheias e inundações das grandes áreas agora atingidas poderiam ter sido minoradas? Isto quando estão identificadas no país mais de 60 áreas que têm risco significativo de inundação (quer nas zonas costeiras quer nas zonas fluviais)….?
Existem cartas de risco de inundação, fluvial e costeiro, pormenorizadas e elaboradas tanto no setor público como no setor empresarial, designadamente no setor privado dos seguros. Porém, as cartas públicas não estão devidamente divulgadas e a legislação decorrente dessas cartas por vezes não é cumprida. A capacidade de «law enforcement», ou seja, a capacidade de assegurar o cumprimento da lei é ainda relativamente baixo no nosso país.
As perdas associadas às inundações e cheias podem ser reduzidas se houver uma rede nacional de monitorização com sensores que medem o nível das águas nas barragens e nos rios, e os caudais dos rios, a funcionar efetivamente e a fornecer dados. Com estes dados podem fazer-se avisos atempados do aumento do risco que são essências para os alertas e para realizar ações que reduzem ou evitam os riscos.
É também necessário pôr em prática medidas de adaptação aos eventos extremos que diminuam as fatalidades e os prejuízos, ou seja, aumentem a resiliência.
Um exemplo de sucesso dessas medidas de adaptação foram as realizadas na Ilha da Madeira após o evento extremo de precipitação – aluvião – em 20 de fevereiro de 2010 (na estação meteorológica da Bica da Cana choveram 268 mm em 24 horas, ou 268 litros por metro quadrado) no qual houve 47 mortes e cerca de 600 desalojados.
Foram estudadas, planeadas e executadas um conjunto de medidas de adaptação que incluíram 120 milhões de investimentos em infraestruturas resistentes aos aluviões.
Em 6 de junho de 2023 houve um aluvião mais intenso do que o anterior de 2010 que causou 349 mm de precipitação em Bica da Cana em 24 horas mas não houve mortes e apenas 38 desalojados.
5. A adaptação a este clima em mudança é fundamental. Que medidas considera ser prioritárias para evitar que no futuro, tempestades e outros fenómenos extremos, possam ter efeitos menos adversos?
O exemplo anterior na Região Autónoma da Madeira demonstra que é prudente, recomendável e necessário pôr em prática medidas de adaptação às alterações climáticas para reduzir a mortalidade e os prejuízos materiais causados por eventos extremos progressivamente mais intensos.
A adaptação não é um processo simples porque envolve vários setores socioeconómicos e sistemas biogeofísicos: recursos hídricos, agricultura, florestas, ecossistemas, saúde humana, zonas costeiras, pescas, agregados populacionais e cidades, edificado habitacional, infraestruturas, setor económico e financeiro, pescas, entre outros.
Isto significa que envolve múltiplos ministérios e suas respetivas agências, autoridades, institutos e direções-gerais, os municípios e as organizações não-governamentais.
O sucesso da adaptação depende de medidas de adaptação eficazes baseadas na ciência, de haver financiamento adequado e atempado e de uma cultura de planeamento e cooperação ativa entre todas as instituições envolvidas no processo. Depende de uma boa governação, planeamento e organização multinível, ou seja, entre o nível local das autarquias, que é muitíssimo importante, o nível do governo e das suas instituições, e o nível da União Europeia que tem proporcionado um grande apoio económico, financeiro e legislativo.