O verdadeiro motivo por que é improvável que a China e a Rússia tentem uma operação como a que capturou Maduro
Depois de o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ter sido capturado pelos Estados Unidos, alguns analistas e parlamentares norte-americanos alertaram para o perigo de este ataque ter dado a Moscovo e a Pequim luz verde para avançarem com operações semelhantes na Ucrânia e em Taiwan.
Tal como os Estados Unidos não reconhecem a legitimidade do governo de Maduro na Venezuela, a Rússia e a China não reconhecem a legitimidade da independência da Ucrânia e de Taiwan, respetivamente. Se a China, por exemplo, capturasse o presidente taiwanês, Lai Ching-te, ou se a Rússia capturasse o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que argumentos restariam aos Estados Unidos para se lhes oporem?
Uma das razões por que esta comparação surge com alguma frequência é o facto de os Estados Unidos fazerem com que este tipo de operações pareça fácil. Para quem não está familiarizado com o universo das operações militares, a captura de Maduro pode ter parecido fácil — os helicópteros aterraram, o alvo foi capturado e os helicópteros regressaram sem dificuldades de maior.
A aparente facilidade da operação levada a cabo pelos EUA fez com que alguns observadores duvidassem de que tivesse havido sequer resistência, sugerindo até a hipótese de Maduro ter sido entregue pelo seu próprio governo, ao abrigo de um acordo secreto.
É frequente assumir-se que outros países se abstêm de levar a cabo determinadas operações militares porque são mais respeitadores do direito internacional do que os Estados Unidos. Mais ainda com a liderança do presidente Donald Trump, os EUA são vistos como um país sem limitações normativas e, portanto, disposto a agir como bem entende.
Esta tese é falaciosa por duas razões principais.
Em primeiro lugar, a tese pressupõe que os Estados Unidos violaram uma norma internacional específica que impede um amplo conjunto de ações chinesas e russas. O problema é que não existe uma norma clara desse tipo. A Rússia nunca respeitou nenhuma suposta proibição de visar líderes estrangeiros, como ficou demonstrado nos primeiros dias da invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022. E o mesmo se aplica à China, cujos planos militares para um conflito com o Taiwan incluem atacar os respetivos líderes.
Além disso, esta tese ignora as dificuldades práticas de levar a cabo este tipo de operações especiais. A operação levada a cabo na Venezuela só foi possível graças à coordenação de milhares de militares e agentes dos serviços de informações dos EUA, recorrendo a algumas das tecnologias mais avançadas do mundo.
Foi executada por forças de elite norte-americanas, envolvendo operações cibernéticas, agentes infiltrados, ataques preliminares às defesas aéreas venezuelanas e recurso a helicópteros altamente especializados, conduzidos por pilotos com treino e competências excecionais e provavelmente com equipamentos secretos, cujas capacidades só são conhecidos por muito poucas pessoas. A verdade é que, ao contrário da generalidade dos demais países, os Estados Unidos gozam de uma combinação única de tecnologia avançada e décadas de experiência na execução de operações especiais de alto risco.
A Rússia e a China hesitam em conduzir operações militares deste tipo simplesmente porque não têm capacidade para o fazer, e não por causa de uma qualquer norma internacional que proíba a captura de líderes que considerem ilegítimos. Aliás, nos primeiros dias da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, Moscovo tentou levar a cabo este tipo de operação e fracassou.
Foram colocados agentes russos infiltrados em Kyiv, com ordens para capturar Zelensky e mantê-lo em cativeiro até que as forças aerotransportadas que aterrariam em Hostomel (um aeroporto próximo da capital ucraniana) viessem em seu reforço.
Nenhum dos objetivos foi alcançado: as unidades aerotransportadas sofreram pesadas baixas tanto no ar como em terra, e a rede de agentes russos em Kyiv foi desmantelada. Depois de ter falhado com o bisturi, a Rússia tenta agora quebrar a resistência da Ucrânia através do uso indiscriminado da força, e não de operações especiais.
Embora sejam tecnologicamente mais avançadas do que as da Rússia, as forças armadas chinesas enfrentam outro tipo de limitação: a quase total ausência de experiência de combate. O último grande conflito militar em que a China esteve envolvida – a Guerra Sino-Vietnamita de 1979 – foi há quase 50 anos. Há muita rotatividade de pessoal no Exército Popular de Libertação (EPL), e tem sido difícil reter oficiais experientes.
Assim, ao contrário dos Estados Unidos, a China não tem um quadro de veteranos com experiência de combate, capaz de treinar a próxima geração, tornando-a apta para conduzir operações especiais complexas. O EPL, é certo, executa treinos que simulam este tipo de operação ofensiva, tendo inclusivamente construído uma réplica à escala real do Edifício Presidencial de Taiwan num campo militar situado no deserto. Treinar, porém, não é a mesma coisa que combater.
Em segundo lugar, a tese é contrariada por um facto evidente: Taiwan não é tão frágil quanto a Venezuela. Embora também não tenham experiência de combate recente, as forças armadas de Taiwan têm um elevado nível de treino para monitorizar e intercetar atividades aéreas hostis e dispõem de avançados sistemas de alerta precoce, quer aéreos, quer terrestres. Para levar a cabo uma operação comparável à dos EUA na Venezuela, a China provavelmente precisaria de atacar centenas, e não uma dúzia, de alvos.
Esse tipo de operação exigiria, dada a quantidade de alvos, vários dias de ataques preparatórios, durante os quais os líderes de Taiwan poderiam dispersar ou mudar de localização. Não é plausível que Lai possa ser raptado na sua residência oficial altamente protegida, situada no centro de Taipé, numa operação do tipo «pegar e largar» – a não ser que a operação decorra no contexto de uma invasão em larga escala. Nesse cenário, não estaríamos perante uma operação especial, mas sim perante o início de uma guerra.
O EPL parece compreender a situação, motivo pelo qual optou por uma forma bem mais simples de lidar com as chefias de Taiwan: bombardeamentos maciços. Ao longo do mês de dezembro de 2025, a China realizou exercícios militares em que simulou a utilização de forças aéreas, marítimas e terrestres para bloquear Taiwan e desferir ataques de precisão contra as forças taiwanesas.
Jun Sheng, cronista do China Military Online, um órgão de comunicação gerido pelo EPL, declarou que o objetivo central dos exercícios era «decapitar as chefias», assim deixando claro que o EPL pode, «a qualquer momento, impor medidas punitivas direcionadas aos principais instigadores». A mensagem não é propriamente subtil.
A narrativa predominante sobre a recente operação dos EUA na Venezuela ilustra o facto de a superioridade militar dos Estados Unidos ser de tal forma dada por garantida que quase se torna impercetível. As forças norte-americanas são de tal forma eficazes que as suas operações quase parecem resultar de uma espécie de truque de magia.
Ao longo do último ano, os Estados Unidos realizaram operações de combate no Iémen, no Irão e, mais recentemente, na Venezuela sem que uma única das suas aeronaves tenha sido abatida pelo fogo inimigo. Pelo contrário, as forças russas têm perdido regularmente aeronaves de combate na Ucrânia, ao passo que para o EPL a superioridade tática dos EUA é de tal forma clara que os seus pilotos são treinados para não se envolverem em combates aéreos.
Nada disto implica que a ameaça russa ou chinesa deva ser descartada, antes servindo para realçar que tanto a China como a Rússia dependem do uso indiscriminado da força para compensar a sua inferioridade tática. É certo que esse emprego da força pode ser eficaz em determinados contextos, mas não em operações especiais que exigem precisão.
Não me parece que a Rússia ou a China venham a optar, no futuro próximo, por operações destinadas a capturar os líderes da Ucrânia ou de Taiwan, mas isso nada tem que ver com o seu respeito pelo direito internacional. O verdadeiro motivo é o facto de a China não acreditar que tem as condições para isso e de a Rússia já ter experimentado pôr as mãos no fogo, queimando-se.