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Uma praia em Puerto Cabello, na Venezuela, com a refinaria El Palito, ao fundo.

Uma intervenção na Venezuela por causa do petróleo faz pouco sentido

Trump quer apoderar-se do petróleo venezuelano a todo o custo, mas as empresas americanas têm-se mostrado mais cautelosas. Este é o 17º artigo da «Foreign Policy», publicado pela Fundação em parceria editorial com esta revista internacional. Escolhido por Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE-IUL, este texto, escrito poucos dias depois da intervenção dos EUA na Venezuela, faz previsões «que se têm revelado acertadas».
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A intervenção dos EUA na Venezuela, levada a cabo sob o pretexto de impedir o tráfico de drogas, da qual resultou a detenção do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, acusado de envolvimento no narcotráfico, tem na verdade tudo que ver com o petróleo.

Na conferência de imprensa de sábado (3 de janeiro de 2026), o presidente dos EUA, Donald Trump, referiu-se ao petróleo mais de 20 vezes, declarando que os Estados Unidos iriam agora «gerir» a Venezuela, de modo a obter riquezas minerais que compensem as empresas norte-americanas pelas perdas sofridas com as nacionalizações das décadas de 1970 e 2000. Segundo afirmou, nesse fim de semana, aos repórteres que o acompanharam no Air Force One, Trump teria consultado as empresas petrolíferas americanas  embora não o Congresso  antes e depois dos ataques à Venezuela.

Por sua vez, no domingo (4 de janeiro de 2026), o secretário de Estado e conselheiro interino para a segurança nacional, Marco Rubio, disse que os EUA vão manter o bloqueio às exportações de petróleo venezuelano até que sejam implementadas medidas que permitam aos EUA e a outros países investirem na decadente indústria petrolífera da Venezuela. «Temos a certeza de que haverá um interesse muito forte por parte das empresas ocidentais», acrescentou Rubio.

Qualquer investimento em grande escala na indústria petrolífera da Venezuela exige que o futuro político deste país seja estável e previsível, o que não parece ser o caso.

É muito difícil de entender, porém, esta insistência de Trump em apoderar-se das riquezas petrolíferas da Venezuela, tendo em conta que: os Estados Unidos são já o maior produtor mundial de petróleo; o mercado mundial do petróleo está bem abastecido, com o consequente abaixamento dos preços; a procura de petróleo bruto tem vindo a diminuir e pode atingir um ponto de inflexão irreversível no sentido da sua diminuição até ao final da presente década; e qualquer investimento em grande escala na indústria petrolífera da Venezuela exige que o futuro político deste país seja estável e previsível, o que não parece ser o caso.

Em teoria, e no que toca ao petróleo, a Venezuela é um país atrativo para investidores, dispondo das maiores reservas conhecidas do mundo, acima dos 300 mil milhões de barris, um pouco mais do que a Arábia Saudita. No entanto, este setor da economia foi prejudicado por muitos anos de gestão deficiente, inexperiência, escassez de investimento e interferência política.

Hoje, a Venezuela produz pouco mais de 800 000 barris de petróleo por dia, bem longe da próspera década de 1970, quando produzia 3,5 milhões de barris por dia. (Os Estados Unidos produzem atualmente cerca de 14 milhões de barris por dia.)

Contudo, ao contrário do que Trump anunciou, isso não significa que as empresas norte-americanas estejam ávidas por investir novamente dezenas de milhares de milhões de dólares na reconstrução do setor petrolífero venezuelano.

Só para que a Venezuela voltasse a produzir os cerca de 1,5 milhões de barris por dia que produzia antes do agravamento das sanções dos EUA, seria necessária uma injeção de capital, de cerca de 10 mil milhões de dólares ao longo de vários anos.

De facto, as grandes empresas petrolíferas americanas não tinham manifestado interesse em regressar à Venezuela para aí investirem mais milhares de milhões de dólares, ainda que a Chevron  única empresa norte-americana ativa no país  se mantenha operacional. (Alguns investidores privados mais pequenos, no entanto, estão a reunir fundos com vista a participarem em projetos petrolíferos venezuelanos.)

Em primeiro lugar, esse desinteresse resulta do facto de ser necessário garantir estabilidade, segurança e um novo enquadramento legal para fazer face à escala, à extensão e à duração necessárias para a reconstrução da decrépita indústria petrolífera da Venezuela. No rescaldo da destituição de Maduro, essas condições não existem e não é certo que, a longo prazo, seja possível assegurar esse tipo de estabilidade e previsibilidade políticas, sobretudo porque a administração Trump decidiu colaborar com o regime chavista, pondo deliberadamente de parte o grupo da oposição que obteve uma vitória esmagadora nas eleições de 2024.

Em segundo lugar, resulta do estado em que se encontram as infraestruturas petrolíferas da Venezuela, em especial as jazidas de petróleo superpesado, que são a joia da coroa dos recursos do país. Só para que a Venezuela voltasse a produzir os cerca de 1,5 milhões de barris por dia que produzia antes do agravamento das sanções dos EUA, seria necessária uma injeção de capital, de cerca de 10 mil milhões de dólares ao longo de vários anos.

Em terceiro lugar, para repor os níveis de extração petrolífera dos tempos áureos da Venezuela, seria preciso investir um valor colossal ao longo da próxima década: cerca de 100 mil milhões de dólares ou mais. Se tudo corresse bem, a Venezuela teria capacidade para produzir 2,5 milhões de barris por dia  menos de metade da produção atual do estado do Texas.

A maioria dos profissionais qualificados da indústria petrolífera fugiu da Venezuela, razão pela qual seria também necessário injetar capital humano, e não apenas financeiro.

Em quarto lugar, embora esteja geologicamente demonstrada a abundância das reservas petrolíferas da Venezuela, não se trata de um petróleo de extração fácil, nem de produção barata  um fator importante a ter em conta quando os preços do petróleo rondam os 60 dólares por barril, prevendo-se que assim se mantenham nos próximos anos.

A principal zona de extração, situada na bacia do rio Orinoco, é de crude superpesado, e a sua transformação exige um processamento intensivo, obrigando a importar diluentes que tornem este crude espesso e denso em algo mais líquido. Além disso, ao longo da última década, a maioria dos profissionais qualificados da indústria petrolífera fugiu da Venezuela, razão pela qual seria também necessário injetar capital humano, e não apenas financeiro.

A taxa de diminuição da produção nas jazidas petrolíferas da Venezuela é, também, muito superior à de outros grandes produtores, o que significa que, só para manter o nível de produção atual, seriam precisos investimentos avultados de capital. (No entanto, a queda acelerada da produção de petróleo é hoje comum em todo o mundo, razão pela qual pode fazer sentido repor os níveis de produção de outrora na Venezuela, de modo a compensar as quebras previstas para os próximos anos noutros países.)

Em quinto lugar, e talvez este seja o fator de decisão mais importante para as empresas norte-americanas graças às quais Trump espera poder pagar a fatura da transformação na Venezuela, a disciplina na gestão de capital é neste momento a palavra de ordem.

Em 2025, o capital investido em extração de jazidas petrolíferas caiu para níveis vistos pela última vez antes da pandemia, e o ano de 2026 também se adivinha negativo a este respeito.

Depois da vaga despesista que há uma década assustou Wall Street e afetou negativamente o valor das suas ações, as empresas petrolíferas, tanto as de grande como as de pequena dimensão, empenharam-se em reduzir as despesas de capital, de modo a maximizar os ganhos para os investidores, e não em aumentar o número de poços novos.

Esta abordagem verifica-se em todo o mundo: em 2025, o capital investido em extração de jazidas petrolíferas caiu para níveis vistos pela última vez antes da pandemia de COVID-19, e o ano de 2026 também se adivinha negativo a este respeito.

A ConocoPhillips, uma grande empresa norte-americana que abandonou a Venezuela depois das expropriações de 2007, é um bom exemplo: o seu plano de despesas de capital até 2030 é contido, com um orçamento reduzido e maioritariamente direcionado para a exploração petrolífera segura nos EUA, sendo o restante destinado a países igualmente seguros e estáveis, como a Noruega e a Austrália.

A ExxonMobil, outra das empresas que abandonaram a Venezuela, investiu recentemente dezenas de milhares de milhões de dólares no desenvolvimento petrolífero de outro mercado muito previsível e promissor  o da Guiana, onde a produção (e o investimento) continuam em crescimento acelerado.

Ao contrário de Trump, o mercado mundial do petróleo não está à procura de mais oferta – nem no futuro próximo, nem provavelmente nos próximos cinco anos.

Por fim, ao contrário de Trump, o mercado mundial do petróleo não está à procura de mais oferta  nem no futuro próximo, nem provavelmente nos próximos cinco anos. Há hoje um excesso de oferta, devido ao qual os preços do petróleo desceram para níveis que, do ponto de vista dos produtores de petróleo dos EUA, são perigosamente baixos.

Prevê-se que haja uma futura desaceleração ainda maior da procura de petróleo, especialmente nas economias desenvolvidas, o que torna arriscada a hipótese de apostar mais de 100 mil milhões de dólares na Venezuela.

No entanto, na medida em que uma mudança limitada no regime e um alívio das sanções dos EUA permitam recuperar, ainda que parcialmente, a capacidade de produção petrolífera da Venezuela, para não falar da expectativa de um aumento significativo das exportações venezuelanas, isso seria uma péssima notícia para os produtores norte-americanos de energia, os mesmos que é suposto assegurarem o objetivo de «hegemonia energética» tão frequentemente defendido por Trump.

Os produtores de petróleo de xisto dos EUA ficam preocupados sempre que os preços do crude descem abaixo de 60 dólares por barril  e esses preços já estão pouco acima dos 50 dólares.

O certo é que, como ficou claro na nova Estratégia de Segurança Nacional da administração Trump, o lema de Washington é hoje «America First»: a América em primeiro lugar.

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