A Irlanda está a tornar-se um protetorado militar francês
Este artigo, publicado em parceria com a Foreign Policy e escolhido por Bruno Cardoso Reis, revela «os verdadeiros custos de não se fazer parte da NATO e de se ter um investimento diminuto em defesa». «O país é incapaz de responder, por exemplo, à ameaça de drones suspeitos, ficando numa situação de extrema dependência de potências militarmente mais fortes», explica o professor no ISCTE-IUL.
Em matéria de segurança e defesa, há muito que a Irlanda depende dos meios militares de terceiros. O país é constitucionalmente neutro, e em 2025 as suas despesas militares foram residuais, na ordem dos 0,22% do PIB. O país está literalmente indefeso.
A Marinha dispõe de apenas quatro navios de guerra, que operam alternadamente, nos seus navios patrulha não tem pessoal treinado para usar o armamento e não tem nenhuns caças. A Irlanda é, pois, incapaz de defender o seu território, as suas águas e as infraestruturas submersas em torno da ilha, das quais dependem a segurança das comunicações transatlânticas.
Mesmo agora — quando as ameaças geopolíticas são especialmente intensas — Dublin continua a não ter nenhuma estratégia de segurança consistente a longo prazo.
O país precisa de resolver um problema de segurança imediato: depois do embaraço de não ter conseguido lidar com uma incursão de drones ocorrida em dezembro de 2025, aquando de uma visita do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, a Irlanda quer evitar a todo o custo incidentes deste tipo quando assumir a presidência rotativa do Conselho da União Europeia — o órgão intergovernamental que é o verdadeiro centro de poder na União Europeia —, que começa em julho de 2026 e envolve múltiplas cimeiras e reuniões ministeriais.
Incapaz de gerir por si mesma a segurança, Dublin anunciou recentemente que pretende recorrer à Marinha francesa para assegurar a defesa aérea temporária no decorrer dos importantes encontros do Conselho da União Europeia.
Pressionada pela UE e pelos Estados Unidos, a Irlanda também deu início a um programa de investimento em defesa destinado a colmatar as suas falhas mais graves nesta área. Paralelamente, tem vindo a estabelecer parcerias bilaterais com a França.
Em janeiro de 2026, Dublin e Paris assinaram um quadro estratégico conjunto em vigor até 2030. Em fevereiro, seguiu-se um acordo de cooperação militar que inclui, entre outras componentes, ações de formação conjunta e partilha de informações. É ainda mais significativo que a Irlanda tenha tomado a decisão de subcontratar todo o processo das suas aquisições militares, incluindo o respetivo controlo jurídico, administrativo e logístico, na sua quase totalidade à França.
No âmbito desta parceria, a Irlanda e a França estão a finalizar uma série de acordos de aquisição entre governos (G2G). Na prática, o governo irlandês atribui à França a responsabilidade de, em seu nome, negociar, executar e assinar contratos de aquisição de equipamento militar essencial.Caberá à França escolher os fornecedores, determinar os prazos e estipular as condições de preço; não haverá nenhum concurso público, nenhuma avaliação técnica independente irlandesa ou qualquer outro mecanismo que permita aferir se a Irlanda está a beneficiar de uma boa relação preço-qualidade.
Sobre Paris recairá também o controlo da manutenção e das cadeias de abastecimento necessárias para a utilização a longo prazo destes equipamentos militares, supervisionando ainda a formação das principais unidades militares irlandesas.
Assim, presentemente, a Direction Générale de l’Armement (Direção-Geral de Armamento, DGA) francesa, cuja missão oficial é equipar as forças armadas francesas e promover a exportação de armamento francês, tem agora a seu cargo também a gestão do rearmamento da Irlanda.
Tendo em conta que, desde pelo menos a década de 1960, o Estado francês faz das aquisições de armamento uma política industrial — o que se traduz em participações públicas na Thales e na Safran, entre outros grandes grupos da indústria de armamento —, é provável que as empresas francesas sejam as únicas beneficiárias do cheque em branco passado pelo governo de Dublin.
Pouco antes da última ronda de negociações para firmar os acordos franco-irlandeses, em junho de 2025, a Thales foi selecionada para fornecer à Marinha irlandesa o seu primeiro sistema de sonar rebocado, que os navios de guerra utilizam para detetar submarinos hostis. O negócio totalizou 60 milhões de euros. Em dezembro de 2025, o governo irlandês aprovou também a abertura de negociações com Paris para a aquisição de um sistema de radar no valor de 500 milhões de euros. Para o Irish Times, o negócio significa que a Irlanda «efetivamente delegou a aquisição do sistema ao governo de Paris».
Helen McEntee, ministra da Defesa, declarou que a proposta francesa foi aceite porque «satisfaz amplamente os requisitos de capacidade da Irlanda». Faltou dizer que esta avultada quantia será paga sem nenhum concurso público ou licitação competitiva. No essencial, é o governo francês que decide qual é o sistema de radar mais adequado para a Irlanda e que escolhe o fornecedor francês a quem será adjudicado o contrato.
Em fevereiro, foi assinado mais um acordo G2G com a França, desta vez para que a Irlanda adquira veículos blindados Griffon, Jaguar e Serval no valor de até 800 milhões de euros. Trata-se do maior investimento da história do Exército irlandês, e as negociações deverão estar concluídas nos próximos meses.
A Irlanda tornou-se quase inteiramente dependente da França. Entre 2015 e 2024, o governo irlandês encomendou equipamento militar francês no valor de 53 milhões de euros. Desde 2025, Dublin já assinou contratos ou iniciou negociações com o governo francês totalizando mais de 1,4 mil milhões de euros. Para contextualizar estes números: em 2026, o orçamento irlandês para a Defesa é de apenas 1,5 mil milhões de euros.
A aliança entre a Irlanda e a França em matéria de defesa potencia uma grande transformação. Porém, ao assumir esta posição de dependência, a Irlanda compromete a sua autonomia militar e estratégica. A fixação na França tem vindo a deteriorar as relações com a Grã-Bretanha, que é historicamente o parceiro de defesa mais próximo e o vizinho mais importante — uma consequência previsível que poderá estar por detrás das diligências francesas. (A Irlanda tem beneficiado de um acordo secreto assinado na década de 1950, ao abrigo do qual a Força Aérea Britânica vigia e interceta aeronaves hostis no espaço aéreo irlandês.)
Esta dependência inédita de Dublin pode também vir a prejudicar as relações transatlânticas, ao fazer com que a França ganhe influência suficiente para contestar, por exemplo, o modelo económico de Dublin, hoje assente no mercado livre, numa baixa carga fiscal e orientado para os EUA. Para isso, a França não precisa de ameaçar explicitamente a Irlanda. Basta, por exemplo, que da próxima vez que a Irlanda bloqueie uma prioridade francesa no Conselho Europeu, Paris atrase a tramitação de um contrato de manutenção de armamento ou adie um ciclo de modernização.
Para a França, a Irlanda representa também uma oportunidade para promover o seu velho objetivo estratégico de liderar a soberania europeia em matéria de defesa.
Os acordos com a Irlanda enquadram-se no plano de construção de uma rede de parcerias bilaterais de defesa paralela à NATO, alicerçada na liderança francesa, no equipamento francês e na doutrina militar francesa.
O modelo de referência é o da «Capacité Motorisée», a parceria estratégica estabelecida entre a França e a Bélgica em 2019 e posteriormente alargada ao Luxemburgo. É ao abrigo desta parceria que se definem as normas doutrinárias, de comando e de controlo, o equipamento e a manutenção nas forças terrestres dos parceiros. Por exemplo, nos seus veículos blindados, os três países utilizam o «Scorpion», um sistema de combate digital em rede criado pela França.
Em breve, este sistema irá integrar também a Irlanda. Embora o «Scorpion» seja compatível com as redes da NATO, o software pertence à empresa francesa Eviden, o hardware é fornecido pela Thales e por outras empresas francesas, e todos os acessos e atualizações são inteiramente controlados por Paris. Para a indústria belga sobra apenas a montagem de veículos e a produção de algumas armas complementares.
Graças ao Scorpion, a França, a Bélgica e o Luxemburgo têm hoje capacidade para combater como uma força coesa, independentemente da NATO. Agora, a Irlanda vai aderir à plataforma Scorpion, apesar de ser um país que não pertencente à NATO.
A experiência belga pode servir de alerta para Dublin. Em abril de 2025, o Tribunal de Contas da Bélgica analisou um contrato relativo à aquisição de 442 veículos blindados de fabrico francês, constatando que o valor final será quase dez vezes superior à estimativa inicial — 14,4 mil milhões de euros em vez dos 1,5 mil milhões de euros previstos. Os meios de comunicação belgas também denunciaram várias outras discrepâncias contratuais, chamando igualmente a atenção para a falta de transparência quanto a preços e condições por parte da França.
Um protetorado é um Estado nominalmente soberano, mas que cede o controlo da sua segurança a uma potência tutelar mais poderosa. Chegada a um beco sem saída, depois de décadas a depender de terceiros para a sua defesa militar, a Irlanda decidiu tornar-se um protetorado francês.