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Imagem satélite do Irão

Na guerra, a maior vantagem do Irão é a sua geografia

O curso da guerra está a ser determinado pelo terreno acidentado e pela extensa costa do país, revela este artigo da Foreign Policy. Escolhido pela investigadora Raquel Vaz-Pinto, é o 27º publicado pela Fundação ao abrigo de uma parceria editorial com a revista internacional. Segundo os seus autores, este texto mostra que «a superioridade militar, por si só, dificilmente decidirá esta guerra. O Irão não é um alvo que possa ser derrotado a partir do ar. A lógica mais profunda do conflito reside na geografia».
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A atual guerra no Irão tem sido descrita como uma disputa de tecnologia militar avançada. E, segundo esse critério, os Estados Unidos e Israel gozam de absoluta vantagem. A Força Aérea destes países domina os céus, os seus serviços de informações, muito ramificados, asseguram uma vigilância sem precedentes e têm capacidade ofensiva para atingir o interior do território iraniano.

Mas a superioridade militar, por si só, dificilmente decidirá esta guerra. O Irão não é um alvo que possa ser derrotado a partir do ar. A lógica mais profunda do conflito reside na geografia.

A estratégia adotada pelo Irão, assente na resistência e na imposição de custos cada vez mais pesados aos seus adversários, reflete as realidades estruturais do seu território. Ao contrário de muitos Estados daquela região, cujas opções estratégicas são condicionadas pela exiguidade do seu território, o Irão dispõe de um vasto espaço interior e de barreiras naturais extraordinárias. Os Estados mais pequenos da região do Golfo, cuja infraestrutura económica se situa ao longo da costa, estão muito mais expostos a uma pressão militar rápida.

O interior montanhoso do Irão cria barreiras defensivas naturais

Em contrapartida, o interior montanhoso do Irão  dominado pelas cordilheiras de Zagros e de Alborz e pelo planalto que se estende entre elas  cria barreiras defensivas naturais que complicariam seriamente uma invasão terrestre em larga escala. Ao longo dos séculos, estas cadeias montanhosas funcionaram como escudos estratégicos, retardando e desgastando as forças invasoras: foi o que aconteceu com os exércitos romanos de Marco António, em 36 a.C., que enfrentaram grandes dificuldades para penetrar no planalto iraniano, e com os iraquianos na frente de Zagros, durante a Guerra Irão-Iraque de 1980-1988, cujos avanços ficaram num impasse.

Estas características condicionam significativamente as atuais possibilidades estratégicas. A dificuldade geográfica de invadir o Irão significa que é pouco provável que a guerra seja decidida através de uma campanha terrestre convencional. A invasão do Iraque em 2003 exigiu mais de 300 000 soldados norte-americanos para a campanha inicial, seguida de uma força de ocupação que chegou a atingir cerca de 160 000 efetivos, enquanto o Afeganistão registou um máximo de aproximadamente 100 000 soldados num teatro de operações muito menos populoso e de menor dimensão.

Contudo, no Irão o desafio é incomparavelmente mais exigente. O país é quase quatro vezes maior do que o Iraque e tem uma população superior a 90 milhões de habitantes. Uma ocupação exigiria, com toda a probabilidade, uma força significativamente maior, linhas de abastecimento mais extensas e um empenho financeiro e político muito superior ao do Iraque ou do Afeganistão. Na prática, mesmo as ocupações norte-americanas mais dispendiosas das últimas duas décadas representariam apenas o valor mínimo necessário para uma campanha terrestre consistente no Irão.

Mapa da paisagem do Irão

Em contrapartida, à medida que se avança para leste e se penetra mais fundo no planalto central do Irão  nas províncias do Khorasan do Sul e de Yazd, bem como nas regiões setentrionais do Kermão, do Sistão e do Baluchistão , o ambiente operacional torna-se progressivamente mais exigente. Estas regiões situam-se mais longe do alcance da projeção de poder marítimo e das bases aéreas regionais, sendo isoladas pela distância, pelo terreno e por escassez de infraestruturas. Para manter operações de elevada intensidade nestas regiões são precisos tempos de voo mais longos, reabastecimento aéreo mais complexo e uma coordenação logística acrescida, o que reduz tanto o ritmo como a persistência dos ataques.

Isto não faz com que o Irão oriental seja imune às investidas, mas reduz o ritmo, a persistência e a fiabilidade de quaisquer ataques, por comparação com as regiões ocidentais e meridionais do país. Além disso, o terreno acidentado cria oportunidades para a dispersão, a ocultação e o realojamento de infraestruturas nucleares e militares. As instalações nucleares ou os arsenais transferidos para locais mais remotos, em áreas montanhosas ou nos recessos do leste, serão mais difíceis de detetar, de atacar de forma repetida e, pior ainda, de destruir completamente.

Em nenhum outro lugar o poder da geografia é mais evidente do que no Estreito de Ormuz

A geografia não importa apenas em terra. Ela condiciona igualmente a guerra no mar. A proximidade do Irão a importantes pontos de estrangulamentos marítimos confere-lhe uma vantagem assimétrica que a tecnologia, por si só, não consegue neutralizar com facilidade. Em nenhum outro lugar o poder da geografia é mais evidente do que no Estreito de Ormuz. Se a geografia iraniana torna difícil uma vitória militar rápida, a posição do Irão neste estreito confere-lhe uma vantagem adicional: a capacidade de impor custos económicos a todo o mundo, mesmo sem vencer no campo de batalha.

Situado entre o Irão e a Península Arábica, este estreito corredor marítimo liga o Golfo Pérsico aos mercados energéticos mundiais. No seu ponto mais estreito, o Estreito de Ormuz tem apenas cerca de 21 milhas náuticas de largura, sendo as faixas efetivamente utilizadas pelos navios de transporte ainda mais estreitas do que isso. Apesar desta exiguidade, cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo e uma parte significativa do comércio global de gás natural liquefeito passam por esta única via de acesso.

Mapa do posicionamento marítimo do Irão

Retirar ao Irão esta vantagem geográfica exigiria muito mais do que atacar um único ponto, como a Ilha de Kharg. Embora Kharg seja um alvo económico da maior relevância  responsável por cerca de 90% a 96% das exportações de petróleo iraniano , o seu controlo não determina o domínio sobre o Estreito de Ormuz.

O domínio do estreito radica, antes, na posição geográfica mais ampla do Irão: uma costa que se estende por quase 2400 quilómetros ao longo do Golfo Pérsico e do Golfo de Omã, aliada à proximidade de ilhas e pontos de estrangulamento estratégicos que permitem exercer uma pressão assimétrica a vários níveis. Mesmo que Kharg fosse ocupada ou neutralizada, o Irão preservaria a capacidade de ameaçar o tráfego marítimo com mísseis, drones, minas navais e embarcações de ataque rápido distribuídos ao longo desta costa.

Na prática, o Irão não precisa de controlar toda a sua costa para exercer influência sobre o estreito; basta-lhe manter capacidade suficiente para gerar incerteza e risco. Assim, para neutralizar a vantagem geográfica do Irão seria necessário um domínio consistente sobre um vasto teatro marítimo, algo incomparavelmente mais complexo e dispendioso do que a tomada de uma única ilha.

O controlo do estreito pode redefinir os critérios segundo os quais se avalia o resultado da guerra

Na verdade, aquilo que começou como uma campanha destinada a mudar o regime iraniano e a desmantelar as suas capacidades nucleares e balísticas tem-se transformado progressivamente num impasse estratégico em torno do Estreito de Ormuz.

Inicialmente concebida como uma campanha aérea agressiva e rápida, a ofensiva colidiu com a realidade geográfica. O estreito emergiu como um espaço condicionante, com consequências que se estendem muito além do campo de batalha, alcançando os mercados energéticos mundiais, as cadeias de abastecimento e os fluxos financeiros.

O peso estratégico de Ormuz é de tal ordem que, se o Irão conseguir controlar efetivamente o estreito, mesmo a perda das suas reservas de urânio enriquecido  estimadas em cerca de 400 quilos  não implicaria necessariamente uma derrota estratégica. O controlo do estreito pode, na prática, redefinir os critérios segundo os quais se avalia o resultado da guerra. O que já se percebeu é que o futuro do Estreito de Ormuz será bem diferente do seu passado: ou firmemente controlado pelo Irão, ou sujeito a uma nova ordem, em que o papel de Teerão será significativamente reduzido.

A segunda área de estrangulamento que condiciona a evolução da guerra situa-se mais a oeste, em Bab el-Mandeb, a estreita passagem que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Adém

No entanto, Ormuz é apenas uma das várias partes de um sistema geopolítico mais vasto. A segunda área de estrangulamento que condiciona a evolução da guerra situa-se mais a oeste, em Bab el-Mandeb, a estreita passagem que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Adém.

Há quase duas décadas, e sobretudo desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, em outubro de 2023, este corredor tem sido alvo de sucessivas incursões dos houthis do Iémen, um ator não estatal alinhado com o Irão cujos ataques marítimos têm ameaçado periodicamente a navegação comercial no Mar Vermelho. Através dos houthis, o Irão plantou as sementes da sua influência revolucionária num ponto de estrangulamento estratégico, onde a geografia transforma a ideologia em vantagem geopolítica.

Se as tensões se alastrarem a este corredor marítimo, as consequências económicas poderão estender-se muito para além do campo de batalha. A situação no estreito de Bab el-Mandeb espelha a fragilidade da rede marítima que liga o Mar Vermelho ao comércio mundial.

Essa fragilidade resulta tanto da sua configuração geográfica como da escassez de alternativas viáveis. No seu ponto mais estreito, o Bab el-Mandeb tem apenas cerca de 20 milhas de largura, obrigando a navegação mundial a concentrar-se em rotas extremamente exíguas, muito vulneráveis a ataques de mísseis, drones, minas navais ou pequenas iniciativas de assédio. Ao contrário de outros pontos de estrangulamento, não há opções alternativas exequíveis: qualquer interrupção prolongada de circulação obrigaria os navios a circum-navegar o Cabo da Boa Esperança, o que acrescentaria 10 a 15 dias aos tempos viagem e aumentaria significativamente os custos de combustível, seguros e frete.

O combate decisivo na guerra do Irão pode, em última análise, não ter lugar nos céus sobre o Irão ou Israel, mas sim nas estreitas vias de navegação

Cerca de 10% a 12% do comércio global e 6 a 9 milhões de barris de petróleo passam diariamente por este corredor. Uma simples interrupção parcial pode desencadear efeitos em cascata  do aumento dos prémios de seguro de transporte aos atrasos nas cadeias de abastecimento e à subida dos preços da energia , o que demonstra que um conflito localizado pode rapidamente traduzir-se em choques sistémicos para a economia mundial. De facto, as características geográficas do Médio Oriente fazem com que uma guerra regional possa prejudicar todo o sistema do comércio marítimo.

As consequências estratégicas são profundas. O combate decisivo na guerra do Irão pode, em última análise, não ter lugar nos céus sobre o Irão ou Israel, mas sim nas estreitas vias de navegação. E já está a desenrolar-se num palco geopolítico mais vasto, definido por corredores marítimos, cadeias de abastecimento e fluxos energéticos. O controlo do território e do espaço aéreo é importante, mas o controlo dos pontos de estrangulamento poderá ser ainda mais determinante.

Quanto mais tempo a guerra durar, mais pesadas se tornarão estas dinâmicas estruturais. A superioridade tecnológica pode dar lugar a sucessos táticos impressionantes, mas não pode eliminar a geografia. As montanhas não se destroem com bombardeamentos, e os pontos de estrangulamento não se deslocam. São estas características perenes da paisagem estratégica que condicionam a progressão das guerras.

Na era da inteligência artificial, da guerra cibernética, dos satélites e das armas de precisão autónomas, a geografia continua a exercer uma influência profunda sobre o curso da guerra

A guerra no Irão põe, por isso, em evidência uma lição mais profunda e ampla sobre os conflitos contemporâneos. Na era da inteligência artificial, da guerra cibernética, dos satélites e das armas de precisão autónomas, a geografia continua a exercer uma influência profunda sobre o curso da guerra. As cadeias montanhosas e as barreiras do terreno limitam a viabilidade de uma invasão. Os pontos de estrangulamento marítimos estratégicos aprofundam a vantagem assimétrica. Os corredores energéticos ligam os conflitos locais à economia global. Se é certo que a tecnologia condiciona a forma como se trava uma guerra, é muitas vezes a geografia que condiciona o modo como a guerra termina, ou até se termina de todo.

Quando invadiu a Rússia em 1812, Napoleão Bonaparte foi derrotado pelo «General Inverno» e pelo «General Espaço», como diriam mais tarde os russos. Hoje, é possível que também no Irão haja dois generais ocultos: o «General Geografia», que comanda as montanhas e os pontos de estrangulamento marítimos do país, e o «General Resistência», que representa a sua capacidade para absorver choques e suportar uma guerra de longa duração.

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