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Ursula von der Leyen sentada ao lado de Donald Trump, com bandeiras da UE e dos EUA.

Podem as matérias-primas críticas contribuir para melhorar as relações transatlânticas?

Os Estados Unidos e a Europa encontraram uma área de cooperação. Em tempos de tensão e discórdia, as duas potências partilham de uma perigosa dependência da China no abastecimento de matérias-primas críticas e querem, por isso, diversificar os seus mercados. Este é o 28ª artigo publicado pela Fundação ao abrigo de uma parceria editorial com a revista internacional Foreign Policy. Uma escolha de Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE-IUL, que alerta que esta convergência só será possível «se se ultrapassarem desconfianças crescentes».
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A agressividade com que a administração Trump tem tratado as relações transatlânticas tornou difícil para os responsáveis norte-americanos e europeus encontrar pontos de entendimento. Há, porém, uma grande exceção.

Nas últimas semanas, os minerais críticos emergiram como uma área de cooperação entre os líderes dos EUA e da Europa, apesar de prosseguirem as tensões relativas à Gronelândia, à NATO e à invasão da Ucrânia pela Rússia, iniciada há quatro anos. A União Europeia, por exemplo, chegou a acordo com os Estados Unidos e o Japão no sentido de unir esforços para reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento destas matérias-primas; o Reino Unido e os Estados Unidos, por sua vez, assinaram um memorando de entendimento relativo a este setor.

Estes acordos refletem o esforço da Europa por diversificar as suas fontes de abastecimento para além da China e, ao mesmo tempo, a tentativa, por parte dos líderes europeus, de utilizar estas matérias-primas  um dos poucos interesses que claramente partilham com Washington  para aliviar as tensões numa relação que, em geral, tem sido muito crispada.

Há poucos assuntos que tenham tanta proeminência na agenda de política externa do presidente dos EUA como as matérias-primas críticas

«Com as relações transatlânticas sob enorme pressão  havendo quem tema que possam simplesmente desmoronar-se , as matérias-primas críticas são de certa forma o único elo que ainda as mantém coesas», afirmou Tom Moerenhout, responsável pela Critical Materials Initiative no Center on Global Energy Policy da Universidade de Columbia.

Há poucos assuntos que tenham tanta proeminência na agenda de política externa do presidente dos EUA, Donald Trump, como as matérias-primas críticas  um conjunto de cerca de 60 destes materiais que as agências norte-americanas consideram essenciais para a segurança nacional e económica do país. (A Comissão Europeia, por seu lado, identificou uma lista de 34 matérias-primas críticas.)

A administração Trump centrou-se em matérias-primas críticas como o cobre, que alimenta os centros de dados indispensáveis à inteligência artificial (IA)  a grande aposta do governo , e as terras raras, cujas cadeias de abastecimento globais são quase inteiramente dominadas pela China.

A China aproveitou o seu domínio sobre as terras raras na guerra comercial contra os Estados Unidos, o que obrigou Washington a acelerar esforços para se tornar menos dependente de Pequim.

A UE, o Japão e os EUA anunciaram planos de trabalho para chegarem a um memorando de entendimento que reforce a segurança conjunta das suas cadeias de abastecimento de matérias-primas críticas

Trump deixou clara a sua ambição de garantir novas cadeias de abastecimento de minerais, e o mundo prestou-lhe atenção. Diversos países mostraram-se disponíveis ao líder norte-americano, propondo os seus próprios acordos sobre matérias-primas, e a administração Trump acolheu este mês delegações de mais de 50 países para uma primeira reunião ministerial sobre este tema, onde os responsáveis norte-americanos apresentaram aos potenciais parceiros uma «zona de comércio preferencial» para estas matérias-primas críticas.

Os líderes europeus mostraram-se recetivos. Das 55 delegações presentes na reunião ministerial, 11 países, incluindo o Reino Unido, assinaram quadros bilaterais de acordo ou memorandos de entendimento (MdE) com a administração Trump. A União Europeia, o Japão e os Estados Unidos também anunciaram planos de trabalho para chegarem a um MdE que reforce a segurança conjunta das suas cadeias de abastecimento de matérias-primas críticas.

Ao mostrar-se disponível para essa cooperação, é possível que a Europa se esteja a proteger de ameaças futuras  sejam elas económicas, como a imposição de taxas aduaneiras sobre as suas exportações para os EUA, ou militares, como ficou patente na recusa inicial de Trump em excluir o uso da força para anexar a Gronelândia. «Preocupa-os o facto de Trump ter demonstrado que está disposto a usar a força militar para alcançar objetivos políticos, e que o possa fazer caso não acredite numa cooperação futura», afirmou Cullen Hendrix, investigador sénior do Peterson Institute for International Economics.

A cooperação em matéria de matérias-primas não deve ser interpretada como um sinal de genuíno entendimento entre a Europa e os Estados Unidos

Ainda assim, os analistas afirmam que a cooperação em matéria de matérias-primas não deve ser interpretada como um sinal de genuíno entendimento entre a Europa e os Estados Unidos. De acordo com Liana Fix, investigadora sénior para a Europa no Council on Foreign Relations (EUA), os acordos são ditados pela necessidade, e não por relações de parceria ou de confiança.

Tal como os Estados Unidos, a Europa continua profundamente vulnerável ao domínio da China sobre as matérias-primas críticas e não escapou às restrições que, no passado, Pequim impôs às exportações de terras raras. Contudo, a Europa receia igualmente a dependência excessiva dos Estados Unidos.

«Penso que é compreensível e que têm boas razões para acreditar que os Estados Unidos poderiam mudar de atitude e pôr em prática exatamente o mesmo tipo de coerção que a China tem aplicado às terras raras», afirmou Hendrix.

Entre 2021 e 2025, Bruxelas assinou acordos sobre matérias-primas com cerca de 14 países

Há vários anos que os líderes europeus têm procurado reforçar a resiliência das suas cadeias de abastecimento de matérias-primas, ainda que os seus esforços tenham ficado aquém dos de Washington.

«Chegaram muito atrasados ao jogo», afirmou Moerenhout, o já citado professor da Universidade de Columbia.

Ao abrigo do Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas, aprovado pela Comissão Europeia em 2023, a União Europeia estabeleceu objetivos novos e ambiciosos para o aprovisionamento, a produção e o processamento internos, com vista a criar cadeias de abastecimento mais resilientes. Em dezembro passado, a Comissão Europeia anunciou ainda um financiamento de cerca de 3,5 mil milhões de euros para reforçar o setor em 2026.

Os líderes europeus têm-se empenhado também na cooperação externa; entre 2021 e 2025, Bruxelas assinou acordos sobre matérias-primas com cerca de 14 países. Neste momento, a UE está igualmente a avançar com planos para uma reserva de matérias-primas críticas, que, segundo a Reuters, será liderada por Itália, França e Alemanha.

Para que a aposta da Europa seja bem-sucedida, os seus líderes têm de se esforçar mais por injetar capital no setor

Ainda assim, os progressos têm sido difíceis, nomeadamente devido à complexidade acrescida das iniciativas lideradas pela UE, que obrigam a coordenar mais de duas dezenas de Estados-membros com diferentes prioridades e interesses geopolíticos.

Num relatório recente, o Tribunal de Contas Europeu, responsável por escrutinar as decisões políticas de Bruxelas, concluiu que a legislação está longe de cumprir os seus objetivos e que os projetos terão dificuldade em garantir mais fornecimentos para o bloco europeu até ao final da década.

«Os esforços de diversificação das importações ainda não produziram resultados tangíveis, e há bloqueios que dificultam o desenvolvimento da produção e da reutilização internas», refere o relatório.

Para que a aposta da Europa seja bem-sucedida, os seus líderes têm de se esforçar mais por injetar capital no setor, o qual é urgentemente necessário, defendeu Moerenhout. «Estamos num momento de mudança, em que a UE tem as regulamentações, tem os objetivos», disse. «Agora, porém, precisam de começar a investir capital, e isso é uma tarefa difícil para a Europa.

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