Morrer de calor
O calor é o efeito mais democrático das alterações climáticas: quando está quente, está quente para todos. Mas para as pessoas mais vulneráveis – idosos, doentes crónicos, crianças, grávidas e para quem trabalha ao ar livre – pode ser um problema muito maior.
4,6 milhões de pessoas morreram em ondas de calor
nas últimas três décadas
Esta é uma estimativa do excesso de mortalidade – ou seja, o número de mortes acima da média – nos períodos em que a temperatura esteve muito acima do normal durante dois ou mais dias, segundo um estudo publicado este ano na revista PLOS Medicine. Os números referem-se apenas às ondas de calor que ocorreram nos quatro meses consecutivos mais quentes do ano em cada país. São uma aproximação, através de modelos matemáticos que calcularam o excesso de mortalidade para cada ponto do globo, a partir de dados reais de 750 locais em 43 países.
Excesso de mortalidade devido ao calor entre 1990 e 2019
Metade das mortes adicionais ocorreu na Ásia
O estudo permitiu criar um potencial mapa que mostra o número de mortes que, pelo mundo, foram provocadas por ondas de calor. Em valores absolutos, os dois gigantes demográficos da Ásia somam um terço do total de mortes: Índia (21%) e China (14%). A seguir, vem a Rússia (8%).
Mortes em ondas de calor, por países
Mas é na Europa que essa mortalidade é mais aguda
As mortes absolutas não contam a história toda. Em termos relativos, o impacto do calor é muito mais severo na Europa. Por cada 10 milhões de habitantes, o excesso de mortes nas ondas de calor é três vezes maior do que em África ou na Ásia. E a taxa de mortalidade é o dobro da média mundial. O quadro é especialmente grave na Europa do Sul e do Leste.
Mortes em ondas de calor, em números absolutos e relativos
A Europa está a aquecer muito rapidamente
Uma das razões para a elevada mortalidade por calor na Europa é simples: o continente europeu está a aquecer muito mais rapidamente do que a média mundial. Os termómetros subiram 2,3°C desde 1850-1900 – cerca de 1°C acima do valor global, segundo dados compilados pelo observatório climático Copernicus. Este cenário deve-se, em parte, ao aumento mais intenso das temperaturas no Hemisfério Norte.
Aumento da temperatura média na Europa e no mundo face a 1850-1900
O calor está a atingir uma população envelhecida
Outra razão para a elevada mortalidade por calor na Europa é a proporção de idosos na população. Uma em cada cinco pessoas tem 65 ou mais anos – a maior taxa entre todos os continentes. Os idosos são os que mais sofrem em ondas de calor, especialmente se têm problemas cardiovasculares, respiratórios ou renais. Entre a população idosa do globo, a mortalidade provocada pelo calor aumentou 85% nas últimas duas décadas.
Percentagem da população com 65 e mais anos
O Verão de 2003 despertou a Europa para o problema
Ondas de calor avassaladoras apanharam a Europa de surpresa no Verão de 2003. Cerca de 71 mil mortes adicionais ocorreram em 16 países europeus entre junho e setembro. Em França, centenas de pessoas morreram sozinhas em casa. Portugal foi o quarto país com mais óbitos, mas o segundo com maior taxa de mortalidade adicional em Agosto – quando os termómetros chegaram à marca recorde de 47,3ºC na Amareleja.
Mortalidade associada ao calor entre junho e setembro de 2003
A pandemia agravou o impacto do calor em Portugal
Várias outras ondas de calor resultaram em excesso de mortes em Portugal. Um estudo de investigadores do IPMA, Universidade de Lisboa e Instituto Ricardo Jorge, publicado em 2022, mostra como a pandemia da covid-19, em 2020, terá agravado a mortalidade por calor. No mês de julho, em cinco dias consecutivos, foram registados quase 600 óbitos adicionais não relacionados com a covid-19.
Indicadores de mortalidade em ondas de calor em Portugal entre 2003 e 2020
A Europa foi novamente abalada pelo calor em 2022
Se 2003 foi uma chamada de alerta, 2022 veio mostrar que a Europa continuava vulnerável. O Verão de 2022 foi o mais quente na Europa desde que há registos. Entre maio e setembro, houve quase 62 mil mortes adicionais em 35 países. Em Portugal, foram 2212 mortes. Foi o quarto país com mais mortes por milhão de habitantes.
Mortalidade associada ao calor entre maio e setembro de 2022
Muitas cidades já se estão a adaptar ao calor
A estratégia número um para reduzir a mortalidade em ondas de calor é preparar as cidades. Em Portugal, 68% da população vive em espaços urbanos. Na Grécia são 81% e em Espanha, 82%. Muitas cidades estão a adotar medidas para além dos planos de contingência e alertas de calor.
Diretor municipal do calor
Pelo menos cinco cidades – Florida, Atenas, Freetown, Melbourne e Dhaka – têm um "chief heat officer". A sua função é coordenar toda a ação relacionada com as ondas de calor, seja preventiva ou durante crises.
Mapas de vulnerabilidade
Mostram as áreas mais sensíveis às ondas de calor. Lisboa tem um mapeamento detalhado, mostrando que as ilhas de calor são mais intensas no Parque das Nações e na Baixa.
Telhados e pavimentos refletores
Utilizar revestimentos com cores mais claras nos telhados e pavimentos pode reduzir substancialmente o calor urbano. Los Angeles está a pintar parte das suas ruas através do programa Cool Streets LA.
Pontos de arrefecimento
Em Paris, pulverizadores automáticos têm vindo a ser instalados em antigos fontanários. Dezenas de parques ficam abertos à noite no Verão.
Áreas verdes
Aumentar o número de árvores numa cidade reduz a absorção do calor pelos edifícios. Melbourne tem em curso um plano para elevar a 40% a cobertura verde da área urbana até 2040.
Fontes
Estudos científicos
Ballester, J., Quijal-Zamorano, M., Méndez Turrubiates, R.F. et al. (2023). Heat-related mortality in Europe during the summer of 2022. Nat Med 29, 1857–1866
Robine, Jean-Marie et. al. (2008). Death toll exceeded 70,000 in Europe during the summer of 2003. Comptes Rendus. Biologies, Volume 331 (2008) no. 2, pp. 171-178
Romanello, M., et. al. (2023). The 2023 report of the Lancet Countdown on health and climate change. The Lancet. Vol. 402, No. 10419
Sousa, P.M., Trigo, R.M., Russo, A. et al. (2022) Heat-related mortality amplified during the COVID-19 pandemic. Int J Biometeorol 66, 457–468
Zhao Q., Li S., Ye T., Wu Y., Gasparrini A., Tong S., et al. (2024) Global, regional, and national burden of heatwave-related mortality from 1990 to 2019. PLoS Med 21(5).
Base de dados
Divisão de População das Nações Unidas/World Population Prospects: 2022 Revision
NOAAGlobalTempv6/Copernicus.
Infografia e desenvolvimento de José Alves e Ricardo Garcia
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