O novo primeiro-ministro britânico tem de fazer frente a Trump
Ao assumir oficialmente o cargo no n.º 10 de Downing Street, a 20 de julho, Andy Burnham tornou-se o sétimo primeiro-ministro do Reino Unido em pouco mais de dez anos.
A última vez em que a mudança de primeiros-ministros se fez a este ritmo foi entre 1827 e 1834, quando o Parlamento debateu e aprovou a Lei de Abolição da Escravatura. Desta vez, a culpa é do Brexit. O referendo do Brexit, realizado em 2016, no qual o Reino Unido votou a favor da saída da União Europeia, causou grande instabilidade política e económica. Dez anos depois, nenhum dos seis antecessores de Burnham conseguiu cumprir as promessas feitas pelos defensores do Brexit, e, muitos eleitores sentem hoje que foram enganados pela campanha a favor da saída. Há vários estudos segundo os quais o Brexit devastou a economia do Reino Unido, reduzindo o seu PIB per capita entre 6% e 8%.
Na era pós-Brexit, muitos primeiros-ministros têm procurado aprofundar os laços com Washington. Nesse contexto, o Acordo de Prosperidade Económica EUA-Reino Unido visava compensar a perda de acesso ao mercado único da UE. Porém, a assinatura deste acordo bilateral transacional com os EUA não permitiu compensar as vantagens da profunda integração económica e política de que o país usufruía enquanto Estado-membro da UE.
No seu segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem tratado o Reino Unido mais como um subordinado que pode ser intimidado do que como um dos principais aliados de Washington. Quando Trump pediu que as bases militares britânicas ficassem à disposição dos EUA para operações relacionadas com o Irão, a recusa inicial de Keir Starmer foi recebida por Trump com um comentário sarcástico: «Não é com o Winston Churchill que estamos a lidar.» A partir de então, humilhou publicamente o primeiro-ministro britânico em várias ocasiões.
Starmer tentou desenvolver uma relação de amizade com Trump. Por exemplo, convidou-o para uma segunda visita de Estado em 2025 (uma iniciativa sem precedentes diplomáticos), defendeu e justificou publicamente algumas das escolhas políticas de Trump relativamente à Ucrânia e à NATO antes dos ataques ao Irão. Fizesse Starmer o que fizesse, com o 47.º presidente dos Estados Unidos, a «relação especial» entre os dois países tem-se caracterizado mais pelo abuso do que pelo afeto.
Em resposta a esta humilhação, Burnham deve aprender com os erros que Starmer cometeu na relação com Trump. Para isso, pode ser útil adotar o mesmo tipo de abordagem que Mark Carney, o primeiro-ministro canadiano: recorrer a uma comunicação disciplinada, criar coligações institucionais e estar sempre pronto para fazer frente aos gestos intimidatórios de Trump.
Um dos focos de tensão diplomáticos incontornáveis que Burnham terá de gerir no imediato é a questão das Ilhas Chagos. Inicialmente, quando Starmer anunciou que o Reino Unido iria devolver a soberania das Ilhas Chagos às Maurícias, Trump declarou o seu apoio. Depois, porém, classificou a decisão como um «ato de grande estupidez». Atualmente, Washington opõe-se à transferência de poderes, dando a entender que os EUA pretendem assegurar o controlo sobre a base militar de Diego Garcia e sugerindo mesmo que podem tentar adquirir a ilha.
Burnham deve manter-se firme. A devolução das Ilhas Chagos poria fim a uma das disputas territoriais mais antigas em torno dos territórios ultramarinos da Grã-Bretanha e seria um ato de descolonização longamente adiado. Além disso, a transferência de soberania poria em prática o parecer do Tribunal Internacional de Justiça, segundo o qual a separação entre o arquipélago de Chagos e as Maurícias, feita pelo Reino Unido na década de 1960, seria ilegal.
Para não repetir os erros de Starmer, é preciso que Burnham defina claramente, desde o primeiro momento, os principais objetivos da sua política externa, centrando-se em três prioridades que se articulam entre si: investimento transparente em defesa, reorientação da economia para a UE e preparação para enfrentar uma eventual provocação grave por parte do presidente russo, Vladimir Putin, num cenário em que os resultados da guerra que lançou contra a Ucrânia são cada vez mais incertos.
No que se refere à defesa, Burnham prevê aumentar os gastos para 2,7% do PIB até ao final da década. É preciso não só que cumpra essa promessa como também que aumente o investimento em defesa para, pelo menos, 3,5% do PIB; só assim poderá reforçar a coesão do seu governo e do Partido Trabalhista — foi por não ter conseguido comprometer-se com 3% que Starmer desencadeou a demissão do ministro da Defesa, John Healey, em junho.
A demissão de Healey foi o culminar de uma série de recuos em políticas e compromissos eleitorais assumidos por Starmer, que levaram o governo e o Partido Trabalhista a perderem a confiança na sua liderança.
Burnham tem de encontrar uma forma eficaz de explicar ao público porque e como é que o Brexit prejudicou a Grã-Bretanha a nível económico e geopolítico ao longo da última década. Está já prevista uma digressão estival por zonas carenciadas que têm sofrido mais diretamente as consequências das políticas governamentais, um contexto que o primeiro-ministro pode aproveitar para lançar um debate nacional sobre o impacto do Brexit e sobre os caminhos para recuperar o crescimento económico da Grã-Bretanha.
Seriam assim criados os alicerces necessários para reorientar a economia em direção à UE e para voltar a integrar o mercado único europeu. Caso consiga melhorar a cooperação com a UE, por sua vez, Burnham poderá distanciar-se de Trump e evitar que o Reino Unido dependa dos Estados Unidos em matéria de comércio e crescimento.
A recente Estratégia de Segurança Nacional britânica deixa claro que a Rússia é hoje um dos principais adversários do Reino Unido. A guerra híbrida da Rússia inclui ciberataques e incursões de bombardeiros russos no espaço aéreo britânico sobre o Mar do Norte, tentativas de assassinato, interferências nos processos eleitorais e circulação de petroleiros da frota-sombra russa, sujeitos a sanções, no Canal da Mancha, que o Ministério da Defesa classificou como uma ameaça para o Reino Unido.
Burnham tem de se preparar para um futuro agravamento destas iniciativas russas, uma vez Putin tem vindo a retaliar cada vez mais contra os aliados da Ucrânia. Deve posicionar o Reino Unido como líder na segurança euro-atlântica, recorrendo à coligação ad hoc e voluntária de apoio à Ucrânia para partilhar conhecimentos sobre a guerra na atualidade e para criar, com base nas lições aprendidas ucranianas, um programa de defesa europeia contra a Rússia.
Burnham deve ainda colaborar com os EUA no reforço das defesas no Mar do Norte, uma área de verdadeira convergência de interesses entre Londres e Washington. Ficará assim reforçada a capacidade defensiva de dissuasão da Europa, bem como dos Estados Unidos, cuja relevância é evidenciada por notícias dando conta de submarinos de ataque russos e outras embarcações em circulação na zona económica exclusiva do Reino Unido no início de 2026.
A reformulação da política externa britânica será um processo difícil e moroso. Burnham terá de encontrar um equilíbrio complicado entre cooperação e autonomia, entre tranquilizar os aliados e defender os interesses nacionais. Através do exemplo dos seus seis predecessores, terá de perceber até que ponto o Brexit deixou o Reino Unido estrategicamente vulnerável e desenvolver parcerias diversificadas com os Estados Unidos e a UE até que a autonomia estratégica britânica seja recuperada. O regresso ao mercado único da UE e, em última instância, à própria UE iriam acelerar significativamente essa recuperação.