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Imagem do muro das lamentações, em Jerusalém, onde estão projetadas as sombras de duas árvores

Hamas: pela guerra e pela morte

Neste artigo, João Tiago Proença explica como, com o ataque aos israelitas, «o Hamas quis sabotar o processo de paz e de normalização das relações de Israel com o mundo árabe». Uma decisão política desta organização, tomada «em benefício próprio e no total desrespeito dos interesses dos palestinianos».
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Em 19 de Novembro de 1977, o presidente egípcio Anwar al-Sadat visitou Israel, a convite do primeiro-ministro Menachem Begin. Após a guerra do Yom Kippur de 1973 e o afastamento do Egipto relativamente ao bloco soviético, Sadat queria pôr termo a uma situação de «nem paz, nem guerra».

Depois de negociações, tanto secretas como oficiais - em que o recém-eleito presidente dos Estados Unidos da América, Jimmy Carter, se empenhou pessoalmente - Sadat declarou na Assembleia Nacional do Egipto, em 9 de Novembro de 1977, que, para se alcançar a paz, estava disposto a deslocar-se a Jerusalém, ao Knesset, o parlamento israelita.

Begin convidou-o de imediato. Foi a primeira vez que um chefe de Estado árabe pisou oficialmente o solo da «entidade sionista». O gesto de Sadat significou o fim do isolamento a que estava votado Israel no Médio Oriente e teve como corolário um tratado de paz com o estado judaico.

Abria-se assim caminho à coexistência pacífica entre Israel e os seus vizinhos árabes. O mundo árabe que, desde 1947, não havia acatado a Resolução nº. 181 da Organização das Nações Unidas, não criou o Estado palestiniano e não reconheceu o Estado de Israel demarcou-se de Sadat e organizou-se rapidamente no chamado «campo da recusa», onde figuravam a Líbia, o Iraque, a Síria, a Argélia e o Iémen do Sul, além da Organização de Libertação da Palestina (OLP). 

O reconhecimento e a paz com Israel constituíram uma traição aos olhos do mundo árabe. O estado de espírito que suscitou acha-se bem expresso nas palavras de Ben Bella, antigo presidente da Argélia, que, no verão de 1982, declarou: «Certos dirigentes árabes podem ir a Jerusalém, isso não muda nada, haverá sempre um muçulmano que se erguerá para liquidar os traidores […] Israel é um verdadeiro cancro enxertado no mundo árabe […]». Palavras solidamente ancoradas na realidade, dado que ainda não passara um ano sobre o assassínio de Sadat pela Jihad Islâmica Egípcia, inconformada com o rumo pacificador e normalizador tomado pelo presidente egípcio.  

Ao arrepio do rumo tomado pela OLP (Organização de Libertação da Palestina), o Hamas prosseguiu uma política de confronto e de não reconhecimento de Israel, que culminou com a sua chegada ao poder nas eleições de 2006.

O mundo árabe não se podia permitir aceitar a coexistência de dois Estados. Uma vez que tinha como objetivo a eliminação de Israel, estava na massa do sangue do imperialismo pan-árabe negar toda e qualquer forma de igualdade a esse Estado.

A questão palestiniana era estritamente instrumental. Antes da Guerra dos Seis Dias não existe nenhuma ocorrência documentada da expressão «direitos inalienáveis dos palestinianos».

Não se trata de um acidente. Zoher Mossein, chefe do sector militar da OLP, em entrevista ao jornal holandês Trouw, de 31 de março de 1973, pôs as cartas em cima da mesa, ao afirmar que «não há nenhuma diferença entre jordanos, palestinianos, libaneses. Somos todos membros de uma mesma nação. É unicamente por razoes políticas que sublinhamos cuidadosamente a nossa identidade palestiniana, pois é do interesse dos árabes encorajar uma identidade palestiniana separada a fim de a opor ao sionismo. Sim, a existência de uma identidade palestiniana separada só intervém por razões táticas. A criação de um estado palestiniano é um novo meio para continuar o combate contra o sionismo e em favor da unidade árabe.»

O Hamas, acrónimo Movimento da Resistência Islâmica, surgiu oficialmente em 1987, na 1ª Intifada, e inscreve-se na mesma linha. Nascido do Centro Islâmico, instalado em Gaza em 1973, que atuava como organização caritativa com ligações à Irmandade Muçulmana do Egipto, o Hamas recusou as cartas de reconhecimento de 9 de Setembro de 1993, trocadas entre Yasser Arafat e Yitzhak Rabin.

Nelas, o primeiro reconhecia o direito de Israel a existir em paz e segurança, e renunciava à violência e ao terrorismo; o segundo reconhecia a OLP como o representante legítimo do povo palestiniano.

O movimento recusou também os Acordos de Oslo, que criava um governo provisório da Palestina, a Autoridade Nacional Palestiniana, e previa a organização de eleições democráticas e a retiradas das forças militares israelitas.

O ataque em larga escala que o Hamas levou a cabo foi uma decisão politicamente motivada e amadurecida, tomada em benefício próprio e no total desrespeito dos interesses dos palestinianos.

Ao arrepio do rumo tomado pela OLP, o Hamas prosseguiu uma política de confronto e de não reconhecimento de Israel, que culminou com a sua chegada ao poder nas eleições de 2006. Apesar do conflito antigo com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, que o demitiu em 2007 e contra quem Ismail Haniyeh, antigo primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestiniana continuou a exercer o cargo, os dois uniram-se contra os Acordos de Abraão, assinados em 2020, com vista a normalizar as relações entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, a que se juntou depois o Bahrein.

Ambos os países reconheceram a soberania de Israel. Após o Egipto, em 1979, e o tratado de paz com a Jordânia, em 1994, os Acordos de Abraão constituíram um passo decisivo para a paz na região. Meses depois, também sob a égide da administração Trump, foram normalizadas as relações entre Israel e Marrocos. Também o Sudão se declarou disposto a normalizar as relações com Israel, tendo assinado em Cartum, em 2021 a Declaração dos Acordos de Abraão, não tendo assinado o Acordo em Israel. As negociações prosseguem. Apesar disso, o valor simbólico é inegável. Foi em Cartum que, em 1967, a Liga Árabe proclamou em alto e bom som a resolução sobre Israel com os três «nãos» : não ao reconhecimento, não à paz e não às negociações. Omã e a Arábia Saudita, apesar de algumas reticências, mostraram igualmente abertura para uma futura normalização das relações com Israel.

Independentemente do que se vier a apurar quanto à influência da Rússia e do Irão, e também da Turquia, nos acontecimentos de 7 de outubro de 2023, é certo que a situação internacional de Israel isolou e tornou amplamente minoritária a posição do Hamas.

O ataque em larga escala que essa organização levou a cabo foi uma decisão politicamente motivada e amadurecida, tomada em benefício próprio e no total desrespeito dos interesses dos palestinianos.

Com a crueldade fria do desespero, o Hamas quis sabotar o processo de paz e de normalização das relações de Israel com o mundo árabe e, com isso a desvalorização da questão palestiniana como lugar do martírio redentor universal, e, por conseguinte, da sua própria posição ideológica.

Com isso em vista, planeou o ataque, segundo alegado durante dois anos, contando com a resposta de Israel e com os sentimentos da «rua árabe», cuja lavagem cerebral tem bem mais de cinco décadas. Talvez tenha tido um bónus inesperado: a reação no mundo ocidental.

 

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