Estará a Europa preparada para uma nova etapa de golpes sujos por parte da Rússia?
Os europeus estão consternados. Um drone carregado de explosivos atacou um avião de carga ucraniano na cidade de Leipzig, no leste da Alemanha, mas a bomba não detonou.Noutro incidente, as autoridades alemãs revelaram que tinham identificado e impedido um plano de assassinato do diretor executivo de uma das principais empresas de fabrico de drones do país.
Nos arredores de Roma, uma explosão gigantesca destruiu uma fábrica de munições cujos produtos são utilizados pelas forças ucranianas, depois de, uns meros dias antes, outra explosão ter atingido uma fábrica na Bulgária, cujo proprietário já fora identificado como alvo dos serviços de segurança russos.
Um caça espanhol, numa missão de patrulha aérea da NATO, abateu um drone que invadira o espaço aéreo romeno — segundo um porta-voz da NATO, o drone era provavelmente de origem russa.
Tudo isto na primeira quinzena de agosto.
Nenhum destes episódios é totalmente inédito. Há já muitos meses que os europeus têm sido alvo de uma série de ações hostis, algumas das quais claramente atribuíveis à Rússia, que visam minar o apoio da Europa ao esforço de guerra da Ucrânia.
A Rússia cortou cabos submarinos, interferiu em sinais de GPS e levou a cabo ações de sabotagem com a colaboração de habitantes locais descontentes, recrutados através da Internet. Alguns analistas apelidaram estas iniciativas russas de «guerra na zona cinzenta», por se tratar de medidas agressivas que ficam abaixo do limiar de uma guerra aberta.
Neste momento, porém, classificar as ações russas como uma «zona cinzenta» parece cada vez mais eufemístico e ultrapassado, sobretudo tendo em conta a crescente ousadia das ameaças russas. A 12 de agosto, o presidente russo, Vladimir Putin, prometeu retaliações cujo teor não precisou contra quaisquer países que se atrevessem a intervir contra a «frota sombra» de petroleiros da Rússia, numa óbvia referência a uma recente decisão tomada pela União Europeia, que permitiria confiscar petróleo russo de navios sujeitos a sanções.
Dois dias depois, Sergey Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, em entrevista à VGTRK, estendeu a ameaça a todos os países que ousassem apoiar a Ucrânia na sua luta contra os invasores russos. «Vamos adotar métodos muito mais duros para destruir tudo o que permite ao Ocidente alimentar a máquina de guerra de Kyiv», declarou. «É o que já estamos a fazer, e [os europeus] já começaram a queixar-se.»
No entanto, a Europa permanece hesitante. Aparentemente, as autoridades alemãs querem obter provas de que a Rússia esteve por detrás do ataque em Leipzig antes de reagirem, o tipo de postura que leva Moscovo a fazer sempre tudo para que não possa ser inequivocamente acusada de envolvimento. Porém, se os europeus pensam que podem ficar a salvo por respeitarem as convenções diplomáticas, estão muito enganados.
Putin e os seus sequazes têm todos os motivos para aumentar a pressão. Há já mais de quatro anos que os homens do Kremlin tentam derrotar os ucranianos através do combate direto. Longe da vitória, veem-se agora na circunstância de assistir aos drones e mísseis de Kyiv a bombardear refinarias de petróleo e alvos militares em território russo. A segunda melhor opção de Putin — conseguir que o seu amigo Donald Trump, presidente dos EUA, forçasse a Ucrânia a aceitar os termos de paz russos em negociações lideradas pelos Estados Unidos — também saiu gorada.
Resta, assim, o plano C: redobrar esforços para sabotar o apoio europeu à Ucrânia, seja através da subversão, da intimidação ou de operações de influência para promover os partidos e os políticos europeus que apoiam Moscovo. Ao longo de vários anos, Viktor Orbán foi o mais eficaz dos sequazes de Putin e desempenhou a função de defesa da Rússia na Europa. O presidente russo acredita que em breve os seus aliados na Alemanha e em França vão tornar-se ainda mais úteis do que o antigo primeiro-ministro húngaro.
Para Putin, tomar a Europa como alvo é a estratégia mais óbvia de entre as possibilidades que permitem que o conflito não assuma proporções descontroladas. Não há grandes motivos para acreditar que a Rússia não esteja já a usar todos os seus trunfos contra a Ucrânia, com exceção das armas nucleares — mas ao que tudo indica o Kremlin não irá tão longe. (Mesmo que Putin quebrasse o tabu e recorresse a uma arma nuclear tática, é pouco provável que os ucranianos deixassem de lutar.) A Europa, por outro lado, encontra-se vulnerável e dividida.
Resta saber até onde irá a criatividade de Putin. Ao contrário dos seus homólogos europeus, o presidente russo tem formação especializada na arte dos golpes sujos.
O KGB, em que Putin trabalhou durante 16 anos, atribuía especial importância às operações secretas, incluindo sabotagem, subversão e assassinatos de alvos selecionados. Foi especialmente eficaz na colaboração com organizações terroristas, prestando apoio, entre outros, à Organização para a Libertação da Palestina e ao Exército Republicano Irlandês Oficial, que receberam treino e armamento soviéticos. Foram também os agentes do KGB que forneceram granadas propulsadas por foguete, metralhadoras e pistolas com silenciador à Frente Popular para a Libertação da Palestina, a organização radical que matou três pessoas e fez mais de 60 reféns na cimeira da OPEP em 1975, sob a liderança de Carlos, o Chacal, o mercenário terrorista.
A Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental aliada da União Soviética, apoiou os ataques terroristas da Fracção do Exército Vermelho na Alemanha Ocidental. E Putin serviu como agente de ligação do KGB junto da Stasi durante a sua estada na Alemanha Oriental, na década de 1980. As campanhas de violência orquestradas por todas estas organizações-satélite revelaram-se altamente desestabilizadoras para as democracias europeias ao longo das últimas três décadas da Guerra Fria.
Nessa época, muitas das organizações apoiadas pelo Kremlin tinham uma orientação de esquerda. Porém, a Rússia de Putin é menos condicionada pela ideologia, o que pode torná-la um parceiro mais flexível. Há claramente organizações que estão fora dos limites aceitáveis para a Rússia, como o braço afegão do Estado Islâmico, que matou 149 pessoas num ataque a uma sala de concertos moscovita em 2024. No entanto, o Kremlin mantém uma estreita aliança com o Irão, reconheceu oficialmente o regime talibã e mantém boas relações diplomáticas com o Hamas. Em 2020, os serviços de informações dos EUA concluíram que a Rússia tinha oferecido recompensas aos insurgentes talibãs para que assassinassem soldados dos EUA e das forças aliadas que combatiam na região.
Todos estes contactos podem ser facilmente aproveitados pela Rússia, de modo a encontrar parceiros disponíveis para atacar alvos europeus, quem sabe se com o FSB (Serviço Federal de Segurança da Federação Russa) a providenciar os mais sofisticados documentos falsos e identidades falsas aos executantes.
Os potenciais terroristas nem sequer precisam de violar as fronteiras da UE — basta um ataque sangrento contra turistas europeus num destino de férias vulnerável no estrangeiro para causar o efeito pretendido. Aos russos, não interessaria dar a conhecer a sua participação (tal como não o fizeram durante a Guerra Fria). Em contrapartida, tratariam de exponenciar os efeitos dos ataques através do seu vasto aparelho de desinformação, por exemplo, acicatando o medo em relação aos migrantes e apontando o dedo à incompetência dos governos atuais.
Além de incutir o medo entre os eleitores europeus, um ataque deste tipo poderia também aumentar a popularidade dos partidos contra o sistema, nomeadamente a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Rassemblement National (RN) francês, de Marine Le Pen. O recente ataque à Marcha do Orgulho de Berlim, que resultou na morte de uma pessoa e em 29 feridos, parece ter contribuído para reforçar a posição da AfD — já antes em ascensão — nas sondagens, a poucas semanas das eleições regionais na Saxónia-Anhalt, um momento decisivo que pode levar o partido de extrema-direita a assumir o poder pela primeira vez [o que se confirmou: a AfD venceu as eleições a 6 de setembro, embora sem maioria absoluta].
Tanto a AfD como o RN contam com uma longa história de apoio russo; ambos são profundamente céticos em relação à ajuda à Ucrânia. Putin tem certamente todo o gosto em gerar um caos que contribua para que conquistem mais votos, sobretudo nesta fase, em que tem vindo a mostrar-se mais arrojado.
O recurso à migração como arma de arremesso também gera vantagens deste tipo. Em 2015-2016, a Rússia organizou uma campanha que canalizou milhares de migrantes para a Noruega e a Finlândia através do território russo. Em retrospetiva, esta iniciativa parece ter sido um ensaio geral para uma manobra que viria a ter lugar posteriormente, em 2021, quando a Bielorrússia, aliada de Moscovo — e provavelmente concertada com a Rússia —, abriu uma crise breve, mas intensa, na UE, ao enviar uma grande quantidade de migrantes sem documentos de identificação para atravessar as fronteiras com a Polónia e a Lituânia. Essas fronteiras, é certo, foram, entretanto, reforçadas, mas isso não é suficiente para baixar a guarda, como o demonstra a recente descoberta de túneis sob a fronteira entre a Bielorrússia e a UE.
Outro candidato promissor para executar operações deste tipo é a Líbia, onde a Rússia consolidou uma forte presença militar, empenhando-se em promover Khalifa Haftar, o pretendente a ditador. A Líbia integra também uma rota de trânsito importante para os migrantes que rumam à Europa. Caso decidisse pressionar a Europa por esta via, provavelmente não seria difícil para o Kremlin organizar uma grande crise migratória com refugiados embarcados.
Segundo os próprios europeus, as infraestruturas críticas europeias continuam vulneráveis em todo o continente. Em 2022, os ciberataques a refinarias de petróleo na Bélgica, nos Países Baixos e na Alemanha afetaram profundamente o setor energético europeu. Hoje, com a ajuda da inteligência artificial, não é difícil imaginar o que as ferramentas de pirataria informática poderiam fazer ao serviço de atacantes resolutos. A UE está atualmente a implementar um amplo programa para aumentar a cibersegurança, mas é legítimo questionar se os burocratas de Bruxelas conseguem acompanhar o ritmo das inovações tecnológicas.
Ainda não há muitos dias, a Ceva — uma das maiores empresas de logística e transporte da Europa — foi atacada por hackers, que conseguiram gerar atrasos nas entregas em todo o continente. Resta saber se foi mera coincidência o facto de o ataque ter ocorrido no momento em que a Ucrânia tem vindo a perpetrar ataques remotos contra armazéns logísticos geridos pela Wildberries, a empresa russa equivalente à Amazon.
Até agora, as tentativas russas de sabotagem material têm sido dificultadas pela dependência de Moscovo em relação a agentes independentes que são recrutados através da Internet. Se Putin quiser levar esta frente de combate mais a sério, seja recorrendo a sabotadores bem treinados ou a drones de controlo mais preciso, terá muitos alvos por onde escolher.
As infraestruturas europeias continuam a apresentar múltiplas vulnerabilidades, dos cabos submarinos e oleodutos essenciais aos terminais de gás natural liquefeito. A Polónia e os Estados Bálticos fizeram saber que estão a reforçar a segurança das centrais elétricas, das barragens e de outras infraestruturas de importância estratégica, referindo explicitamente a possibilidade de ataques sob «bandeira falsa» que a Rússia possa tentar imputar à Ucrânia.
O general mais graduado da Alemanha avisou que Moscovo tem recorrido aos drones para testar as defesas aéreas da NATO. Entrevistado para um artigo do Wall Street Journal, o seu testemunho surgiu poucos dias depois de o mesmo jornal ter noticiado que as agências de inteligência dos EUA temem que o Kremlin possa estar a preparar-se para encenar uma provocação com o objetivo de desestabilizar a aliança ocidental. Uma tal provocação poderia consistir, por exemplo, numa incursão militar russa num ponto territorial da NATO difícil de defender, como o arquipélago norueguês de Svalbard, no Oceano Ártico, onde Moscovo marca presença desde há quase um século. O objetivo seria acicatar as clivagens na aliança atlântica e semear dúvidas sobre a sua capacidade para assegurar a segurança de um membro alvo de ataque.
Contudo, um ataque no território da NATO implicaria riscos elevados. A aliança poderia reagir através da ativação do seu Artigo 5.º, referente à segurança coletiva, caso em que a Rússia se veria a braços com uma guerra com mais países além da Ucrânia.
O problema é que, até agora, a NATO não tem dado sinais de ser capaz de mobilizar uma ação retaliativa decidida. Trump tem as atenções voltadas para a desastrosa guerra que decidiu travar no Irão, e os próprios europeus continuam a não se entender quanto à melhor forma de ajudar a Ucrânia. À medida que as perspetivas de vitória no campo de batalha diminuem, é possível que Putin conclua que tem ainda menos a perder ao intensificar o seu plano C para a Europa.