A «Doutrina Donroe» não faz sentido
Se as razões estratégicas para as políticas da administração Trump relativamente à Venezuela lhe parecem confusas — em especial a recente captura do presidente Nicolás Maduro –, isso não é de admirar, até porque é impossível levar a sério a maioria das justificações que foram apresentadas até ao momento.
Em primeiro lugar, não se trata de proteger os Estados Unidos do «narcoterrorismo». Da Venezuela, não chegava uma quantidade significativa de drogas aos Estados Unidos (e, seguramente, não de fentanil). Além disso, o presidente dos EUA, Donald Trump, concedeu recentemente um indulto a Juan Orlando Hernández, o ex-presidente hondurenho que a justiça norte-americana condenara por tráfico de drogas, o que é bem revelador da importância que Trump atribui de facto ao problema do narcotráfico.
Por outro lado, o Departamento de Justiça dos EUA admitiu agora que o «Cártel de los Soles» – o temível cartel de drogas sobre o qual a administração Trump tanto falou no ano passado – nunca existiu. Por outras palavras, tratou-se de uma operação de propaganda totalmente fictícia, lançada pela administração, tão real quanto as armas de destruição maciça iraquianas sobre as quais nos alertaram reiteradamente, mas que nunca foram encontradas.
A captura de Maduro também não teve o objetivo de tornar os Estados Unidos mais seguros. A Venezuela é um país muito frágil – como, aliás, ficou demonstrado pela facilidade com que Maduro foi sequestrado – e não é um aliado estratégico próximo de nenhum rival poderoso dos EUA. Não havia nenhuma base militar chinesa em construção, nem mísseis enviados pelo Irão para atacar os Estados Unidos. O país não dispunha de uma marinha capaz de interferir nas rotas comerciais dos EUA. Ninguém passava as noites em claro devido à terrível ameaça que Caracas representava para os Estados Unidos, e ninguém dorme agora mais tranquilamente com Maduro detido em Brooklyn.
Também não esteve em causa a promoção da democracia, tendo em conta que Trump já descartou a possibilidade de colocar no poder a líder da oposição, María Corina Machado, antes pretendendo negociar com a vice de Maduro, sob a qual se mantém um regime inegavelmente autoritário.
Se a captura de Maduro não serve para impedir o tráfico de drogas perigosas, nem para combater uma grave ameaça à segurança norte-americana, nem para restaurar a democracia, então, terá certamente a sua origem no petróleo, certo? Trump afirma que é essa a verdadeira razão e que as empresas norte-americanas vão entrar na Venezuela, obter o seu petróleo e tornar os Estados Unidos mais poderosos. De novo, errado. Acredite Trump no que acreditar (e muitas vezes acredita), tão cedo não haverá nenhuma grande bonança petrolífera à espera do Tio Sam.
No dia 6 de janeiro, o presidente gabou-se de que a Venezuela tinha concordado em entregar até 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos, um feito aparentemente impressionante até percebermos que, no máximo, essa quantidade equivale a menos de quatro dias de produção de petróleo nos EUA. Trump declarou que iria controlar as receitas dessa venda, usando-as para fomentar a economia venezuelana – se o leitor acredita nisso, é porque não se tem mantido atento aos instintos predatórios do presidente. Além disso, mesmo que viessem de facto a ser disponibilizadas, essas receitas não cobririam sequer uma ínfima parte do que a Venezuela precisa para reconstruir a sua economia.
Sim, a Venezuela tem as maiores reservas petrolíferas conhecidas do mundo, mas o seu crude superpesado é difícil de extrair e caro de refinar. Na verdade, é um dos últimos tipos de petróleo que qualquer produtor sensato ambicionaria explorar, ainda por cima tendo em conta o estado precário das decadentes infraestruturas da Venezuela e o atual baixo preço do petróleo bruto. Se, por algum milagre, grande parte desse petróleo chegasse aos mercados mundiais, o preço cairia ainda mais e levaria à falência várias empresas de extração de petróleo de xisto nos EUA.
Além disso, é preciso lembrar que, independentemente das teorias de Trump e das grandes empresas petrolíferas, o mundo tem vindo a abandonar progressivamente os hidrocarbonetos e a recorrer a outras fontes de energia, o que diminui ainda mais o valor das reservas petrolíferas venezuelanas. De facto, perante as alterações climáticas, o mais inteligente seria deixar o máximo possível desse petróleo no solo.
Enquanto a China se esforça por dominar as indústrias verdes do futuro – assim conquistando influência mundial –, Trump e os seus conselheiros estratégicos geniais apostam em políticas energéticas perigosas para o planeta e dignas do século passado.
Resumindo, é compreensível que o leitor se sinta confuso quanto à lógica estratégica da operação norte-americana em Caracas. Na minha opinião, o único objetivo «estratégico» discernível talvez seja o de restabelecer a hegemonia dos EUA no hemisfério ocidental. Como Donald Trump gosta de colocar o seu nome em tudo o que faz, esta abordagem tem sido anunciada como o «Corolário de Trump à Doutrina Monroe», ou seja, a «Doutrina Donroe» («Trump Corollary to the Monroe Doctrine»), e foi claramente veiculada na recente Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy – NSS).
Mesmo que, à primeira vista, pareça tratar-se de uma abordagem sensata e capaz de agradar aos adeptos do realismo nas relações internacionais, também não resiste a uma análise mais profunda.
Quando foi criada, a Doutrina Monroe pretendia assegurar que os Estados Unidos não tivessem de se preocupar com a interferência militar de grandes potências rivais no hemisfério ocidental. Quase um século depois de ter sido anunciada, a visão do presidente James Monroe foi finalmente posta em prática, e os Estados Unidos conseguiram expulsar todas as outras grandes potências do hemisfério, tirando partido das vantagens daquilo que o historiador C. Vann Woodward apelidou de «segurança livre».
Não é, porém, disso que falam Trump & C.ia, visto que não há hoje, no hemisfério ocidental, nenhuma outra grande potência que tenha ou esteja a tentar criar uma força militar relevante.
Aquilo que a administração Trump verdadeiramente quer, conforme ficou claro na NSS, é forçar o maior número possível de países vizinhos a fazerem o que os EUA mandam em qualquer questão que possa surgir. É isso que a administração Trump diz agora aos sucessores de Maduro: ou nos dão o que queremos, ou vamos continuar com o bloqueio, e talvez tomemos medidas ainda piores. Os restantes países da região devem compreender a mensagem e obedecer.
Em especial, o governo norte-americano reivindica o direito a controlar as políticas económicas dos países vizinhos e a vetar aquelas que possam ser vantajosas para esses mesmos Estados e para países como a China. Como se lê na NSS, «queremos um hemisfério onde não haja incursões hostis ou aquisições de ativos essenciais por parte de países estrangeiros»; acresce que os estrangeiros não devem «possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais» e que aos Estados Unidos cabe fazer com que seja «mais difícil para a concorrência não hemisférica ganhar mais influência na região».
Uma vez que consideram que alguns países latino-americanos têm sido «tentados a fazer negócios» com outros países em troca de «custos baixos e menos obstáculos regulatórios», Trump e a sua entourage afirmam que «levarão os países a rejeitar essa ajuda». Contudo, tendo em conta a sua natureza predatória, a oposição a todas as ajudas externas concedidas pelos EUA e o facto de fazer questão de ser o grande beneficiário em todas as suas negociações bilaterais, a administração de Trump tem de recorrer a ameaças – e não à generosidade – para obter o que quer.
O problema, porém, é que, ao insistirem em interferir nas economias dos países vizinhos, os Estados Unidos tornam-se responsáveis pela situação económica desses países. Se exigirem que os Estados latino-americanos não comprem produtos chineses mais baratos do que os americanos (e, em alguns casos, como nos carros elétricos, substancialmente melhores), os consumidores locais não vão ficar contentes. Se exigirem a esses governos que rejeitem os investimentos chineses ou outros investimentos estrangeiros capazes de melhorar as infraestruturas nacionais ou de criar novas oportunidades, terá de ser Washington a fornecê-los, caso contrário a culpa da persistente pobreza latino-americana recairá sobre os EUA.
Se a tudo isto acrescentarmos a tendência da administração Trump para culpar os imigrantes e os refugiados pelos problemas dos Estados Unidos e o seu empenho em deportar o maior número possível de estrangeiros, temos a receita ideal não para uma hegemonia estável, mas sim para a instabilidade regional e um crescente antiamericanismo.
O contraste com as políticas dos EUA que ao longo da história foram mais bem-sucedidas é óbvio. Após a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os Estados Unidos estabeleceram parcerias de grande sucesso na Europa e na Ásia (incluindo com a Alemanha e o Japão, seus anteriores inimigos), em parte porque tinham em comum com esses Estados a ameaça da União Soviética, em parte também porque os Estados Unidos se empenharam com generosidade na ajuda aos seus novos parceiros, para que estes recuperassem o mais depressa possível da Segunda Guerra Mundial. Trump, porém, não conhece o significado da palavra «generosidade»; o seu lema de vida é «o que é meu é meu, o que é teu é negociável».
Tentar governar o hemisfério ocidental por força das armas não vai funcionar melhor no futuro do que funcionou no passado. Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto do presidente Trump, acredita que uma das «leis de ferro da história» é que quem governa o mundo é quem tem o poder; no entanto, esta sua «lei de ferro» omite uma importante lição da história: os líderes que acreditam que só o poder importa acabam, inevitavelmente, por fazer muitas coisas estúpidas.