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Imagem de uma manifestação contra o fascismo na Alemanha, que reuniu milhares de pessoas em fevereiro de 2025. Crédito: Shutterstock

Será que o consenso pós-guerra da Alemanha sobre Israel está em perigo?

Os partidos de esquerda na Alemanha tornaram-se simultaneamente mais convencionais e mais radicais face ao governo de Israel e à guerra em Gaza. Este texto, publicado em parceira com a «Foreign Policy», foi escolhido por Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE-IUL, que lembra que, «por razões históricas e trágicas, a Alemanha é um barómetro muito importante da perceção que se faz de Israel na Europa».
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Ao longo de várias décadas, a abordagem da Alemanha em relação a Israel assentou num consenso político inquestionável. Em todos os principais partidos, eram aceites as duas premissas sobre as quais assentava o novo acordo do pós-guerra com Israel: o direito deste país a existir era considerado inegociável, e a responsabilidade histórica da Alemanha pelo Holocausto obrigava-a a assumir obrigações acrescidas.

Agora, embora não se tenha desmoronado, essa ordem começou a perder imunidade. Desde os ataques de 7 de outubro de 2023 a Israel e do início da atual guerra em Gaza, o debate alemão passou da assertividade à qualificação e do apoio automático ao apoio condicional. A pressão mais visível provém da esquerda radical, mas o que está por trás disso é a progressiva normalização dessa pressão no interior do sistema político alemão.

Em 2008, a ex-chanceler Angela Merkel resumiu o velho consenso em torno de Israel numa formulação que se tornaria célebre, declarando que a segurança de Israel fazia parte da Staatsräson — literalmente, «razão de Estado» — da Alemanha. Esta formulação nunca constituiu uma doutrina jurídica, mas sim um pacto moral e político, em que se fundiam memória, identidade e arte de governar. O chanceler Friedrich Merz reafirmou essa lógica por outras palavras, apresentando-se como um dedicado amigo de Israel e insistindo em que a responsabilidade histórica da Alemanha ainda se mantém — e continuará a manter-se no futuro.

Em teoria, essa postura mantém-se. Na prática, porém, o consenso é hoje mais contestado do que em qualquer outro momento da memória recente.

O apoio da Alemanha a Israel já não é incondicional nem imune às tendências da opinião pública.

Depois do ataque de 7 de outubro, Berlim continuou a fornecer armas a Israel e defendeu essa posição como parte de um compromisso mais amplo com a segurança israelita. Contudo, em agosto de 2025, Merz anunciou a suspensão das autorizações de exportação para Israel de material militar que pudesse ser utilizado em Gaza. A decisão não implicou um embargo total. Tão-pouco sinalizou o fim da cooperação estratégica. Ainda assim, foi um sinal politicamente significativo. De súbito, uma opção política que durante tantos anos fora automática, ficou sujeita a negociações internas.

Em novembro, após o início de um cessar-fogo em Gaza, o governo acabou por reverter a suspensão, retomando a lógica da análise caso a caso. Oficialmente, a justificação foi de natureza processual. Porém, a sequência de acontecimentos importa mais do que a explicação. Quer a suspensão quer a reversão sugerem que o apoio da Alemanha a Israel já não é incondicional nem imune às tendências da opinião pública.

Para esta mudança, contribuíram as preocupações humanitárias, mas também a dinâmica da coligação governativa. Há, no entanto, uma outra razão que subjaz a estes fatores: a profunda alteração que se tem feito sentir no clima político. O consenso pós-guerra da Alemanha sobre Israel alicerçava-se em fortes sanções informais: quaisquer políticos que ultrapassassem certos limites retóricos sofriam penalizações reputacionais significativas, eram alvo de resistência institucional e sujeitos a isolamento político. Este mecanismo, entretanto, enfraqueceu. Criticar Israel já não acarreta as mesmas penalizações.

As sondagens recentes indicam que as opiniões favoráveis a Israel entre os alemães diminuíram drasticamente desde 2021 e que as negativas aumentaram.

A opinião pública ajuda a explicar porquê. As sondagens recentes indicam que as opiniões favoráveis a Israel entre os alemães diminuíram drasticamente desde 2021, ao passo que as opiniões negativas aumentaram. Ainda mais impressionante é o colapso do pressuposto segundo o qual a Alemanha ainda teria profundas responsabilidades para com Israel. Hoje, só uma percentagem relativamente diminuta de alemães considera que a segurança de Israel deve ser tratada como Staatsräson. Paralelamente, uma percentagem elevada acredita que Israel cometeu genocídio em Gaza. Estas convicções não determinam diretamente a política, mas configuram os termos do debate político. Graças às mudanças na opinião pública, é agora mais fácil para os partidos adotar um discurso mais duro, uma retórica mais cética e posições condicionais. Num sistema parlamentar, isso tem peso.

Nenhum outro partido explorou melhor este clima político do que o Die Linke (partido de esquerda). O Die Linke vive há muito sob a suspeita de tolerar o antissemitismo, de ser ambivalente em relação a Israel e de tendencialmente esbater a linha entre o antissionismo e a hostilidade para com os judeus. Após o 7 de outubro, essas suspeitas confirmaram-se. Numa resolução aprovada no recente congresso na Baixa Saxónia, o partido rejeitou «o sionismo atualmente existente» e acusou Israel de praticar o genocídio e o apartheid, referindo-se apenas de forma oblíqua ao Hamas e omitindo qualquer menção direta aos ataques de 7 de outubro.

O Die Linke beneficiou igualmente de uma cultura política de esquerda mais ampla, em que Gaza se tornou uma questão moral determinante.

Como era de esperar, houve fortes reações, incluindo a demissão por parte de um dos comissários do partido para o antissemitismo, Andreas Büttner. O incidente mostrou que o problema não residia apenas na crítica externa, mas também na contradição interna. O partido pretendia preservar a sua credibilidade como força antirracista ao mesmo tempo que tolerava uma linguagem que muitos alemães consideram antissemita ou, pelo menos, politicamente tóxica.

Esta contradição não é um mero acaso, antes reflete a posição estratégica do partido. O Die Linke tornou-se mais atrativo para os eleitores jovens, em especial os que se sentem insatisfeitos com o que consideram ser a prudência ou a ambiguidade moral do Partido Social-Democrata, dos Verdes e da União Democrata-Cristã/União Social-Cristã.

Beneficiou igualmente de uma cultura política de esquerda mais ampla, em que Gaza se tornou uma questão moral determinante. Nesse contexto, a liderança do partido tentou disciplinar o seu discurso sem abdicar da vivacidade que lhe confere impulso eleitoral. Antes do seu congresso de junho, a direção federal do partido, em resposta ao incidente da Baixa Saxónia, sublinhou que o antissemitismo não tem lugar no partido. A linguagem de contenção, porém, só tem efeitos práticos se as bases aceitarem essa premissa.

Há indícios, pelo contrário, que sugerem que as bases avançam mais depressa do que os líderes. Num congresso realizado em Berlim no final de 2024, as tentativas de condenar o Hamas e reconhecer o antissemitismo de esquerda foram diluídas por moções e disputas internas entre fações.

No congresso federal de Chemnitz, em maio de 2025, o partido votou a favor da adoção da Declaração de Jerusalém sobre o Antissemitismo, em detrimento do conceito definido pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, que é utilizado pelo governo alemão e pela maioria das principais instituições — uma escolha que traduz a preferência política por critérios mais estreitos, que deixam maior margem de manobra para tecer críticas severas a Israel.

Os militantes do Die Linke duplicaram no último ano, com um aumento de eleitores mais jovens e de pessoas de origem migrante profundamente empenhadas na política pró-palestiniana.

Houve inclusivamente figuras do partido, como o vice-presidente do Bundestag, Bodo Ramelow, que vieram a público reconhecer que os slogans pró-palestinianos exercem atualmente uma forte influência no Die Linke. Trata-se de um dado importante não porque o Die Linke esteja prestes a governar a Alemanha, mas porque se gerou um sistema de pressão capaz de abrir de par em par a «janela de Overton»[1] sobre Israel, sem nenhuma penalização política imediata.

O recente ressurgimento do partido torna essa pressão ainda mais difícil de ignorar. Depois de dar sinais de morte eleitoral nas eleições de 2024, o partido recuperou força. As sondagens atribuem-lhe agora cerca de 11% dos votos, ligeiramente acima do seu resultado nas eleições federais de 2025. O número de militantes duplicou ao longo do último ano, ascendendo a cerca de 123 000, com um aumento de eleitores mais jovens e de pessoas de origem migrante profundamente empenhadas na política pró-palestiniana.

Os partidos são, entre outras coisas, instituições que assimilam os novos movimentos ou formações sociais e, à medida que o Die Linke se reconfigura internamente, a sua posição em relação a Israel tende a endurecer, não a suavizar-se.

A AfD, partido de extrema-direita, conseguiu reinventar-se — sobretudo perante a opinião pública internacional — como defensor de Israel e garante da vida judaica na Alemanha.

A grande questão é saber o que tudo isto significa para o statu quo da Alemanha.

A resposta começa, em parte, com a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema-direita que conseguiu reinventar-se — sobretudo perante a opinião pública internacional — como defensor de Israel e garante da vida judaica na Alemanha. No entanto, este posicionamento contrasta com algumas componentes do discurso e do quadro de militantes do partido, devendo ser lido não como uma mudança ideológica, mas sim como uma manobra estratégica. Ao enquadrar o apoio a Israel no combate mais geral ao Islão, a AfD gera uma dicotomia que lhe permite reivindicar legitimidade moral, atacar rivais políticos e desviar as atenções das controvérsias em torno do extremismo que grassa nas suas próprias fileiras. O Conselho Central dos Judeus na Alemanha considera, ainda assim, que o partido é uma ameaça e uma organização antissemita.

Paralelamente, tanto o Partido Social-Democrata como os Verdes estão sob enorme pressão eleitoral, o que provavelmente não resultará em alterações políticas imediatas, mas sim numa progressiva mutação retórica. Este tipo de dinâmica reflete um padrão habitual em sistemas parlamentares fragmentados. À medida que a concorrência eleitoral se intensifica e os blocos de eleitores se tornam mais voláteis, os partidos centristas procuram ir ao seu encontro, não alterando de imediato as suas políticas, mas sim ajustando o seu discurso, de modo a preservar a flexibilidade da sua composição. As posições e atitudes políticas que emergem das margens não são integralmente adotadas, mas podem ir sendo assimiladas, com vista a não perder eleitores e a manter a viabilidade governativa.

Berlim não se tornará subitamente hostil a Israel, mas pode tornar-se menos previsível, mais condicional e mais exposta às oscilações da política interna.

Isto é tanto mais significativo quanto a coligação governamental alemã não goza de uma posição dominante. Com uma escassa maioria no Bundestag, tem pouca margem de manobra política, sobretudo em questões que possam pôr à prova a disciplina da coligação. Neste ambiente, por mais pequenas que sejam, as alterações no discurso dos partidos da oposição podem ter efeitos desproporcionados. Elas influenciam a forma como os ministros justificam as suas decisões, como os deputados se expressam relativamente às medidas políticas adotadas e a rapidez com que podem ser abandonadas posições rígidas em momentos de crise. Berlim não se tornará subitamente hostil a Israel, mas pode tornar-se menos previsível, mais condicional e mais exposta às oscilações da política interna.

Esta incerteza tem consequências que vão além da Alemanha. Para Israel, significa que um dos seus parceiros europeus mais importantes é hoje menos fiável enquanto protetor incondicional. Para a Europa, significa que o país que desde o pós-guerra foi a âncora moral da política pró-israelita atravessa agora um período de maior ambiguidade. Para a própria Alemanha, leva a questionar a consistência e a durabilidade da identidade que o país consolidou nas últimas décadas.

A linguagem da Staatsräson ainda existe. O peso moral da história continua a ser invocado. Mas o significado prático de ambas estas vertentes tornou-se mais condicional, mais contestado e mais exposto ao calculismo político interno. Isso não significa que a rutura seja inelutável. Significa, isso sim, que a velha certeza provavelmente desapareceu.

[1] A janela de Overton descreve o espectro de ideias que são consideradas politicamente aceitáveis pela maioria da população num determinado momento histórico. As ideias que se enquadram nessa janela podem ser defendidas pelos políticos sem que pareçam extremas; as ideias fora dessa janela são consideradas radicais, impensáveis ou socialmente inaceitáveis.

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