
Automação e inteligência artificial no mercado de trabalho português: desafios e oportunidades
A maior fatia do emprego em Portugal (35,7%) é composta por profissões que não poderão ser substituídas pela automação, mas também não irão beneficiar da digitalização. Esta é uma das principais mensagens do novo policy paper da Fundação, que analisa o impacto da revolução tecnológica no mercado de trabalho em Portugal.
Trabalhadores de limpeza em casas particulares, escritórios e hotéis, técnicos de atividade física e agricultores qualificados integram a lista destas profissões - as chamadas profissões do «terreno dos humanos» -, que não correm o risco de substituição.
Os autores do policy paper alertam, contudo, que 28,9% da força de trabalho do país (na qual se incluem empregados de mesa e de bar, operadores de equipamentos móveis e cozinheiros) está concentrada no terreno das «profissões em colapso», cujos empregos estão seriamente ameaçados pela automação e pela IA, correndo sérios riscos de extinção.
Já os professores de ensino básico e educadores de infância, especialistas em vendas, marketing, finanças e contabilidade são exemplos de «profissões em ascensão» que serão as mais beneficiadas pela digitalização. Correspondem a 22,5% do mercado de trabalho e têm potencial para usufruir de ganhos de produtividade relacionados com a IA, ao mesmo tempo que estão salvaguardadas dos efeitos destrutivos da automação.
De forma menos expressiva, há uma parte dos trabalhadores (12,9%), empregados no «terreno das máquinas», cujo futuro é mais difícil de antecipar. Empregados de escritório, operadores de máquina do fabrico de produtos alimentares, empregados de serviços de apoio à produção e transportes tanto podem usufruir como sucumbir à mudança tecnológica.
A análise revela também que as oportunidades e os riscos da digitalização do mercado trabalho variam a nível nacional e que é fundamental desenvolver políticas públicas, que respondam às especificidades dessas economias locais.
Lisboa, Coimbra, Porto e Vila Real são os distritos que mais podem beneficiar da automação e da IA, uma vez que são os distritos com maior percentagem de trabalhadores em «profissões em ascensão». Já Viana do Castelo, Braga, Aveiro e Viseu têm mais de 40% do emprego exposto aos efeitos destrutivos da mudança tecnológica.
O estudo coloca em evidência a necessidade de formação e desenvolvimento de competências, no sentido de preparar a força de trabalho para as exigências de uma economia digitalizada, destacando a importância de rever os currículos académicos de modo a dar maior relevo à literacia digital, à IA e ao uso de tecnologias de automação.
A requalificação será necessária também para as profissões que não estão em risco de automação, sublinham os autores, lembrando a necessidade de garantia de empregabilidade a longo prazo. Por isso, enfatizam a crescente importância para o futuro de competências como a comunicação, a criatividade ou a resolução de problemas.