Que desafios enfrentam os adolescentes na era digital?
Um estudo do Observatório da Saúde Psicológica e do Bem‑estar da DGEEC, feito junto de cerca de 5000 adolescentes entre os dez e os 18 anos (do 5.º ao 12.º ano) revela que 97% passam pelo menos uma hora por dia à frente de um ecrã e 52% passam quatro horas ou mais.
Durante a semana, a média diária é de quatro horas. Esse tempo aumenta com a idade: no 5.º ano (10 anos), a média é de 2,9 horas, subindo para 4,9 horas no 12.º ano. Não há diferenças entre géneros no número de horas, embora se registem diferenças no tipo de utilização (rapazes — jogos; raparigas — redes sociais).
Ao fim de semana, 99% dos adolescentes passam pelo menos uma hora por dia à frente de um ecrã e 63% passam quatro horas ou mais. A média é de 5,6 horas. (...)
As tecnologias de informação e comunicação trouxeram um desafio único e sem precedentes para o desenvolvimento dos adolescentes. Esta geração de jovens nascidos após 2010 são nativos digitais. Também os seus pais dominam bem o digital, mas os avós, em geral, têm pouca literacia nesta área.
Recentemente, a série «Adolescência», da Netflix, uma belíssima obra de arte cinematográfica que certamente nunca pretendeu servir como formação nesta área, teve o enorme mérito de trazer para a esfera pública o lado obscuro do digital e das redes sociais, mostrando o desconhecimento dos pais sobre as relações interpessoais dos filhos na escola e as angústias destes adolescentes.
Muitas vezes, são apresentados casos extremos, de jovens em trajetórias desviantes, cujos pais são já modelos perfeitos de negligência e de comportamentos anómalos, ou até abusadores. A série dá‑nos a ver, sem qualquer moralismo, a dor de um casal como tantos outros, com dois filhos, em que os problemas simplesmente acontecem.
Mas é útil lembrar que nós, pais, não podemos prever tudo e saber tudo, e não devemos estar sempre a intrometer‑nos na vida dos nossos filhos sem lhes dar espaço para a autonomia. Ainda assim, devemos estar disponíveis para ouvir, curiosos sobre a evolução do mundo em que vivemos e prontos para apoiar os filhos que amamos (o que é diferente de concordar), na sua trajetória de desenvolvimento e de confronto com os desafios que a vida lhes traz.
Podemos tecer considerações sobre pais ausentes ou negligentes, mas, na verdade, o casal que nos é apresentado na série da Netflix é igual a tantos outros. A mensagem aqui é que é fácil fazer julgamentos a posteriori sobre o que acontece, mas, do ponto de vista preventivo, é pouco útil.
Propõe‑se uma cultura de responsabilização, autonomia e participação, em que o interesse dos pais pela vida dos filhos se traduza num diálogo iniciado muito cedo e que permita o estabelecimento de uma «cultura lá de casa» com poucas regras, mas que devem ser partilhadas e cumpridas sob pena de consequências. Dessa forma, os telemóveis e as redes sociais e outros recursos digitais passam a estar integrados nas rotinas da família, tal como a alimentação, o estudo, o sono, a ajuda nas tarefas de casa e a higiene.
Pais negligentes ou permissivos, ou pelo contrário autoritários e intransigentes, não promovem nem incentivam um estilo de gestão da «vida lá em casa» que equilibre afeto e regras. Em ambos os casos, os filhos isolam‑se e fecham‑se ao diálogo.
Jovens sem esta cultura familiar estão mais vulneráveis a «tentações», sejam presenciais ou online, vindas de colegas ou de desconhecidos, que muitas vezes os aliciam para situações nada desejadas e contra às quais não se conseguem defender, quando já sucumbiram à tentação de não «desligar», «bloquear» ou «denunciar».
No ciberbullying, que apareceu com a aplicação das dinâmicas do bullying à esfera digital, os comportamentos de agressão, ameaça ou humilhação, com o intuito de fazer mal e causar medo, vergonha ou desconforto, ocorrem num registo online em vez de presencial. Mas o princípio é o mesmo e, aliás, estudos apontam para uma elevada correlação entre ambos. Tal como o bullying, muitas vezes o ciberbullying começa (e acaba) na escola e envolve colegas. A idade mais vulnerável parece ser os 13 anos, justamente a idade do jovem da série que referimos. As vítimas são, frequentemente, raparigas, e os agressores, rapazes, embora estes também possam ser vítimas agressivas.
Sabe‑se que, em geral, os colegas não ajudam a vítima e, quando interpelados sobre isso, alegam que não sabem como intervir sem sofrer represálias. Tal como no bullying, as vítimas de ciberbullying tendem a faltar mais à escola, a ter um rendimento escolar inferior, a abandonar os estudos mais cedo e a apresentar mais sintomas de mal–estar físico e psicológico, incluindo ideação suicida e uma maior vulnerabilidade à adesão a grupos extremistas organizados, com objetivos tóxicos e potencialmente letais.
Curiosamente, o bullying, tal como o ciberbullying, tem vindo gradualmente a diminuir, de acordo com as edições de 2014, 2018 e 2022 do estudo HBSC (Health Behaviour in School aged–Children), tanto no que diz respeito à percentagem de vítimas como de agressores. Estes dados, aparentemente animadores, são provavelmente passíveis de uma segunda leitura.
Por um lado, é possível que este tipo de «provocação» tenha sido substituído por outras formas de violência que já não se enquadram na definição clássica de bullying/ciberbullying. Por exemplo, a violência e o controlo no namoro, a violência física, a violência entre grupos/gangues, as lutas.
Por outro lado, o fenómeno pode ter‑se banalizado de tal forma que já não é identificado como tal. Há ainda a hipótese de que esta forma de violência tenda a concentrar‑se em determinados grupos, tornando a situação alarmante, mas circunscrita a determinados territórios/ecossistemas escolares.
Diálogos intergeracionais: desafios de antes e de agora em ação?
Cabe às famílias, às escolas e aos municípios a criação de ambientes seguros e onde os adolescentes se sintam à vontade para procurar um adulto de referência a quem pedir apoio. E, claro, cabe às políticas públicas garantir que essas figuras de referência são idóneas para essa missão.
No modelo de mudança que propomos, urge promover as competências de literacia digital de pais e educadores.
Quanto aos jovens, seria útil transformar as competências que já possuem em pistas concretas para agirem e proteger‑se em caso de perigo, mantendo uma motivação clara para tal e evitando expor‑se desnecessariamente.
Uma cultura de alguma dependência em relação ao digital e às redes sociais leva‑nos a desejar a criação de um espaço regular de atividades e de convívio interpessoal offline que permita uma ocupação do tempo livre e de lazer de modo mais seguro e equilibrado.
Tal como noutros desafios, defendemos uma participação ativa dos jovens na definição do problema, bem como na proposta e implementação de estratégias para o resolver. Defendemos ainda a criação de alternativas que apoiem os jovens num movimento de detox em relação a esta simbiose com o digital, para que «tudo o resto» não se perca na tradução.