O populismo e a «guerra civil universal»

Artigo de Luís Amado, membro do Conselho de Administração da FFMS e ex-Ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros.

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«A vitória de Trump é o mais retumbante exemplo dessa eficácia e de como o mais perigoso sintoma da decadência ocidental - o «medo do outro» - se vai infiltrando nas nossas sociedades, erguendo muros e novas fronteiras.»

O populismo que grassa, quer nos Estados Unidos quer na Europa, é o activismo das massas que se animam na rejeição do activismo das elites e das minorias que dominou a agenda política da última década no chamado mundo ocidental. O pêndulo está de volta e vai levar algum tempo a encontrar um novo equilíbrio.

Num caso e noutro, o sucesso do activismo político nas suas diferentes variações exprime a dificuldade da política e dos seus mecanismos institucionais e representativos perante uma fórmula concorrente que tem sabido explorar com surpreendente eficácia e criatividade os novos instrumentos de comunicação política e as transformações sociais e económicas resultantes da globalização e da sua crise.

A vitória de Trump é o mais retumbante exemplo dessa eficácia e de como o mais perigoso sintoma da decadência ocidental - o «medo do outro» - se vai infiltrando nas nossas sociedades, erguendo muros e novas fronteiras, fazendo-nos esquecer que o longo caminho de civilização a que o Ocidente faz jus se foi abrindo na procura e na descoberta do «outro».

É certo que que esse caminho não foi pacifico. A violência da conquista, a escravatura, o domínio colonial e as ambições imperiais, deixaram pelo mundo um rasto de injustiça e de sofrimento, que ficou gravado na memória dos povos subjugados.

Mas na Europa primeiro e na América depois, o progresso científico e tecnológico, a escola púbica e a dura aprendizagem da tolerância religiosa foram, pouco a pouco, dando origem a uma concepção de vida que acabou por reconhecer, em cada homem, a existência de uma esfera própria de valores e de direitos inalienáveis.

Esta concepção foi ganhando um estatuto universal, constituindo hoje o principal legado da civilização ocidental. Por isso, sem ignorar a sensibilidade política da situação das sociedades abertas sob invulgar pressão migratória, pôr em causa o direito à protecção de homens, mulheres e crianças que fogem de uma guerra é rejeitar esse legado e a própria ideia ocidental.

Foi isso que a Senhora Merkel entendeu.

É isso que Donald Trump não entende e, provavelmente, nunca entenderá.

Se a decadência relativa do Ocidente é um processo irreversível, o espectáculo ao vivo a que assistimos, de demolição pedra a pedra do sistema ocidental pelo próprio presidente americano, é deplorável e perigoso se continuar por muito mais tempo.

Há pelo menos dois anos que o Papa Francisco vem falando naquilo a que chama «a terceira guerra mundial aos bocadinhos» que se desenrolaria perante o nossos olhar desatento. Recentemente, Gorbachev, num artigo publicado pela revista Time, dizia que «parece que o mundo se está a preparar para a guerra».

O que dizer, na verdade, perante o eventual colapso do principal pilar em que assentou a ordem mundial das últimas décadas? As mudanças no sistema de poder mundial não foram sempre o resultado de uma ou várias guerras? E não será impensável uma guerra entre potências cuja doutrina militar continua a ter, como conceito fundamental, a dissuasão nuclear?

Não estaremos já todos condenados a viver por entre os escombros de uma longa «guerra civil universal», de que o populismo é sintoma mais do que causa, e em que se joga não o destino desta ou daquela nação, desta ou daquela identidade, mas o destino da própria humanidade?

Luís Amado é membro do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Foi Ministro da Defesa no XVII Governo Constitucional e dos Negócios Estrangeiros no XVII e no XVIII Governo.

 

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