Como sobreviver num mundo sem regras
Há não muito tempo, parecia que o mundo estava a tornar-se mais civilizado. Com o fim da Guerra Fria, deveria vingar uma ordem internacional baseada em regras. As normas esclarecidas e a cooperação, ancoradas numa superpotência de amplos horizontes, poriam fim à anarquia de outrora. Era uma visão inspiradora — porém, uma ilusão.
Hoje, em todo o mundo, assiste-se ao retrocesso das regras. A agressão e a conquista encontram-se numa fase de forte expansão; proliferam a coerção económica e as práticas predatórias. O respeito pelo direito internacional e pelas organizações internacionais está em queda livre; há cada vez menos controlo de armamento.
As grandes potências têm vindo a recuperar as ambições imperiais; os Estados Unidos sentem-se tentados a procurar um engrandecimento estritamente nacional à custa da ordem mundial. E, à medida que as normas globais vão perdendo vigor, os líderes autoritários vão fazendo tábua rasa dos mecanismos que lhes limitam o poder e das próprias instituições nacionais.
O nosso mundo corre o risco de se tornar um paraíso de gângsteres, onde as regras importam muito menos e a força bruta, muito mais.
Trata-se de uma mudança dura para quem cresceu e viveu numa época mais benigna. E vai ser uma prova exigente para os líderes de todo o mundo, que terão de atravessar uma era implacável.
De pouco adianta, nesta fase, lamentar a queda da ordem pós-Guerra Fria. É preciso compreender quais são os requisitos para sobreviver neste novo mundo pós-regras. Por conseguinte, o objetivo deste ensaio é traçar um mapa da nova era em que nos encontramos e propor algumas orientações para tirar o melhor partido possível dos tempos difíceis que se avizinham.
O sonho de uma ordem mundial baseada em regras tem vindo a esvanecer-se, mas houve um tempo em que parecia ser o futuro. Depois da Segunda Guerra Mundial, Washington e os seus aliados ocidentais desenvolveram, na metade livre do mundo, uma ordem baseada em regras — um conjunto de relações profundamente cooperativas, alicerçadas em normas comuns e em instituições supranacionais —, como forma de conter o Kremlin. Quando o bloco soviético entrou em colapso e a Guerra Fria terminou, surgiu a oportunidade de alargar esse projeto a nível global.
No centro da ordem internacional baseada em regras estava a ideia de que os velhos impulsos destrutivos poderiam ser superados através da adoção de práticas e de princípios liberais, bem como através de um exercício coerente de poder pelos EUA.
A prevalência de uma economia próspera e aberta beneficiaria todos os participantes; os litígios comerciais seriam resolvidos através dos procedimentos da Organização Mundial do Comércio (OMC), e não por meio de guerras aduaneiras que prejudicam todos os países envolvidos.
Os hábitos de conquista e domínio seriam desencorajados; as principais normas, como a liberdade de navegação e o respeito pelas fronteiras, seriam reforçadas. Libertos da paralisia da Guerra Fria, as organizações internacionais e o direito internacional tornar-se-iam mais influentes. A própria rivalidade entre as grandes potências esmoreceria à medida que as eventuais revisionistas — uma China em ascensão, uma Rússia reerguida — se tornassem parceiros satisfeitos num sistema com garantias de paz e prosperidade.
A adoção desta perspetiva pretendia contribuir para conter as forças destrutivas que tinham reiteradamente dilacerado o mundo no século xx. Não era uma visão tão utópica como possa parecer em retrospetiva: a ordem baseada em regras assentava no poder dos EUA, tal como a polícia fazia cumprir a lei.
A Marinha dos EUA efetivamente combateu a pirataria e outras ameaças à liberdade de navegação marítima; o Pentágono sustentou várias alianças capazes de dissuadir agressões; Washington estabeleceu coligações que combateram o terrorismo, a proliferação de armas de destruição maciça por parte de Estados párias e outros flagelos. A ordem baseada em regras foi criada na América: Washington, mais do que qualquer outro interveniente, definiu os termos da estabilidade internacional. Os conceitos norteadores dos EUA — mercado livre, democracia, direitos humanos — ganharam terreno em todo o mundo.
Em 2007, quando afirmou que a ordem baseada em regras servia de fachada à hegemonia dos EUA, o presidente russo, Vladimir Putin, tinha alguma razão. E isso explica, em parte — mas só em parte — que essa ordem se tenha desfeito.
As regras nunca são isentas de valores. Para os regimes autocráticos que pretendiam pôr cobro às tendências liberais nos seus países e ao mesmo tempo construir novos impérios no estrangeiro, as regras de Washington eram consideradas opressivas, senão mesmo uma ameaça existencial.
Mal recuperou capacidade suficiente, a Rússia de Putin começou a alterar à força as fronteiras do espaço pós-soviético. A China mergulhou a fundo na economia global e, aproveitando a capacidade de financiamento gerada por um crescimento económico explosivo, encetou um reforço militar sem precedentes, bem como uma forte campanha para dominar as indústrias do futuro e uma tentativa de controlar o Mar do Sul da China.
As regras de Washington prevaleceram num contexto unipolar, mas começaram a ceder à medida que o equilíbrio de poder se alterava. E os próprios Estados Unidos foram perdendo o entusiasmo pelo seu projeto global.
É certo que os Estados Unidos sempre foram seletivos em relação ao cumprimento das regras, tendo, por exemplo, travado guerras no Kosovo e no Iraque sem a bênção das Nações Unidas. A certa altura, porém, houve algo mais profundo que mudou.
Depois das desgastantes guerras no Médio Oriente e de uma crise financeira mundial, os norte-americanos cansaram-se de fazer de polícia do mundo: em 2013-2014, o presidente dos EUA, Barack Obama, recusou-se a fazer respeitar a linha vermelha que ele próprio traçara face aos ataques com armas químicas do ditador sírio Bashar al-Assad contra a própria população e pouco se opôs à primeira invasão da Ucrânia pela Rússia.
Ao cansaço seguiu-se a frustração: a persistente tendência dos aliados para viverem à boleia dos EUA levou os políticos dos dois grandes partidos (Republicano e Democrata) a defenderem que os Estados Unidos estavam a assumir demasiada responsabilidade pela ordem mundial e a obter escassos benefícios.
Talvez o fenómeno que mais prejudicou a ordem baseada em regras tenha sido o facto de a ascensão meteórica da China ter criado a sensação de que o sistema funcionava contra os interesses dos EUA — de que a economia mundial aberta tinha dizimado a indústria transformadora norte-americana e enriquecido um rival implacável.
A ordem baseada em regras tornou-se um fardo, ou talvez um mau negócio, para o seu principal defensor. Agora, vivemos uma nova etapa, assistindo ao desmoronamento dessa ordem.
Estamos já bem longe de uma economia baseada em regras: as rivalidades comerciais e estratégicas têm vindo a destruir esse sistema. A OMC está moribunda há vários anos, e os países resolvem as disputas comerciais pelas próprias mãos. O protecionismo prolifera, e os governos tentam controlar os setores-chave ou protegê-los da concorrência estrangeira: antes da ofensiva do presidente dos EUA, Donald Trump, em 2025, os direitos aduaneiros e outras medidas que distorcem o comércio internacional já estavam a aumentar.
Na competição entre si, os Estados Unidos e a China recorrem ao controlo de cadeias de abastecimento essenciais como instrumentos de coerção económica e de competição geopolítica. A economia global tornou-se um campo de batalha em que os países disputam o poder e põem de lado regras outrora respeitadas. Num mundo com barreiras cada vez mais altas, os países em desenvolvimento que sob o antigo sistema tiraram enorme partido dos fluxos comerciais e de investimento — ainda que se ressentissem, muitas vezes amargamente, das suas iniquidades — enfrentam hoje perspetivas de crescimento mais difíceis.
Do mesmo modo, o panorama da segurança internacional está cada vez mais desordenado. A paz do pós-Guerra Fria chegou ao fim: os níveis de conflito armado envolvendo Estados atingiram os valores mais elevados das últimas décadas. Os sistemas de controlo de armamento — sejam os acordos nucleares entre os EUA e a Rússia, sejam as convenções internacionais contra a utilização de minas terrestres — estão a desmoronar-se.
As conquistas territoriais vão-se tornando mais comuns, à medida que vários países, da China ao Ruanda, avançam sobre territórios vizinhos. O esforço da Rússia para aniquilar a Ucrânia é apenas o exemplo mais flagrante desta tendência preocupante. E, enquanto a violência entre Estados aumenta, o respeito pelo direito internacional e pelas organizações internacionais desce a pique. A ideia de que o Conselho de Segurança da ONU seja árbitro do que quer que seja parece hoje ingénua.
O respeito pelas fronteiras não é a única norma que está em risco. Longe vão os dias em que os líderes apregoavam a «responsabilidade de proteger» os povos vitimados pelos seus próprios governantes. A impunidade prevalece, ao passo que as atrocidades contra civis aumentam e as autocracias poderosas pagam um preço irrisório pelos seus crimes.
A China, por exemplo, tem levado a cabo uma repressão em massa contra os uigures, tendo sido alvo de um escrutínio muito moderado por parte das organizações internacionais e dos parceiros comerciais. A repressão transnacional está em ascensão, com os ditadores a perseguirem os seus opositores por todo o mundo.
Paralelamente, a norma que sustenta o comércio mundial — a liberdade de navegação — encontra-se sob violentos ataques. A ofensiva chinesa no Mar do Sul da China, a campanha dos houthis contra a navegação no Mar Vermelho, as reivindicações de soberania da Rússia sobre a Rota Marítima do Norte e o garrote imposto pelo Irão no Estreito de Ormuz são sintomas da atual tendência de apropriação dos mares por parte de atores predatórios.
Não se trata de uma anarquia total — é possível que a ordem baseada em regras esteja a dar lugar a uma era neoimperial.
Durante anos, os decisores políticos dos EUA defenderam que as esferas de influência eram um anacronismo inadmissível. No entanto, a China tem vindo a desenvolver uma esfera de influência tradicional nas suas periferias territoriais e marítimas, num vasto arco que se estende dos Himalaias ao Mar da China Oriental; no domínio digital, tem igualmente desenvolvido uma esfera de influência que abrange grande parte do Sul Global.
A Rússia tem recorrido à corrupção estratégica e à agressão brutal para impor a sua autoridade em territórios da Ásia Central e da Europa Oriental. A Turquia e Israel repartiram, na prática, a Síria pós-Assad; Ancara ambiciona um renascimento otomano no Norte de África e no Médio Oriente. E, depois, há a reconstrução imperial de Washington: os Estados Unidos transformaram a Venezuela num Estado vassalo e reivindicaram o seu domínio sobre o Hemisfério Ocidental; exigem, ainda, tributo aos aliados em toda a periferia eurasiática.
O desmantelamento das instituições no plano interno abre caminho à violação das normas internacionais. Há duas décadas, um presidente dos EUA podia anunciar o triunfo iminente das instituições democráticas. Agora, muitos líderes democráticos, semidemocráticos e autocráticos — de Trump a Putin, do chinês Xi Jinping ao indiano Narendra Modi e ao turco Recep Tayyip Erdogan — estão empenhados em demolir quaisquer obstáculos ao pleno exercício da sua autoridade.
Para isso, constroem regimes personalistas assentes na força e no carisma de um líder dinâmico. Ao pôr fim ao limite de mandatos, Xi pôde avançar com uma estratégia de longo prazo para restaurar a grandeza nacional. Ao menosprezar os limites institucionais ao seu poder, Trump fica com as mãos livres para abrir guerras aduaneiras, fechar acordos económicos duvidosos e recorrer inesperadamente à força. A política interna e a política internacional evoluem em paralelo, e os Estados Unidos estão a desempenhar um papel catalisador neste mundo pós-regras.
Justiça seja feita, o historial de Trump não se resume à violação das regras. Durante o seu mandato, as forças armadas dos EUA enfrentaram atores hostis — os houthis e o Irão —, que têm vindo a combater a liberdade de navegação. Em junho de 2025, ao destruir as instalações nucleares do Irão, Trump deu um contributo para a não proliferação. A sua administração tem procurado mediar a paz em regiões que vão da África Subsariana ao Sudeste Asiático; tem exercido forte pressão sobre governos pouco recomendáveis em Caracas, Havana e Teerão. Manteve, ainda que de forma ambivalente, o apoio à Ucrânia contra a Rússia. E, embora o presidente não seja propriamente escrupuloso em matéria de subtilezas morais, ele e os seus conselheiros argumentam que é necessário ser-se implacável para sobreviver num mundo impiedoso.
Segundo esta linha argumentativa, uma superpotência que idolatre as regras internacionais fica desarmada perante os inimigos que as desrespeitem. Washington não pode respeitar as regras da OMC se a China não o fizer; não pode permitir que o direito internacional proteja governos que se associam a traficantes de droga, patrocinam o terrorismo ou procuram obter as armas mais mortíferas do mundo.
Há alguma razão nestes argumentos: a ordem global exige, de facto, que os Estados Unidos sejam firmes na defesa dos seus interesses. O problema é que Trump também se aliou, implícita ou explicitamente, a atores revisionistas que estão a deitar abaixo o antigo sistema.
Periodicamente, Trump procura transformar bens públicos globais em esquemas de extorsão a troco de proteção — por exemplo, ao declarar que Washington irá controlar e cobrar portagem ao tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. A sua administração dilacerou o sistema mundial de comércio com direitos aduaneiros e ignorou o direito internacional ao desferir ataques mortais contra alegados traficantes de droga no Hemisfério Ocidental. Trump aprecia a impunidade, razão pela qual terá proposto que Pequim, Moscovo e Washington cooperassem para paralisar o Tribunal Penal Internacional. E o presidente norte-americano juntou-se às potências revisionistas num sentido mais profundo: o recurso à pressão económica e a ameaças de agressão aos Estados mais fracos, com vista a obter concessões territoriais. Muitos aliados dos EUA temem que Trump desrespeite qualquer regra que possa travar as suas ambições, até porque é exatamente isso que o próprio presidente por vezes afirma.
Depois de ter ordenado, em janeiro de 2026, a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, Trump declarou que as suas ações seriam apenas limitadas pela sua própria moral, e não pelo direito internacional nem pela Constituição dos EUA. «Vivemos num mundo […] que é governado pela força, que é governado pela força bruta, que é governado pelo poder», acrescentou Stephen Miller, alto responsável da Casa Branca. «São estas as leis de ferro do mundo, que existem desde o início dos tempos.»
Felizmente, o mundo está muito longe dos níveis de violência e anarquia que caracterizaram a década de 1930 e outros períodos famigerados da história. Apesar de várias alianças e instituições há muito dedicadas a promover a estabilidade estarem a ser postas à prova, permanecem intactas. Parece, no entanto, evidente que o mundo se está a tornar mais sombrio, mais caótico e menos indulgente para com os líderes desatentos às realidades desta era que agora desponta.
Quais são, afinal, os requisitos para sobreviver num mundo pós-regras?
Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a nostalgia não é uma estratégia. Para os aliados dos EUA e outros que dependiam da ordem baseada em regras, é tentador fazer de Trump o único vilão desta história e esperar que a política norte-americana — e as condições mundiais — voltem ao que eram depois de ele sair de cena. De facto, é provável que o próximo presidente dos EUA não queira apoderar-se da Gronelândia, mas Trump não é a única fonte de problemas. Muito antes de ele ter sido eleito presidente, a ordem baseada em regras já era vítima dos ataques de Pequim e Moscovo. Trump é um sintoma de mudanças mais profundas — as inseguranças perante a interdependência, o ressurgimento da rivalidade entre grandes potências — que hão de persistir para além do seu mandato. Os líderes são importantes, e o futuro da política dos EUA é incerto. Contudo, seja quem for o presidente eleito em 2028 ou em 2032, não é de esperar que o mundo regresse a um estado substancialmente mais brando.
Os países que enraizarem a sua mentalidade nesta nova era estarão mais bem preparados para lidar com as suas vicissitudes. Os que adiarem as decisões difíceis vão ter problemas. De facto, se os aliados europeus dos Estados Unidos parecem tantas vezes apanhados em contrapé, talvez seja porque os hábitos mais arraigados da Europa — a convicção otimista de que as más práticas de outrora podiam ser banidas, a constante invocação da ordem baseada em regras, o subinvestimento crónico nos meios de defesa — são fruto de uma era passada. É certo que o rearmamento acelerado do continente está em curso, mas os compromissos herdados do passado persistem: a maioria dos países só atingirá as ambiciosas metas de despesa militar se reduzir os encargos com o Estado social, que se expandiram durante as décadas em que Washington pagava grande parte da fatura da defesa da NATO. É uma escolha difícil, mas que a nova era vai impor.
Daí um segundo requisito: num mundo brutal, a autoajuda (self-help) é hoje fundamental. Os Estados estão menos protegidos das iniciativas predatórias dos revisionistas; há cada vez menos garantias de que uma grande potência benevolente interfira para se opor às potências agressoras.
Os países que dependem exclusivamente da sua aliança com Washington correm o risco de sofrer uma desilusão com consequências fatais; os que apostam no direito internacional, nas instituições multilaterais ou nos princípios morais arriscam-se a tornar-se presas de adversários mais fortes. A autoajuda tem má fama na literatura académica, que a associa à anarquia e à lei da selva. No entanto, nas condições atuais, a autoajuda é eminentemente racional: trata-se de desenvolver as capacidades soberanas e as coligações alternativas que possam prolongar a vida de um Estado exposto a ameaças.
A Polónia e o Japão são exemplos a seguir: os dois países têm feito investimentos históricos na defesa, derrubando velhas barreiras orçamentais e políticas. Para complementar as alianças existentes, têm promovido novas coligações — por exemplo, através do conceito emergente de Intermarium, no qual Varsóvia coopera mais estreitamente com outros Estados da linha da frente na Europa, ou das quase alianças que o Japão firmou com a Austrália e as Filipinas, bem como das relações de defesa, cada vez mais profundas, que tem estreitado com diversos países, da Índia ao Vietname.
Esta abordagem — preservar ao máximo a cooperação com Washington, criando simultaneamente salvaguardas mais sólidas contra um futuro incerto — é a melhor opção para os aliados que não podem depender totalmente do poder dos EUA, mas que também não podem passar sem ele. E permite ganhar tempo para avaliar se a adoção de formas mais radicais de autoajuda, como a aquisição de armas nucleares, poderá um dia vir a ser necessária.
Esta vaga de autoajuda ilustra um terceiro requisito: não se deve apostar na cooperação entre potências médias para salvar o antigo sistema, ainda que essa cooperação possa atenuar os danos causados pelo seu colapso. Em janeiro, o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, tornou-se a coqueluche de Davos ao proclamar um «momento das potências médias», no qual os defensores da ordem baseada em regras se uniriam para a defender tanto contra Pequim como contra Washington.
Mas isso é pedir demasiado. Se as potências médias pudessem definir os termos da ordem global, não seriam potências médias. As realidades do poder são teimosas: não há nenhuma coligação plausível de potências médias capaz de conter a China sem o apoio dos Estados Unidos. Além disso, a proposta de Carney pressupõe uma noção exagerada da coesão das potências médias.
Para alguns intervenientes-chave — como o Brasil, a Índia e a Arábia Saudita — a possibilidade de um mundo mais fragmentado encerra tantas oportunidades como perigos, pelo que, na melhor das hipóteses, adotam uma postura ambivalente em relação a uma ordem que foi construída pelo Ocidente. É muito provável que os esforços para criar uma grande coligação de potências médias redundem num desperdício de tempo e energia.
O mais sensato será criar grupos mais pequenos e mais coesos, capazes de limitar a sua vulnerabilidade e dependência num mundo com menos garantias.
É perfeitamente razoável que a Europa reduza gradualmente a sua dependência em relação ao mercado norte-americano através de acordos com a Índia e o Mercosul — tal como é razoável que a Índia, o Mercosul e outras economias em desenvolvimento ampliem as suas opções comerciais à medida que as barreiras alfandegárias dos EUA aumentam. Para o Japão, é prudente desenvolver cadeias de abastecimento asiáticas no domínio da defesa, de modo a poder reforçar, no futuro, a linha da frente contra a China e, ao mesmo tempo, atenuar a dependência tecnológica em relação a Washington. Faz sentido que o Canadá estreite as suas relações de cooperação com os países escandinavos com vista a aumentar a segurança no Ártico, numa altura em que se intensifica a pressão das grandes potências, vinda de várias direções. Num mundo onde a autoajuda tem de assumir protagonismo — e mesmo que, a curto prazo, não haja uma boa alternativa à cooperação com os Estados Unidos —, vale a pena procurar ganhos de resiliência, por mais pequenos que sejam.
Em quarto lugar, mesmo que as alianças dos EUA se tornem menos especiais, Washington e os seus parceiros têm de encontrar formas de garantir que essas alianças perdurem. Independentemente do que Trump possa dizer, os Estados Unidos continuam a precisar de alianças na Europa, no Médio Oriente e na Ásia, visto que não podem manter-se como peso-pesado mundial se não usufruírem das posições estratégicas e do acesso militar que estas proporcionam. De igual modo, por mais que Washington disponha dos melhores modelos de inteligência artificial (IA), não pode dominar a era da IA se não contar com a ajuda dos parceiros — dos Países Baixos a Taiwan —, os quais ocupam um lugar-chave na arquitetura tecnológica global. Qualquer superpotência, mesmo que movida pelo interesse próprio, precisa de ajuda.
Independentemente das suas preocupações em relação a Washington, os aliados dos EUA continuam a precisar das alianças com este país para se protegerem contra os gângsteres dos seus territórios vizinhos, sejam eles a China, o Irão, a Coreia do Norte ou a Rússia. Mesmo que, no futuro, esses aliados venham a fazer frente aos seus adversários sem o apoio dos EUA, têm de evitar, até lá, a extrema vulnerabilidade que uma rutura com Washington acarretaria. É certo que a autoajuda ganha relevância à medida que o poder dos EUA se torna menos fiável. Mas, por enquanto, os países da linha da frente — da Coreia do Sul à Finlândia — têm preferido manter alianças imperfeitas e incertas com os Estados Unidos a assumir os custos e os riscos de agir por conta própria.
Naturalmente, mesmo os aliados que precisam do apoio dos EUA hão de querer evitar uma dependência excessiva. Os acontecimentos dos últimos anos tornaram mais difícil defender a ideia de que os pactos de segurança com os EUA se baseiam em valores comuns. Ao tornar mais condicionais os compromissos de defesa dos EUA, Trump fez do espectro do abandono uma ameaça demasiado real. Assim, a tarefa de Washington e dos seus aliados será encontrar uma base mais transacional para a sua colaboração económica, militar e tecnológica — por exemplo, pactos que troquem o apoio dos aliados na proteção e no reforço das cadeias de abastecimento de IA por acesso privilegiado à capacidade de computação e aos modelos de ponta dos EUA. O essencial é preservar a capacidade de trabalhar em conjunto em prol de interesses comuns, ainda que as instituições que outrora serviram de âncora ao mundo livre se tornem parcerias cautelosas e não comunidades sólidas de confiança estratégica.
Em quinto lugar, se é certo que os dilemas da nova era são mais agudos para os aliados dos EUA, num contexto de desordem, todos os países do mundo devem preparar-se para pagar prémios de risco cada vez mais elevados. Os realistas reviram os olhos quando se fala de «normas internacionais». No entanto, algumas dessas normas, nomeadamente a liberdade de navegação, são alicerces do comércio mundial. Praticamente todos os países, das nações em desenvolvimento às antigas potências coloniais, têm lucrado enormemente com a estabilidade e a abertura dos espaços comuns globais.
Quando essas normas se desmoronam, os custos de transporte marítimo e de seguros disparam, as cadeias de abastecimento são violentamente interrompidas e os atritos económicos multiplicam-se. E, como demonstrou a recente guerra no Golfo Pérsico, os Estados Unidos podem não ser capazes de defender a liberdade de navegação em águas disputadas, mesmo quando o querem fazer.
As soluções alternativas — mesmo as mais dispendiosas — tornam-se, assim, essenciais para contornar os pontos de estrangulamento marítimos. Uma rede alargada de oleodutos que leve o petróleo do Golfo para o resto do mundo, contornando o Estreito de Ormuz, é uma apólice de seguro cara, mas essencial, bem como uma forma de diminuir progressivamente o poder de pressão do Irão. Da mesma forma, a instrumentalização do abastecimento energético, das reservas de matérias-primas críticas e de outros aspetos da interdependência exige uma mudança mais ampla, passando-se da lógica da eficiência para a da resiliência. À medida que os bloqueios, embargos e outras sanções passam a fazer parte do tecido da economia mundial, os países mais prudentes devem estar dispostos a pagar um prémio para se protegerem das ameaças de coerção. Infelizmente, isto aplica-se também aos Estados mais pobres: havendo cada vez mais conflitos que perturbam as redes de distribuição de alimentos e energia, até os países em desenvolvimento podem ter de investir na criação de reservas estratégicas maiores.
Tudo isto parece muito promissor para as potências revisionistas. O colapso da ordem baseada em regras abre caminho à concretização dos seus desígnios. Mas eis que surge um sexto requisito: esses países devem ter cuidado com o que desejam. É que um mundo dominado por gângsteres pode não lhes convir para sempre, mesmo que lhes dê novo fôlego por algum tempo.
Quanto mais Washington fragiliza o direito internacional e ensaia movimentos de expansão agressiva, mais Xi e Putin saem beneficiados. Os líderes da China e da Rússia ficarão certamente encantados quando as alianças dos EUA — que são o principal obstáculo, em termos de poder duro ou material (hard power), às suas próprias ambições expansionistas — forem postas em causa. Num mundo sem regras, a ausência de escrúpulos compensa cada vez mais. No entanto, a longo prazo, esses dividendos podem tornar-se cada vez menores.
Se os países que vivem preocupados com as autocracias agressivas e com a imprevisibilidade dos EUA acabarem por se armar febrilmente, isso não terá necessariamente um desfecho favorável para Putin, Xi e outros da mesma laia. Veremos até que ponto a China gostará de enfrentar um Japão armado até aos dentes e liberto dos grilhões históricos que pesavam sobre a sua política externa, ou se a situação estratégica da Rússia melhora quando a Polónia e a Alemanha tiverem reforçado o seu poderio militar e se autonomizarem em relação aos Estados Unidos. Se a extrema insegurança conduzir a uma proliferação nuclear desenfreada, tanto Pequim como Moscovo podem ter de enfrentar condições particularmente tensas e perigosas nas respetivas regiões.
Numa era verdadeiramente de soma zero, todos podem acabar por ficar menos seguros. Além disso, a economia chinesa, dependente do comércio, continua a precisar de mares seguros e de mercados externos. Se a economia internacional se fragmentar e se houver menos liberdade de navegação, Pequim poderá, afinal, vir a ter saudades da ordem baseada em regras.
Por fim, os líderes devem ter em conta um sétimo requisito: ainda são possíveis futuros diferentes — e muito depende de os Estados Unidos conseguirem, ou não, mobilizar uma implacabilidade seletiva e esclarecida. Num dos cenários, o mais desejável, Washington reconhece que é impossível conter os rivais sem escrúpulos caso se mantenha fiel às normas internacionais; adota, assim, uma ética de gângster para combater as potências autocráticas que atropelam fronteiras e tentam dominar a economia mundial. Mas aceita, tal como fez durante a Guerra Fria, que há uma bitola para os amigos e outra para os inimigos; neste cenário, os responsáveis norte-americanos compreendem que têm de ser mais brandos com os aliados, de modo que estes possam, coletivamente, opor-se com mais firmeza à China e a outros adversários.
Se este cenário se concretizar depois de Trump deixar o cargo, esta era turbulenta pode não ser desastrosa. Pode ser preservado um patamar mínimo — vital e transacional — de cooperação entre aliados em domínios que vão da segurança das cadeias de abastecimento de terras raras e semicondutores ao reforço do equilíbrio militar no Pacífico Ocidental. Na verdade, o facto de terem estado à beira do abandono durante a administração Trump pode persuadir os aliados de que é do seu interesse proporcionar a Washington a ajuda de que os EUA necessitam para que a comunidade democrática consiga levar a melhor sobre os seus adversários. Se, no entanto, os Estados Unidos continuarem a recorrer à coerção em todas as direções, o mundo — e, a prazo, Washington — acabará numa situação ainda mais dura.
De início, a instauração de um verdadeiro paraíso de gângsteres poderá beneficiar os Estados Unidos. A força bruta tem mais peso quando as normas de conduta se degradam. Que país se sairia melhor num ambiente regido pela lei do mais forte do que uma superpotência mais forte do que todas as outras? Eis o fascínio imediato de uma agenda de soma zero. A longo prazo, o cenário afigura-se menos aliciante.
O apoio dos EUA a uma ordem amplamente benéfica tem alimentado a máquina do poder norte-americano, conferindo-lhe maior legitimidade global. As relações de aliança têm sido facilitadas pela perceção de que os Estados Unidos são, no fundo, um país decente, mesmo que, por vezes, tenham atitudes condenáveis. Se enveredar pela ética dos gângsteres, Washington acabará por pôr fim às relações que lhe têm permitido alargar a sua influência, o que, por sua vez, servirá de incentivo para que outros países lhe recusem cooperação ou até encontrem formas de lhe fazer frente. Os princípios são uma fonte de poder. Se Washington perder isso de vista, pagará um preço elevado.
No pós-Guerra Fria, a luz do progresso brilhou com muita intensidade. Hoje, atravessamos um período mais sombrio e, talvez, mais desesperado. Por isso, mais do que nunca, importa que os líderes saibam quais são os verdadeiros contornos do momento atual — nem que seja para poderem navegar melhor entre os perigos que este encerra.