Os planos do Pentágono para a Europa são razão para alarme?
No contexto da reavaliação que a administração Trump tem vindo a fazer do dispositivo militar norte-americano no continente europeu, as Forças Armadas dos EUA estão a ponderar quais a unidades que devem retirar e quais as que devem manter na Europa. No entanto, há prioridades concorrentes que podem impedir o Departamento de Defesa de pôr em prática os cortes significativos que alguns altos responsáveis defendem.
A 27 de julho, Elbridge Colby, responsável pela política de defesa do Pentágono, anunciou o início de um processo de revisão com a duração de seis meses da presença militar norte-americana na Europa, com o objetivo de avançar, «de forma rápida e irreversível, no sentido de a Europa assumir a principal responsabilidade pela sua defesa convencional».
Na semana de 24 de agosto, Colby deslocou-se à Europa para se reunir com líderes da NATO e militares norte-americanos, com vista a discutir o plano que apelidou de «NATO 3.0».
Os Estados Unidos têm cerca de 80 000 militares na Europa, quase metade dos quais na Alemanha. Entre os restantes países que acolhem militares norte-americanos incluem-se o Reino Unido, a Espanha, a Itália, a Polónia, a Roménia, a Grécia e a Estónia.
A presença militar norte-americana destina-se a ajudar a proteger os países anfitriões, mas há muito que serve também para Washington projetar o seu poder em África e no Médio Oriente, através, por exemplo, de aeródromos, bases navais e unidades de saúde que prestam cuidados a militares feridos. O Reino Unido e a Alemanha são especialmente relevantes para o poder aéreo dos EUA, ao passo que a Espanha, onde se encontram vários contratorpedeiros da Marinha norte-americana, é importante para o poder naval.
Contudo, há muito que Colby tem vindo a defender que as Forças Armadas dos EUA devem concentrar-se mais na Ásia, e menos na Europa e no Médio Oriente, de modo a poderem enfrentar a China, que classifica como uma ameaça crescente. Tendo em conta a eterna aversão do presidente dos EUA, Donald Trump, à NATO, agora exacerbada pela sua fúria perante a recusa dos aliados europeus em juntar-se à guerra no Irão, é possível que Colby veja nisso a sua oportunidade.
Há indícios de que a equipa de Colby pode propor cortes substanciais nas forças norte-americanas sediadas na Europa. Em outubro de 2025, o Departamento de Defesa retirou uma unidade em regime de rotação de cerca de 3000 soldados que estava baseada sobretudo na Roménia. Em dezembro desse ano, os Estados Unidos terão comunicado aos países europeus que estes deveriam estar prontos para assumir o grosso da sua defesa convencional já em 2027. Em maio deste ano, o Pentágono cancelou abruptamente os planos de envio de tropas para a Polónia, embora Trump tenha aparentemente mudado de ideias alguns dias depois, anunciando que, afinal de contas, Washington iria enviar 5000 soldados para o país; o certo é que, até ao momento, não foi enviado nenhum soldado. Em junho, os Estados Unidos anunciaram que iriam reduzir significativamente o número de unidades, aeronaves e navios de guerra que disponibilizariam à Europa na eventualidade de um ataque à NATO.
É provável que a equipa de Colby esteja sob pressão para agir com rapidez, afirmou Katherine Thompson, ex-colaboradora de Colby no Pentágono e atualmente investigadora sénior no Cato Institute, um think tank norte-americano. «Depois das eleições de 2028, pode ser outro partido político a assumir a presidência, por isso importa consolidar o máximo de ganhos possível, de modo a tornar muito difícil revertê-los», declarou.
A equipa de Colby está a preparar quatro opções, informou a Reuters na quinta-feira. Essas opções deverão estar prontas para análise do secretário da Defesa, Pete Hegseth, até 6 de novembro.
Quanto aos países que possam vir a sofrer uma redução de tropas norte-americanas, a escolha será porventura mais ditada por demonstrações de lealdade à administração Trump do que por considerações estritamente militares. Recentemente, os Estados Unidos enviaram um questionário aos países membros da NATO para averiguar se cada país tem sido «publicamente favorável» à política externa dos EUA, se está a adquirir armamento norte-americano e se impôs «restrições» às bases militares norte-americanas. No questionário, pergunta-se também aos países se estariam dispostos a manifestar-se contra iniciativas de compra de armamento europeu.
Segundo esta lógica, e tendo em conta a deterioração das relações entre os líderes da Espanha e da Itália Donald Trump devido à guerra no Irão, talvez sejam estes os países que correm o maior risco de sofrer algum tipo de penalização por motivos políticos. A Espanha, no entanto, é importante para a defesa da NATO por acolher, em Rota, contratorpedeiros norte-americanos, enquanto as principais unidades norte-americanas estacionadas em Itália incluem aviões de reconhecimento e uma brigada do Exército.
A Alemanha já foi alvo deste tipo de retaliação política, depois de o chanceler alemão, Friedrich Merz, ter criticado a guerra no Irão: Trump anunciou que os Estados Unidos iriam retirar 5000 soldados do país. Ainda assim, os EUA esclareceram que o processo de retirada demoraria vários «anos», o que sugere que a decisão poderá ser revogada por futuras administrações.
O Departamento de Defesa não respondeu a um pedido de comentário.
As ambições de Colby, no entanto, podem esbarrar em diversos fatores políticos que o Pentágono não controla.
Em primeiro lugar, a atual guerra da administração Trump contra o Irão depende, em parte, do acesso às bases aéreas e navais dos EUA na Europa, o que torna menos provável que esses meios sejam retirados da Europa.
«Penso que, no domínio naval, é improvável que se verifiquem grandes mudanças», declarou Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar da Defense Priorities, um think tank sediado em Washington. Kavanagh sublinhou que as forças navais baseadas no Mediterrâneo estão a ser muito requisitadas, pois são necessárias para projetar o poder dos EUA na região do Médio Oriente. Mesmo no que se refere a outros tipos de unidades militares, «creio que, em termos realistas, são poucas as mudanças que deverão ocorrer a curto prazo», concluiu a especialista, que tem defendido a redução da presença militar dos EUA na Europa.
No passado, os esforços liderados pelo Pentágono para reduzir as forças estacionadas na Europa também não foram bem acolhidos pelo Congresso norte-americano.
A retirada de tropas da Roménia em outubro de 2025 foi criticada pelo senador Roger Wicker e pelo deputado Mike Rogers, as vozes mais influentes em matéria de defesa no Senado e na Câmara dos Representantes, respetivamente. A medida «compromete a capacidade de dissuasão e corre o risco de incentivar novas agressões russas», escreveram os dois.
Posteriormente, no projeto de lei que autoriza o orçamento da defesa para 2026, o Congresso dos EUA estipulou um limite mínimo de 76 000 militares estacionados na Europa. Esse número de militares pode diminuir, mas só depois de o Pentágono demonstrar ao Congresso que consultou os aliados europeus, entre outras exigências.
Houve outros aspetos que suscitaram tensões entre Colby e o Congresso, nomeadamente uma suspensão da ajuda militar à Ucrânia e a tentativa de reduzir o financiamento para a defesa dos Estados Bálticos.
Desde então, o Congresso ainda não confirmou a nomeação de dois assessores fundamentais de Colby — Alexander Velez-Green, para o cargo de subsecretário-adjunto da Defesa, e Austin Dahmer, para o cargo de secretário-adjunto da Defesa —, uma forma de manifestar, ao que parece, o seu descontentamento perante as tentativas do Pentágono de reduzir o número de tropas na Europa. Velez-Green e Dahmer tiveram audiências de confirmação em novembro de 2025.
Além disso, os países europeus dispõem dos seus meios tradicionais de pressão (através do Congresso) e podem ainda alardear o seu apoio a Trump, nomeadamente na resposta ao questionário enviado pelo Pentágono.
Isto significa que os países que adquirem quantidades substanciais de armamento norte-americano, como a Polónia, ou que prestaram apoio à guerra no Irão, como a Roménia, podem conseguir manter a presença norte-americana, mesmo que os planeadores estratégicos do Pentágono não vejam necessidade disso. Na Europa de Leste, há alegadamente países que se estão a disponibilizar para baixar os custos do estacionamento das tropas norte-americanas nos seus territórios.
Paralelamente, o secretário de Estado Marco Rubio indicou que pretende manter uma presença militar reforçada dos Estados Unidos na Europa e terá promovido a decisão de abrandar a retirada das tropas norte-americanas.
Isso não significa que Colby não tenha cartas na manga.
Em conformidade com as novas disposições legais que exigem que o Pentágono consulte os aliados antes de reduzir o número de militares para menos de 76 000, Colby fez questão de revelar publicamente que se reuniu com os principais aliados europeus.
É possível que os planos de Colby venham também a ser facilitados pela reforma forçada do general Christopher Donahue, comandante das forças do Exército dos EUA na Europa. Paralelamente, o Exército — o ramo das Forças Armadas com maior presença no continente europeu — não dispõe de um chefe de estado-maior confirmado e, ao que consta, perdeu o seu principal líder civil, Dan Driscoll. Os dois generais que melhor conheciam a ameaça russa também saíram nos últimos meses: o general Curtis Buzzard, principal coordenador do apoio dos aliados à Ucrânia, e o tenente-general Charles Costanza, comandante do V Corpo de Exército, sediado na Polónia.
Independentemente dos seus planos, porém, o Pentágono terá ainda de enfrentar a maior incógnita de todas: o temperamento volúvel de Trump.
Trump acabou por revogar a decisão do Pentágono de retirar tropas da Polónia na sequência dos contactos encetados pelo presidente polaco, Karol Nawrocki, de quem é próximo. Outros líderes europeus — nomeadamente o secretário-geral da NATO, Mark Rutte — revelaram-se igualmente hábeis em conquistar Trump.
«Estas revisões [da presença militar dos EUA na Europa] são sempre muito alardeadas, mas depois as mudanças acabam por ser menores do que o esperado», afirmou Kavanagh.