Afinal, o que é o populismo?

Conheça a opinião dos principais especialistas da investigação académica sobre o populismo.

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O que une o presidente eleito dos EUA Donald Trump, que quer construir um muro com o México, e Beppe Grillo o líder do movimento que pôs os italianos a escolher os deputados pela internet?

Ou o que têm em comum a candidata presidencial Marine Le Pen, defensora do fim de educação gratuita para os imigrantes em França, e o presidente Evo Morales que alargou direitos aos indígenas na Bolívia?  

São todos populistas. A palavra tornou-se um chavão nos últimos meses. Surge diariamente nos media para definir figuras da direita à de esquerda. Mas o seu conceito não é simples. Há mais de 60 anos que divide teóricos e analistas políticos que o definem como uma estratégia de líderes carismáticos para apelar às massas, demagogia ou uma reacção nacionalista.

O professor da Universidade da Georgia, EUA, Cas Mudde ajudou a clarificar a discussão, apontando uma definição mais consensual. "O populismo considera que a sociedade está fundamentalmente separada em dois grupos homogéneos e antagónicos: a ‘população pura’ e a ‘elite corrupta’”, escreve num artigo da Revista XXI de Junho passado, que pode ser lido na íntegra aqui.

A essa divisão social moralista o investigador acrescenta outra característica: “a política tem de ser sempre uma expressão da vontade popular”. O líder populista assume-se como a voz do povo, representando os interesses dos cidadãos contra a "elite corrupta".

As campanhas das presidenciais norte-americanas e do referendo ao Brexit são bons exemplos de populismo em acção. Trump não se cansou de repetir que os norte-americanos se sentem traídos por décadas de administração "ruinosa" e “querem o seu país de volta”. E na campanha do Brexit, Nigel Farage, o ex-líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), fez do referendo uma "luta do povo contra o establishment".

Para Takis Pappas, professor na Universidade da Macedonia, na Grécia, qualquer partido populista tem dois outros traços obrigatórios: é "sempre democrático e nunca liberal". Ou seja, apoia a “soberania popular e a regra da maioria, mas rejeita o pluralismo e os direitos das minorias”, explica na edição de Outubro do Journal of Democracy.Os populistas são por isso a favor de eleições, mas combatem a divisão de poderes, a autonomia judicial ou a liberdade de imprensa.

Uma ideologia "contagiosa"

É sobretudo na escolha daqueles que "excluem e atacam" que se distinguem os populistas de esquerda e de direita, adianta Margaret MacMillan, directora do St. Antony's College, da Universidade de Oxford.

À esquerda os inimigos da vontade popular são geralmente as grandes empresas e oligarcas, enquanto a direita aponta o dedo às minorias étnicas e religiosas. "Uma vez identificados os inimigos, estes podem ser culpados quando é frustrada a vontade do povo", defende a historiadora num texto publicado este mês no Diário de Notícias. "Assim como Trump tem como alvo mexicanos e muçulmanos, o presidente venezuelano Nicolás Maduro culpa uma maligna potência estrangeira, os EUA, pela crise cada vez mais profunda no seu país", resume.

Na Europa, as crises económica e social têm impulsionado o crescimento de partidos populistas e antiglobalização como o Syriza, na Grécia, o Podemos, em Espanha, ou a Frente Nacional, em França.

E as suas políticas ameaçam tornar-se "um perigo" para a Europa liberal, alertam analistas políticos, investigadores e responsáveis pelas instituições comunitárias, como o antigo presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, ou o ex-presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz.

"O populismo é tão ameaçador porque é contagioso", justifica Pappas, adiantando que "o aparecimento e crescimento de um partido populista vai previsivelmente arrastar os outros partidos desse país numa direcção populista".

Mas nem todos os académicos têm uma visão negativa do fenómeno. "Há necessidade de populismo na política democrática", defende Chantal Mouffe, professora de Teoria Política da Universidade de Westminster e viúva de Ernesto Laclau, um dos pais ideológicos do Podemos.

Numa longa entrevista à revista The European, em Janeiro de 2014, a investigadora defende que "o populismo em si mesmo não é algo mau" e que a democracia precisa de saber responder "às necessidades do povo e de construir uma vontade colectiva".

Mouffe vai mais longe, dizendo que o populismo de esquerda pode ser um importante contrapeso ao populismo xenófobo. "Para os populistas de esquerda o adversários do povo não são os imigrantes, mas as grandes corporações e as forças da globalização neoliberal", salienta. E por isso defende "que o desenvolvimento de um populismo de esquerda é a única forma de combater o crescente sucesso do populismo de direita".

Esta visão benigna do fenómeno é contestada pelo politólogo Jan-Werner Müller, que lançou este ano o livro What is populism?. Para este professor de política na Universidade de Princeton, nos EUA, os populistas são sempre “perigosos” para a democracia independentemente de serem de esquerda ou de direita. Por um lado, porque se proclamam como a única voz do povo, atacando e excluindo todos aqueles que contestam as suas posições ou legitimidade, explica num artigo no The Guardian. Por outro, porque ao chegar ao poder os populistas acabam por cometer exactamente “os mesmos pecados políticos” das elites contra as quais se batem. “Os populistas são apenas elites diferentes que tentam agarrar o poder através da fantasia colectiva de uma política pura”, acusa.

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