As interferências nos sinais de GPS estão a tornar-se uma epidemia
Este artigo, publicado em parceria com a Foreign Policy, foi escolhido por Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE-IUL, por documentar «uma das mais relevantes ameaças recentes», que coloca «em risco a vida de inúmeros civis em zonas de conflito e não só».
No dia 21 de maio, quando o secretário da Defesa do Reino Unido, John Healey, regressava ao país num voo proveniente da Estónia, o sinal de satélite do avião em que seguia foi bloqueado — provavelmente pela Rússia —, assim se mantendo durante todo o trajeto.
Na região do Mar Báltico, as interferências nos sistemas de navegação marítima e aérea têm sido um problema constante. Agora, esta atividade subversiva tem-se desenvolvido rapidamente também no Médio Oriente.
Poucos minutos depois de Healey e a sua equipa terem embarcado no avião da RAF, a Força Aérea Britânica, na sequência de uma visita às tropas britânicas na Estónia, o sinal foi interrompido. Healey relatou o sucedido ao jornal The Times: «Os pilotos tiveram de recorrer a sistemas de navegação inercial de emergência para calcular a sua posição. A interferência causou também avarias em partes do painel de instrumentos na cabina do Dassault Falcon 900LX, aeronave que é igualmente utilizada pelo rei [Carlos III].»
Felizmente, os hábeis pilotos aterraram o avião em segurança no Reino Unido. Este incidente lembra-nos os perigos que os aviões de passageiros correm no espaço aéreo europeu.
Há constantemente agentes hostis que transmitem sinais para bloquear os sistemas de navegação das aeronaves. Pior ainda, são transmitidos sinais que distorcem esses sistemas, deixando os pilotos e o pessoal em terra sem saberem se as localizações indicadas nos seus instrumentos correspondem à realidade.
Em setembro de 2025, as autoridades europeias declararam que, nos primeiros quatro meses do ano, houve cerca de 123 000 voos afetados por este tipo de interferências na navegação. Mas os aviões não foram os únicos veículos afetados: os navios, que também utilizam a navegação por satélite, foram igualmente alvo deste tipo de bloqueios e distorção de sinais.
É graças aos instrumentos de navegação de alta precisão que os navios e os aviões podem circular tão perto uns dos outros. Sem a navegação por satélite, seria impossível manter a atual elevada intensidade de tráfego aéreo e marítimo.
No outono, a situação era tão preocupante que a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO, na sigla inglesa) condenou formalmente, em assembleia, estas interferências, tomando a notável iniciativa de identificar os dois principais responsáveis: a Rússia e a Coreia do Norte.
Desde então, o problema agravou-se ainda mais. Em maio de 2026, Darius Kuliesius, vice-diretor da entidade reguladora das comunicações da Lituânia, declarou à Reuters que, desde o início de 2025, a Rússia aumentou o número de antenas de falsificação de sinais de GPS de três para 36. (O GNSS, ou Sistema Global de Navegação por Satélite, é o termo genérico para a navegação por satélite; o GPS é o sistema norte-americano, embora a sigla seja normalmente utilizada para designar todas as formas de navegação por satélite.)
Este flagelo afeta também outras partes do mundo. «Temos assistido a sabotagens no Mar Negro, no Mar Vermelho, no Golfo de Omã, no Mediterrâneo Oriental, no Mar Báltico e no Golfo Pérsico», afirmou Ben Westcott, que dirige o departamento de serviços digitais da Ambrey, uma empresa de segurança marítima. «Os navios ou não recebem nenhum sinal ou recebem um sinal distorcido.» Por sua vez, Joshua Hutchinson, diretor comercial da mesma empresa, acrescentou: «Atualmente, em termos de volume, as interferências no GNSS são a maior ameaça para o setor da navegação.»
No que diz respeito à aviação, «as interferências nos sistemas de navegação costumavam acontecer de vez em quando, mas agora são constantes», declarou Raphael Monstein, cofundador da SkAI Data Services, uma consultora de segurança aeronáutica.
Ao contrário da região do Mar Báltico, onde praticamente todas as interferências provêm da Rússia, no Médio Oriente quer Israel quer o Irão (e, por vezes, também outros países) recorrem ao bloqueio e à adulteração de sinais. «A interferência nos sistemas de navegação é essencialmente uma medida que visa manter os drones à distância», explicou Monstein. «Os civis são meras vítimas colaterais.» Por vezes, o bloqueio e a adulteração de sinais surgem também no conflito entre a Índia e o Paquistão. Taiwan é também um alvo frequente de interferências.
O problema é que é relativamente fácil para os Estados — e até para as empresas privadas — criar um bloqueador de sinal. A guerra eletrónica é uma componente central dos conflitos modernos. Quem queira compreender a dimensão real deste fenómeno pode consultar a plataforma GPSwise, onde encontra um mapa elucidativo e, simultaneamente, perturbador.
Tudo isto dificulta a realização de voos nas regiões afetadas por parte das companhias aéreas, nomeadamente aquelas que retomaram alguns serviços com destino e origem no Golfo Pérsico.
A tarefa de definir e verificar manualmente a posição da aeronave torna ainda mais complexo o exigente trabalho dos pilotos. «Muitas companhias aéreas já se habituaram a esta realidade», disse Monstein. «Nas suas reuniões de preparação, os pilotos são agora alertados para os riscos de sofrerem interferências de sinal.»
Ainda que estejam aptos a navegar sem o auxílio de satélite, trata-se de uma tarefa adicional que têm de executar na perfeição. Felizmente, as aeronaves, em especial os aviões comerciais, foram concebidas para voar mesmo em cenários de interferência de sinal de GPS, alguns jatos privados são menos resilientes.
Este problema também afeta a ponte dos navios. «Ao longo de várias gerações, o mundo foi-se tornando cada vez mais dependente do GPS como forma principal de navegação», observou Westcott. «Hoje, as tripulações têm de se adaptar a uma nova realidade. Recentemente, fomos contactados por uma tripulação que precisava de ajuda, porque não estava habituada a navegar sem GPS.»
Há alguns anos, houve marinhas que recomeçaram a ensinar aos seus marinheiros a navegação astronómica — uma arte totalmente imune a interferências e que, durante séculos, permitiu que os navegadores percorressem o globo. Mas nem todos os marinheiros comerciais receberam este tipo de formação.
O problema não se limita às tripulações no ar e no mar. Em terra, o pessoal também não consegue ter a certeza absoluta da localização das aeronaves e dos navios. Além disso, como alertou Westcott, «os sinais horários [que registam a posição dos navios e das aeronaves a cada momento] estão ligados ao GPS». Isto significa que, se os sinais de GPS forem distorcidos, os registos de hora e data podem perder rigor, o que gera complicações em vários setores — como as seguradoras — que dependem muito desta informação.
Acresce que todos estão bem cientes de que o bloqueio e a falsificação de sinais podem causar acidentes graves. Por via da sua atividade constante, os responsáveis por estas interferências estão bem cientes de que colocam em risco inúmeros civis. Com efeito, suspeita-se de que, em maio de 2025, tenha sido uma interferência no sinal de GPS a causar o encalhe do porta-contentores Antonia ao largo do porto saudita de Jeddah e, alguns meses antes, do graneleiro Meghna Princess no Golfo da Finlândia.
Os governos de vários países procuram agora encontrar uma solução para esta ameaça. Em março, a União Europeia publicou um plano de ação com diretrizes sobre a forma como as tripulações e os controladores de tráfego aéreo devem atuar em caso de perturbações de sinal de GPS.
A Noruega montou três estações de monitorização de interferências e pretende criar mais duas. E a DNK, uma seguradora marítima global sediada em Oslo, lançou uma iniciativa pioneira que disponibiliza aos seus parceiros sinais de satélite de órbita baixa, muito mais difíceis de adulterar do que os sinais convencionais.
O facto de podermos recorrer às técnicas que ao longo de séculos foram aperfeiçoadas por navegadores como Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Fernão Magalhães, a par de soluções inovadoras como a informação de navegação de satélites em órbita baixa, é positivo. Mas o público em geral também pode ajudar, nomeadamente denunciando os países responsáveis por estes bloqueios e falsificações de sinal, que colocam em risco, de forma irresponsável, embarcações e civis.