Os Estados Unidos vão ter saudades da velha NATO
Escolhido por Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE-IUL, este texto também explica que «é falsa a ideia de que a Europa gastar mais na sua defesa significa que os EUA vão gastar menos, visto que grande parte desse investimento militar norte-americano serve para projetar poder noutras regiões.»
Mesmo para quem não gosta de Donald Trump, é preciso reconhecer-lhe o mérito de ter conseguido que o resto da NATO assumisse a sua quota-parte de responsabilidades. Há muito que os presidentes norte-americanos vêm expressando desagrado quanto à distribuição de esforços na Aliança Atlântica.
Trump foi rude, teatral e manipulador, mas transmitiu um sentimento bastante generalizado entre os norte-americanos. E os europeus perceberam a mensagem. Em 2014, os outros Estados membros da NATO gastaram em defesa 1,4% do seu produto interno bruto combinado; em 2025, esse valor rondava os 2,3%.
Convém, no entanto, ter cuidado com o que se deseja.
Presume-se que, se a Europa gastar mais, os Estados Unidos gastarão menos. Trata-se de um pressuposto manifestamente errado. As despesas europeias com a defesa atingiram o nível mais elevado das últimas décadas, e mesmo assim Trump propôs um orçamento de defesa astronómico, na ordem dos 1,5 biliões de dólares para o ano fiscal de 2027.
Nos EUA, o investimento na defesa nunca foi determinado apenas pelas necessidades da NATO, refletindo o papel dos Estados Unidos enquanto superpotência mundial, detentora de bases militares, esquadras e compromissos por todo o mundo.
Washington pretende, simultaneamente, dissuadir a Rússia, fazer frente à China, projetar poder no Médio Oriente, proteger as rotas marítimas globais, defender o território nacional, manter a superioridade nuclear, dominar o espaço, liderar no domínio dos drones e da inteligência artificial e preservar a capacidade de combater longe do território nacional.
Na realidade, segundo o International Institute of Strategic Studies (IISS), os gastos diretos na segurança da Europa representavam, em 2018, apenas cerca de 5% dos gastos totais norte-americanos com a defesa.
Entretanto, à medida que aumenta o seu investimento em defesa, a Europa torna-se menos dependente dos EUA e, por isso, menos deferente.
Desde há mais de 75 anos, o domínio dos EUA na NATO tem proporcionado grandes vantagens a Washington. Os Estados Unidos têm mais de 30 bases militares espalhadas pela Europa, o que lhes permite projetar poder não só na Europa, mas também em África, no Médio Oriente e na Ásia. As operações militares dos EUA no Médio Oriente, nomeadamente as guerras no Iraque e no Afeganistão e, mais recentemente, no Irão, dependem muito do trânsito seguro, de bases militares disponíveis e de direitos de sobrevoo na Europa.
Frequentemente, os países da NATO autorizaram a utilização das suas infraestruturas militares pelos EUA, mesmo quando discordavam da guerra em questão. No entanto, à medida que tomam consciência de que os EUA não são de confiança, ou de que são até hostis, esses países estarão cada vez menos predispostos a acomodar os pedidos de Washington.
Os EUA partiram sempre do princípio de que podiam contar com os países aliados para alinhar com as suas estratégias globais, incluindo as campanhas de coerção económica. Porém, como Celeste Wallander — ex-funcionária do Pentágono — escreve na revista Foreign Affairs, hoje a Europa dispõe dos seus próprios interesses e instrumentos.
Detém grande parte dos ativos congelados da Rússia. Exerce as suas próprias sanções contra o transporte marítimo, os movimentos financeiros e a tecnologia russos. É a sede do SWIFT, o sistema de pagamentos cuja exclusão dos principais bancos russos tem sido tão importante. Se Washington quiser aliviar a pressão sobre Moscovo em negociações com o presidente Vladimir Putin, é possível que a Europa se oponha.
Se Washington quiser intensificar a pressão sobre o Irão ou a China, a Europa poderá hesitar.
Além disso, há ainda a questão do armamento. Um dos benefícios menos visíveis da liderança americana na NATO tem sido o facto de os europeus adquirirem armamento americano. Ao comprarem aviões F-35 e P-8, sistemas HIMARS e mísseis Patriot, entre muitos outros, os estados europeus optaram não apenas por sistemas e equipamentos de boa qualidade, mas também por aprofundar os laços entre a Europa e os Estados Unidos.
A utilização do mesmo tipo de equipamentos facilita a realização de operações conjuntas. Garante, também, aos países na linha da frente de uma ameaça que as forças armadas norte-americanas se vão manter empenhadas.
Contudo, neste momento, os responsáveis europeus já falam abertamente da necessidade de reduzir a sua dependência em relação aos equipamentos militares norte-americanos. Temem que a administração Trump possa, no futuro, recusar atualizações de software, peças sobressalentes ou apoio operacional. Num cenário em que tem de se preocupar com um presidente norte-americano que ameaça ocupar a Gronelândia, a Dinamarca pensará muito bem antes de comprar aos Estados Unidos armamento da próxima geração.
Para as empresas de armamento norte-americanas, isto poderá implicar perdas significativas. Para a estratégia dos EUA, essas perdas podem ser ainda maiores. A venda de armas não se resume a transações comerciais — cria hábitos de cooperação e de partilha de estratégias.
Há ainda um último perigo. É frequente dizermos que a «Europa» está a gastar mais em defesa, mas os orçamentos deste setor são do foro nacional. Ora, a maioria dos governos europeus está falida. Como refere Liana Fix, analista na revista Foreign Affairs, o país europeu com maior capacidade orçamental é a Alemanha — país que está atualmente a investir em grande escala na defesa.
É um passo necessário. A Alemanha tem sido demasiado passiva durante demasiado tempo. É uma democracia liberal profundamente enraizada na Europa, e não há razões para suspeitar de que o seu ADN político esconda alguma espécie de atavismo belicista. Porém, na política internacional, a dimensão e o poder são cruciais. Uma Alemanha que gaste muito mais do que os países vizinhos vai inevitavelmente criar ansiedade em França, na Polónia e noutros países mais pequenos que a rodeiam.
A genialidade da estratégia norte-americana no pós-1945 consistiu em superar este problema. Graças a ela, os países europeus deixaram de ter de pensar e agir como grandes potências tradicionais. Sob a proteção dos EUA, a França e a Alemanha deixaram de sentir necessidade de se contrabalançar. Foram atenuadas as rivalidades históricas entre países europeus, que ao longo de séculos deram origem a guerras catastróficas, e criou-se um sistema estável, pacífico e pró-americano.
Agora, os EUA desencadearam uma reação em cadeia. Com o tempo, os norte-americanos vão ter saudades da velha NATO — não por se tratar de uma organização justa, mas porque foi o sistema de segurança internacional mais bem-sucedido de sempre, com os Estados Unidos no seu centro.