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Imagem de um tabulaeiro de xadrês, onde se destacam algumas peças. Crédito: Shutterstock.

Quem Governa Portugal?

Uma investigação inédita retrata o perfil de todos os membros dos executivos desde 1976. Os coordenadores deste novo estudo, Marcelo Camerlo e António Costa Pinto, explicam as principais características de quem nos governa e o que distingue o país de outras democracias da Europa do Sul.


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Fundo cinzento esverdeado com uma imagem de um púlpito e o texto "Quem governa Portugal?" destacado.

Quando um novo governo toma posse, os portugueses conhecem alguns nomes, mas pouco se sabe sobre quem realmente ocupa os ministérios: são políticos de partido ou especialistas independentes? 

O nosso estudo, que analisa os perfis de todos os ministros portugueses desde o primeiro Governo constitucional até hoje, mostra que a resposta é mais interessante do que essa dicotomia.

Ao contrário da imagem tradicional de que a política portuguesa dá primazia aos independentes, os partidos nunca perderam o controlo do recrutamento ministerial. 

Cerca de quatro em cada dez ministros sem partido são, na prática, «semi-independentes»

É certo que mais de um terço dos ministros não tem filiação partidária: é a proporção mais alta entre Portugal, Espanha, Itália e Grécia. 

Mas cerca de quatro em cada dez destes ministros são, na prática, «semi-independentes»: colaboram de forma continuada com os partidos no poder, sem carteira mas com lealdade reconhecida. Entre os ministros filiados, 70% são «pesos-pesados» (dirigentes de topo dos seus partidos). É mais uma particularidade portuguesa face aos vizinhos do Sul da Europa.

O segundo traço distintivo é o peso da competência técnica. Portugal é o país da região onde os ministros têm mais formação académica, experiência profissional e de gestão relevantes para a pasta que ocupam. É também o país que mais recorre a «peritos», especialistas sem qualquer ligação partidária. 

Mas o perfil que realmente domina o governo português é outro: o "político-especialista", que junta carreira partidária e especialização técnica na mesma pessoa. 

Representa mais de um terço dos ministros desde 1976. Ainda assim, o PS recruta mais «peritos» e o PSD mais «político-especialistas».

No fundo, Portugal não escolhe entre política e técnica: pratica um «tecnocratismo endógeno», absorvendo a especialização na própria máquina partidária.

Este equilíbrio entre partido e especialização não é igual para todos. As mulheres que chegam ao governo são  «peritas» ou «político-especialistas» numa proporção maior do que os homens, como se a especialização fosse o preço de entrada num universo ainda maioritariamente masculino. 

Mesmo assim, continuam a ser residuais nas pastas mais centrais do poder, onde só chegam se tiverem carteira partidária: a independência, que noutras pastas é porta de entrada, aqui não basta.

No fundo, Portugal não escolhe entre política e técnica: pratica um «tecnocratismo endógeno», absorvendo a especialização dentro da própria máquina partidária. 

Compreender quem governa Portugal é perceber como os partidos continuam a moldar quem chega ao poder executivo, mesmo quando parecem abrir-se.

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