O poder militar alemão tem de agir por conta própria
Escolhido por Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE-IUL, este artigo da Foreign Policy fala sobre a necessidade de a Alemanha reforçar as capacidades militares nacionais, uma vez que é «o único país europeu que tem os meios financeiro para poder substituir o papel das tropas dos EUA na Europa».
Nos últimos tempos, as reações do passado têm reemergido um pouco por toda a Europa. Quando, em 2025, o chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou no Bundestag que a Alemanha devia esforçar-se por ter as forças armadas convencionais mais fortes da Europa, para isso alocando verbas orçamentais para a Defesa superiores às que qualquer um dos países vizinhos poderia suportar, o espectro do poder militar alemão voltou a assombrar a Europa.
Nos bastidores, alguns responsáveis franceses e polacos questionam se uma Alemanha rearmada pode realmente resolver a dependência da Europa em relação aos Estados Unidos ou se, pelo contrário, significa apenas trocar uma potência hegemónica por outra. Outros questionam se os membros europeus da NATO estão de facto a caminhar rumo a uma defesa verdadeiramente integrada do continente ou se, agora que já não contam com a liderança dos Estados Unidos, estão simplesmente a regressar ao modelo do passado, com exércitos nacionais que rivalizam entre si.
A reação negativa ante a perspetiva de rearmamento da Alemanha é, no entanto, simultaneamente industrial e estratégica.
Em junho, Berlim abandonou um programa franco-germano-hispânico para construir um novo caça — em parte, porque a Alemanha não aceitou que a maior parte do trabalho fosse adjudicada a uma empresa francesa — e rescindiu um importante contrato com um consórcio liderado pelos Países Baixos para construção de fragatas, tendo encomendado novas fragatas a um fornecedor da indústria de armamento alemã. Assim, dois dos maiores contratos de defesa da Europa foram desviados para a indústria militar alemã, nos termos estipulados pela Alemanha.
A indignação perante a remilitarização da Alemanha deve-se, na verdade, pelo menos em parte, ao facto de a França estar a perder o financiamento alemão e de não lhe ser prestada a deferência estratégica que há muito considerava garantidos.
O mal-estar em relação à possibilidade de a Alemanha agir por conta própria é tão antigo quanto a própria Bundeswehr [forças armadas alemãs, inicialmente da RFA]: em 1955, a Alemanha Ocidental só foi autorizada a rearmar-se mediante a subjugação a um apertado espartilho de alianças, precisamente para que o poder alemão nunca mais voltasse autonomamente. Para reforçar estas restrições, foram mantidas em território alemão, ao longo de várias décadas, centenas de milhares de militares das forças de ocupação — transformadas em aliados — dos EUA, do Reino Unido e da França.
Porém, todos os que temem a possibilidade de uma Alemanha poderosa agir por conta própria têm de encarar uma verdade incómoda: a NATO precisa que as forças armadas alemãs — alicerçadas na maior economia e nos maiores recursos financeiros do continente — disponham de uma forte capacidade militar. Por isso, a Alemanha tem o potencial para substituir os Estados Unidos como espinha dorsal militar e elemento integrador do bloco europeu. Contudo, por enquanto, a Bundeswehr está longe de ser suficientemente forte para desempenhar esse papel.
Paradoxalmente, para conseguirem reforçar a defesa coletiva da Europa e atuar como um centro de coordenação a que as forças militares dos outros países europeus possam juntar-se, as forças armadas alemãs precisam, em primeiro lugar, de conseguir sustentar-se por si próprias — e de se tornar mais independentes da NATO. Em certos aspetos, é do interesse coletivo da Europa que a Alemanha aja por conta própria.
Porquê? Porque as atuais estruturas multinacionais da NATO são uma relíquia da era de paz que se instaurou na Europa do pós-Guerra Fria. Não estão preparadas para enfrentar, no século XXI, uma potencial guerra de alta intensidade com a Rússia. As forças europeias da NATO sofrem de uma desarticulação estrutural, de limites impostos pelos vários países e de cadeias de comando demasiado pesadas. Além disso, as forças multinacionais formadas pelos países europeus da NATO foram constituídas através de um processo de negociações diplomáticas internas que decorreu em tempos de paz — não resultaram de um esforço centrado na eficácia em tempo de guerra.
Agora que os Estados Unidos têm vindo a recusar o papel de coordenação e facilitação tecnológica da NATO, as desvantagens da estrutura atual da Aliança Atlântica vão multiplicar-se.
Acima de tudo, a Bundeswehr precisa de forçar uma mudança ao nível das estruturas de guerra da NATO. A Aliança Atlântica mantém cerca de nove quartéis-generais de forças multinacionais europeias, cada qual capaz de comandar, em teoria, até 60 000 soldados.
Cada um destes quartéis é liderado por uma ou mais «nações-quadro» e atribuído a uma região geográfica distinta, incluindo vários corpos colocados ao longo do flanco nordeste do bloco europeu. Acima do nível dos corpos de exército, a NATO tem comandos terrestres, que articulam os vários corpos de exército e definem antecipadamente as responsabilidades em tempo de guerra.
Aquilo que estes corpos têm de conseguir cumprir tem vindo a mudar rapidamente. É muito possível que uma eventual guerra entre a NATO e a Rússia assumisse uma escala e uma intensidade operacionais sem precedentes desde o fim da Guerra Fria. Num cenário de guerra deste tipo, será que os atuais corpos e divisões multinacionais da NATO conseguiriam realmente manter a coesão? O facto é que nunca foram postos à prova num combate a essa escala, embora seja precisamente assim que a NATO imagina um futuro conflito.
Além disso, os corpos da NATO são tigres de papel. Não são formações plenamente equipadas, mas sim quartéis-generais que aguardam o momento de mobilizar, coordenar e comandar os meios de artilharia, de defesa aérea e de ataque de longo alcance, os quais, na sua maioria, não possuem em quantidade suficiente.
A NATO tem de alterar profundamente a forma como constitui os seus corpos de exército e, para concretizar essa mudança, é fundamental que a Bundeswehr aumente significativamente as suas capacidades nacionais.
Em primeiro lugar, é preciso que cada corpo da NATO tenha o seu próprio armamento e outros recursos e equipamentos fornecidos pelo respetivo país líder, nomeadamente artilharia, fogo de precisão, defesa aérea, logística, serviços de informações, vigilância e reconhecimento. O cenário atual é muito diferente. Por exemplo, o 1.º Corpo Germano-Neerlandês tem um quartel-general estabelecido, mas — ao contrário dos corpo dos EUA, que são totalmente equipados — não dispõe de artilharia, defesa aérea ou serviços de informações permanentes ao nível do corpo.
Em caso de guerra, muitas destas e de outras capacidades teriam de ser geradas e integradas no corpo a partir da Bundeswehr, do Exército Real dos Países Baixos e das forças armadas de outros quantos países num contexto de súbita mobilização. Criar um quartel-general é a parte fácil. Gerar capacidades reais com alcance operacional — além de um plano capaz de as convocar rapidamente após uma ordem de mobilização — é a parte realmente difícil.
Talvez a Alemanha devesse tomar a Polónia como exemplo. O Corpo Multinacional Nordeste da NATO, que a Polónia lidera com a Alemanha e a Dinamarca, não tem mais recursos próprios do que o corpo germano-neerlandês. No entanto, assenta numa força nacional polaca que se tem desenvolvido muito rapidamente, dispondo de artilharia maciça, armas de longo alcance e, em breve, helicópteros de ataque Apache. Com uma única espinha dorsal nacional robusta e um só comando, é possível que a força liderada pela Polónia consiga alcançar mais depressa o poder de combate ao nível do corpo do que a força militar alemã, constituída a partir do contributo de vários países.
Em segundo lugar, para manter a coesão enquanto força de combate, um corpo de exército precisa de um quartel-general nacional ao qual as unidades aliadas estejam subordinadas. A liderança de um corpo militar só pode aceder de forma rápida, incondicional e totalmente integrada a todas as suas capacidades militares se tiver poder de comando sobre todas essas capacidades.
Ao abrigo do atual acordo de nações-quadro da NATO, essas capacidades são fornecidas por nações parceiras que mantêm a autoridade de comando nacional, impõem as suas próprias restrições e podem reter ou retirar os seus meios. Isto significa que todas as decisões relativas a missões e alvos correm o risco de ser vetadas por uma ou outra capital.
O histórico da Aliança Atlântica permite compreender as consequências operacionais do atual acordo. Quando, em 2011, se absteve de participar na intervenção da NATO na Líbia, a Alemanha retirou em poucos dias os seus membros das tripulações da frota AWACS [Airborne Warning and Control System – Sistema de Alerta de Controlo Aerotransportado], constituídas por militares de vários países da Aliança Atlântica. Assim, este recurso partilhado de importância fundamental ficou sem parte da tripulação devido à decisão política de uma única capital. Ao mesmo tempo, para atenuar o golpe, Berlim reforçou as tripulações dos AWACS da NATO no Afeganistão. Durante a guerra no Afeganistão, os processos de aprovação que dependiam das capitais europeias causavam atrasos sistemáticos nas operações, sendo a Bundeswehr uma das forças mais sujeitas a restrições
Haverá quem argumente que, perante um ataque russo à NATO, grande parte desse tipo de restrições e atritos desapareceria. Talvez. Porém, sustentar a defesa militar na esperança de que as políticas nacionais desapareçam subitamente quando estiverem sob fogo inimigo é uma aposta arriscada. Portanto, se Berlim quiser reforçar a defesa e o poder dissuasor europeus, tem de acelerar o seu próprio processo de tomada de decisões, bem como pressionar os outros países para que se libertem das restrições nacionais.
Nada disto significa que não se possam integrar determinadas unidades aliadas num corpo de exército liderado pela Alemanha ou por outro país. As brigadas neerlandesas, por exemplo, já integram algumas divisões alemãs; há uma brigada afiliada à 10.ª Divisão Blindada alemã e uma brigada romena encontra-se destacada na Divisão de Forças Rápidas da Alemanha.
Em terceiro lugar, para ser uma força de combate eficaz, um corpo de exército precisa de ter autoridade sobre as suas unidades, independentemente da nacionalidade de cada uma, muito antes do início dos combates. Atualmente, a vinculação funciona, em grande parte, apenas no papel e, na prática, é meramente episódica: as unidades aliadas destacadas para as unidades alemãs, por exemplo, apenas realizam exercícios ocasionais com elas, permanecendo maioritariamente aquarteladas nos seus países de origem. A coesão constrói-se em tempo de paz, ou não se constrói de todo. Os exercícios conjuntos, a terminologia comum e a confiança mútua entre os estados-maiores — que permitem que as ordens sejam transmitidas pela cadeia de comando num ritmo adequado à guerra — não podem ser improvisados depois de os combates começarem.
A 43.ª Brigada Mecanizada neerlandesa é um bom exemplo de vinculação: treina, planeia e é sistematicamente destacada como parte integrante da 1.ª Divisão Panzer alemã. Infelizmente, é um caso pouco comum.
É preciso que se pratiquem ao longo de todo o ano exercícios segundo os critérios do país líder, sob a cadeia de comando do país líder. E isso deve ser posto em prática no terreno, não em simulações realizadas nos postos de comando. As manobras do corpo de exército no terreno, em grande parte abandonadas após a Guerra Fria, são o contexto em que um corpo de exército de uma nação-quadro da NATO se torna real ou, pelo contrário, se revela um tigre de papel. Os exercícios de simulação não são suficientes.
Se Berlim quiser realmente tornar-se um pilar e um agente integrador da defesa e do poder de dissuasão europeus, as suas forças armadas têm, paradoxalmente, de se tornar mais nacionais.
Uma Alemanha capaz de liderar um corpo de exército completo em condições de guerra é uma Alemanha à qual o resto da Europa pode efetivamente aliar-se. No entanto, para que isso aconteça, é preciso que a arquitetura de comando, a doutrina e os meios de combate em profundidade que sejam detidos pela Alemanha estejam incondicionalmente à disposição de qualquer comandante que tenha de enfrentar um agressor no século XXI.
Se conseguir superar a reação instintiva de repulsa pelo poder militar alemão, o leitor verá que o reforço militar alemão é uma boa notícia para a capacidade dissuasora da Europa. Temos finalmente de pensar na NATO como uma aliança em tempo de guerra, e não como um instrumento de gestão de alianças em tempo de paz.