A Europa regressou a 1952
Escolhido por Raquel Vaz-Pinto, investigadora do IPRI-NOVA, este artigo da Foreign Policy faz uma análise «bem fundamentada da tensão que existe, em matéria de defesa, entre interesse nacional e interesse europeu e, mais precisamente, entre os dois pesos-pesados da União Europeia: Berlim e Paris.»
Quando, recentemente, perguntei a um diplomata sénior europeu qual era, na sua opinião, a principal lição a retirar da reunião dos líderes da NATO que se realizou em Ancara, Turquia, nos passados dias 7 e 8 de julho, ele respondeu sem hesitar: «Esta foi a primeira vez em que todos os líderes europeus agiram como um só grupo, sem que nenhum deles tivesse rompido fileiras dobrando-se em quatro para tentar agradar a Donald Trump.»
Pode assim parecer que os países europeus, há muito dependentes da proteção militar dos EUA, estão finalmente a organizar-se. No entanto, esta recente coesão não significa que estejam prontos para construir uma defesa europeia coletiva, forte e determinada.
É certo que os países europeus que tradicionalmente dão maior prioridade à relação transatlântica poderão finalmente aceitar que os Estados Unidos se retirem gradualmente das responsabilidades de defesa da Europa. No entanto, por ora, os países europeus continuam a depender fortemente das empresas de armamento americanas; em 2024, gastaram 68 mil milhões de dólares em produtos de defesa nos EUA, contra uma média anual de apenas 11 mil milhões entre 2017 e 2021.
Para piorar as coisas, uma divisão significativa emergiu entre as duas maiores economias da Europa: a relação de confiança entre a Alemanha e a França, central para a estruturação da defesa europeia, está em crise.
É um problema para toda a Europa. A integração europeia iniciou-se em 1952 — sob o lema «guerra nunca mais» —, quando a França e a República Federal da Alemanha (juntamente com a Itália, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo) colocaram indústrias fundamentais para a produção militar sob a alçada de uma autoridade supranacional. Fizeram-no com um único objetivo: tornar impossível uma nova guerra mundial.
Agora, depois de um longo período de paz e décadas de incúria relativamente às questões militares, e cada vez mais em perigo devido às ameaças híbridas e militares convencionais da Rússia, as potências tradicionalmente belicistas da Europa voltaram a investir nas suas indústrias nacionais — não em conjunto, desta vez, mas de forma cada vez mais isolada. Só nos últimos dois meses, um projeto franco-alemão de defesa colapsou com grande estrondo, enquanto outros ficaram paralisados.
Vejamos, primeiro, o colapso. Concebido como um projeto emblemático da integração europeia em matéria de defesa, o projeto Future Combat Air System (FCAS) deveria simbolizar a capacidade da Europa para superar as rivalidades industriais entre países através de um objetivo comum — a construção de um caça franco-alemão. O fracasso do projeto, anunciado no início de junho, mostra que a fragmentação industrial está de volta à Europa, o que dificulta a cooperação em iniciativas de defesa comum precisamente quando estas são mais necessárias.
O FCAS, no qual a Espanha também participou, fracassou acima de tudo por uma razão: os dois principais contratantes não conseguiram trabalhar em conjunto. A empresa francesa Dassault, que era de início o contratante principal, quis manter a liderança, ao mesmo tempo que surgiram alegações de que mal deixava que o seu parceiro alemão, a Airbus Defense, participasse ativamente no processo. Os executivos da Airbus confirmaram dificuldades em chegar a um acordo sobre propriedade intelectual e patentes.
Tratou-se sem dúvida de um caso em que o nacionalismo industrial minou a cooperação em matéria de defesa. A situação saiu do controlo porque, na Europa, não existe um quadro para a partilha de tarefas em projetos de defesa e, igualmente importante, para a distribuição de ganhos futuros (incluindo não militares) gerados pelo know-how e pela propriedade intelectual.
Na ausência de regras e regulamentação, quem tem mais poder fica com tudo. Foi precisamente o que aconteceu no passado em setores que não eram na altura regulamentados (ou que eram mal regulamentados), como os bancos e as empresas farmacêuticas.
O fiasco do FCAS mostra o quanto é necessário e urgente instituir regras europeias sobre a partilha justa do trabalho e da propriedade intelectual no domínio da indústria da defesa, até porque, perante a ameaça russa e a retirada dos EUA da Europa, os países e as empresas estão a investir a toda a velocidade na defesa, criando projetos conjuntos.
Por exemplo, a França, a Alemanha, a Itália e a Espanha estão a trabalhar num Eurodrone. Vários países estão envolvidos na construção de um escudo espacial, seja prestando assistência à Ucrânia, seja produzindo em conjunto com a Ucrânia. Ainda este mês [julho de 2026], uma «coligação antibalística» composta por Alemanha, Espanha, França, Itália, Noruega, Países Baixos, Suécia, Reino Unido e Ucrânia reuniu-se em Paris na véspera do Dia Nacional da França, com o objetivo de coordenar esforços e indústrias para produzir sistemas antimísseis capazes de intercetar armas russas dirigidas contra alvos civis ucranianos.
A 14 de julho, tropas estrangeiras — nomeadamente da Ucrânia — marcharam em Paris para demonstrar a determinação europeia.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, esteve presente. Mas agora, em vez de serem a França e a Alemanha a unir recursos para comprar ou produzir armas em conjunto, como fizeram na década de 1950, são os países mais pequenos a fazê-lo, através de aquisições conjuntas financiadas pela União Europeia. Incapazes de produzir sozinhos as armas de que necessitam, os projetos conjuntos são a sua opção mais económica e eficiente.
Tudo avança a um ritmo vertiginoso. Os montantes envolvidos são astronómicos. Depois de, na década de 1990, a partir da queda do Muro de Berlim, terem reduzido drasticamente os gastos com a defesa, os países europeus estão agora a recomeçar praticamente do zero. De acordo com dados recentes da NATO, entre os membros europeus da aliança e o Canadá, os gastos com a defesa em 2025 foram 20% superiores aos de 2024. Embora esta hiperatividade crie oportunidades, corre-se o perigo de se transformar numa selva em que as empresas maiores, apoiadas pelos governos nacionais, empurrem as outras para fora do mercado.
Foi por isso que o projeto franco-alemão de construção de caças fracassou. A Alemanha e a França têm fabricantes de armamento muito poderosos, que aparentemente desconsideram as decisões dos líderes políticos dos seus países no sentido de cooperarem a nível europeu.
Enquanto o presidente francês Emmanuel Macron queria transformar o FCAS numa montra da coprodução franco-alemã, simbolizando a autonomia estratégica e a soberania que a Europa tem vindo a reconquistar, a Dassault decidiu excluir os seus parceiros alemães de tudo. Os alemães, que pagaram metade da conta, queixaram-se amargamente. A questão foi levantada várias vezes ao mais alto nível político — até que Merz finalmente se fartou e, em junho, pôs fim ao projeto. Os espanhóis nem sequer foram informados.
Se, a partir de agora, a França e a Alemanha decidirem reconstruir as suas capacidades militares a uma escala sobretudo nacional, a Europa voltará ao ponto de partida. Afinal de contas, a conjugação entre as máquinas de guerra nacionais e a proteção dos EUA conseguiu assegurar 80 anos de paz no continente.
Se a breve trecho os países europeus puderem travar novamente guerra uns contra os outros, como não acontecia desde há oito décadas, então a única linha de ação possível será a regulamentação das indústrias de defesa nacionais, mais uma vez colocando-as sob a alçada de uma autoridade supranacional.
Isso não significa que a defesa não possa ser nacional. Desde que os países produzam armas e equipamento e os adquiram uns aos outros num mercado de defesa da UE bem regulamentado, e desde que essas aquisições sejam feitas de forma coordenada (de modo a ajudarem-se mutuamente, recorrendo a sistemas de armamento com software compatível), não há grandes motivos de preocupação. Na realidade, os países mais pequenos já estão cada vez mais a fazer isso mesmo. O problema começa quando não existe um plano de conjunto europeu e, por conseguinte, a Alemanha faz aquisições quase exclusivamente a fábricas alemãs e a França a fábricas francesas.
Será que os alemães aprenderam com o fiasco do FCAS? A avaliar pela declaração do CEO da Airbus, Michael Schoellhorn, segundo o qual «queremos que a indústria alemã desempenhe um papel central», a resposta é não.
Havia quem tivesse esperança de que a Alemanha reagisse formando um consórcio verdadeiramente europeu com empresas não alemãs. Tendo-se tornado vítima do nacionalismo industrial, argumentavam, Berlim não faria o mesmo a terceiros e, em vez disso, optaria por uma solução pan-europeia.
Não foi, porém, o que aconteceu: a Alemanha lançou um novo programa para a construção de caças, o Team Gen 6, liderado pela Airbus, em parceria com várias empresas alemãs. Em suma, é muito possível que a Alemanha pretenda vingar-se, criando um gigante nacional capaz de competir com a Dassault.
O projeto do carro de combate KNDS, de propriedade conjunta de empresas francesas e alemãs, também não está a ganhar ritmo. Mais uma vez, a Alemanha está alegadamente insatisfeita com a partilha de propriedade e começou a desenvolver o seu próprio carro de combate. O novo consórcio criado para esse fim inclui algumas outras empresas europeias, mas é liderado pela Alemanha, excluindo as empresas francesas. Entretanto, o Sistema Franco-Alemão de Guerra Aérea Marítima, um programa de patrulha marítima, também esmoreceu. Quanto a um projeto espacial e de satélites (envolvendo uma constelação de até mil satélites para reconhecimento e comunicação), a Alemanha acaba de excluir o parceiro francês com quem inicialmente planeava trabalhar.
Com a França e a Alemanha — os motores tradicionais da integração europeia — em desacordo quanto a projetos de defesa ou mesmo em busca de vingança, cabe agora aos restantes países cortar o rancor pela raiz e promover regras europeias para a distribuição do trabalho e da propriedade intelectual no setor.
Neste cenário, talvez os países nórdicos pudessem intervir. No olho da tempestade geopolítica global, países como a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia, ladeados pelos Estados Bálticos, pelo Benelux, pela Polónia e pela Noruega — que não é membro da UE —, sentem na pele a urgência de implementar projetos conjuntos e, pela primeira vez, começam a fazer-se ouvir e a tomar a iniciativa em Bruxelas.
A Suécia, em particular, com uma forte indústria de defesa, «pode emergir como uma força agregadora da defesa europeia», escreve Shahin Vallée, diretor do programa de geoeconomia do German Council on Foreign Relations, um think tank sediado em Berlim. De «país neutro e bem armado que se mantém à margem», diz Vallée, o país está a tornar-se o centro das atenções na Europa, assinando contratos com várias empresas e países — incluindo a França e a Alemanha, embora nunca os dois em conjunto.
Será que os países mais pequenos da Europa do Norte podem constituir uma espécie de âncora para a defesa europeia ou, pelo menos, servir de contrapeso suficiente ao disfuncional eixo franco-alemão de defesa? E até que ponto esta disfuncionalidade pode tornar-se tóxica para a Europa se a extrema-direita chegar ao poder em França ou na Alemanha?
Há muitas questões que permanecem em aberto. Mas uma coisa é certa: as respostas acabarão por revelar se os europeus aprenderam ou não alguma coisa com a sua história recente.