Em França, os incêndios florestais estão a devorar a política
No dia 24 de julho, uma sexta-feira, no Sudoeste de França, os bombeiros combatiam incêndios florestais de uma violência inédita até então, tendo testemunhado um fenómeno igualmente inédito: um pirocumulonimbus, mais conhecido como uma nuvem de fogo (fire cloud). Estas nuvens de fogo são comuns no Oeste dos Estados Unidos e no Canadá e consistem em tempestades dentro de outras tempestades, provocadas por quantidades extraordinárias de calor e energia que expelem enormes colunas de fogo, as quais originam tornados de fogo que carbonizam tudo e todos no seu caminho.
Entretanto, há um outro tipo de pirocumulonimbus, não menos inédito, que tem vindo a causar estragos no panorama político francês. Refiro-me ao crescente atrito entre os extremos ideológicos, em vias de criar um inferno capaz de consumir os partidos que se encontram no meio — e talvez até de deixar em cinzas os próprios alicerces do regime da Quinta República francesa.
A Quinta República — o abrigo político que Charles de Gaulle construiu para a França em 1958 — sempre foi um sistema de dois blocos. A ascensão meteórica de Emmanuel Macron à presidência, com uma candidatura independente e um partido novo (La République En Marche!), quebrou irremediavelmente essa tradição, e as eleições legislativas antecipadas convocadas por Macron em 2024 deram-lhe o golpe final.
Depois de apurados os resultados eleitorais, não havia dois, mas sim três blocos: um bloco de extrema-direita, alicerçado no sucesso impressionante do Rassemblement National (RN) de Marine Le Pen; uma coligação instável de esquerda (que acabou por se desmembrar), dominada pelo partido de extrema-esquerda La France Insoumise (LFI), de Jean-Luc Mélenchon; e o que restava do partido de Macron, que falhou redondamente em fazer jus ao seu novo nome, Renaissance. Desde então, o país tem assistido aos esforços desesperados do governo para aprovar projetos de lei e à inconstância de um presidente mais atento à marca que deixará para a posteridade do que aos seus concidadãos.
A menos de oito meses das eleições presidenciais, agendadas para abril de 2027, os incêndios que assolam a França ocidental lançam uma luz sinistra sobre a paralisia política em Paris. Ao longo do mês de julho, enquanto os incêndios consumiam casas, quintas e empresas na Gironda, a classe política parisiense entreteve-se com uma fogueira de vaidades: em vez de se empenharem em preparar o país para mais e pior no futuro próximo — devido às alterações climáticas —, os políticos ocuparam o seu tempo a atribuir culpas uns aos outros.
Todas as figuras com algum peso político concordam que os recursos humanos e materiais da França para combater os incêndios se revelaram tragicamente insuficientes para enfrentar estes infernos de chamas. Porém, discordam ferozmente sobre a natureza inevitável ou não desta escassez de recursos.
No centro do debate tem estado a frota envelhecida de Canadairs, os aviões anfíbios de combate a incêndios à disposição do país. Embora a frota reúna uma dúzia de aviões, cinco estão fora de serviço desde o início dos incêndios, o que reduz a sua eficácia para quase metade. Como seria de esperar, houve personalidades de todo o espectro político a juntarem-se a um coro de críticas, responsabilizando o governo de Macron pelo mau estado destes meios de combate aos incêndios.
A realidade é, contudo, mais complexa. Macron fez do ambiente um tema central de ambas as suas campanhas presidenciais, pelo que, agora, os seus adversários políticos usam as palavras do presidente como arma de arremesso, chamando a atenção para o fosso entre aquilo que Macron defende e aquilo que consegue concretizar.
Em fim de mandato, Macron facilitou-lhes a tarefa ao afirmar que ninguém poderia ter previsto a intensidade das vagas de calor e de incêndios que atingiram a França neste verão. Trata-se, por dois motivos, de uma afirmação paradoxal. Em primeiro lugar, o presidente reagiu às tempestades de fogo deste ano repetindo o mantra «Qui aurait pu prédire?» («Quem o poderia ter previsto?»), o mesmo que proferiu pela primeira vez aquando das vagas de calor de 2022. Em segundo lugar, é estranho que um presidente empenhado no combate às alterações climáticas não saiba que desde há muitos anos os cientistas ambientais preveem, de facto, a ocorrência deste tipo de fenómenos meteorológicos extremos.
Por sua vez, o RN — partido à extrema-direita do Renaissance — continua em grande medida mergulhado na Idade das Trevas. Conforme demonstra uma análise do histórico de votações recentes no partido, este tem, de forma consistente, apoiado os cortes propostos pelo governo no orçamento para a proteção civil, o que afeta as forças terrestres e aéreas de combate a incêndios.
Muitos dos militantes do RN continuam a negar a existência das alterações climáticas e desprezam os alertas cada vez mais prementes do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas, uma organização global de cientistas climáticos.
Assim, o RN está preso entre a espada das sucessivas vagas de calor e a parede de tempestades de fogo devastadoras. Como seria de esperar, Le Pen e os seus colegas de partido têm-se dedicado, simultaneamente, a criticar a escassez de aviões Canadair para combater os incêndios e a escassez de aparelhos de ar condicionado para aliviar as vagas de calor.
À esquerda, como também seria de esperar, as posições relativamente às questões ambientais são claramente mais ecológicas. Desde o Partido Socialista, de centro-esquerda, até ao LFI, de extrema-esquerda, os partidos têm votado sistematicamente a favor do reforço dos recursos públicos disponibilizados para o combate aos incêndios. Além disso, colocaram as alterações climáticas no centro das suas plataformas políticas.
É o caso, claro, dos Ecologistas, liderados por Marine Tondelier, mas também do LFI. Mélenchon tem tecido duras críticas ao governo, que acusa de agir como se a «crise ecológica global não passasse de um problema temporário» e como se «os aparelhos de ar condicionado fossem a solução para as vagas de calor».
Chegou mesmo a propor que se criasse uma nova versão do mapa da França, em que as atuais regiões dotadas de alguma autonomia política fossem transformadas em «ecorregiões», com amplos poderes, suficientes para responder às alterações climáticas. Num discurso inflamado que proferiu num recente comício realizado na região da Bretanha, o líder do LFI declarou que o seu plano iria «transformar a República Francesa numa república ecológica».
Na opinião dos muitos críticos de Mélenchon, porém, é mais provável que ele transforme a França numa república demagógica.
Mais de uma vintena de figuras políticas, da extrema-direita à extrema-esquerda, já apresentaram a sua candidatura às presidenciais do próximo ano, ou estão prestes a fazê-lo. Em ambos os extremos do espectro político, há muito que os candidatos assumiram um protagonismo que se sobrepõe aos dos respetivos partidos.
Na extrema-direita, Le Pen, que foi autorizada a candidatar-se enquanto corre em tribunal um recurso contra a sentença judicial que a condenou num caso de desvio de fundos da União Europeia para o RN, já iniciou a campanha eleitoral. A seu lado, com um sorriso forçado, surge Jordan Bardella, o segundo na hierarquia do partido, que se preparava para assumir a candidatura quando esta lhe foi subitamente retirada e a quem atribuíram agora o papel de um Sancho Pança com um fato à medida. É a quarta tentativa de Le Pen para chegar ao Palácio do Eliseu.
Na extrema-esquerda, Mélenchon já iniciou a sua campanha presidencial há vários meses. Depois de duas tentativas fracassadas de passar à segunda volta, o ex-militante do Partido Socialista, de 74 anos, espera que à terceira seja de vez.
A esperança não é irrealista: segundo as sondagens mais recentes, apesar de merecer a preferência eleitoral de 16% — menos de metade dos 35% de Le Pen —, Mélenchon encontra-se em empate técnico com Édouard Philippe e Gabriel Attal, os candidatos centristas. (Ambos exerceram o cargo de primeiro-ministro sob a Presidência de Macron e nenhum deles procurou obter o seu apoio; apenas 1 em cada 5 eleitores franceses aprova o desempenho do atual presidente, razão pela qual o apoio de Macron seria um presente envenenado.)
Em muitos aspetos, Le Pen e Mélenchon personificam o velho ditado segundo o qual os extremos se tocam. Ambos preferem assumir-se como líderes de movimentos e não de partidos, demarcando-se assim da política tradicional, cuja reputação está em queda. De igual modo, ambos nutrem pouca simpatia pela República gaullista. Mélenchon tem vindo a defender a criação de uma Sexta República, que afastaria de cena as «instituições perigosas» da Quinta República. (Importa referir que a Sexta República foi uma das principais reivindicações do movimento dos «coletes amarelos», que abalou o primeiro mandato de Macron e ameaçou pôr-lhe um fim prematuro.)
Mélenchon insiste que a Quinta República já ultrapassou o seu prazo de validade. Segundo ele, encontra-se em avançado estado de decomposição, uma vez que, conforme se afirma no site do LFI, «cada geração é um novo povo», merecendo, por isso, uma nova Constituição. A corroborar esta afirmação, Mélenchon sublinha o facto de, no período de vida da Quinta República, as mulheres terem conquistado vários direitos, incluindo o direito à contraceção, ao aborto e à paridade de género, ao mesmo tempo que a população se tornou mais inter-racial.
O site ignora totalmente, porém, a flexibilidade das instituições que inscreveram esses direitos na atual Constituição, tal como não explica os motivos por que as alterações na composição étnica da população obrigam a uma nova Constituição e a novas instituições.
Além disso, Mélenchon — que cita Maximilien Robespierre, o líder revolucionário que instituiu o Reinado do Terror em França — sonha com uma república onde todo o poder resida na assembleia legislativa. Ignora, assim, quer a carnificina do Terror, quer os estrondosos fracassos de duas repúblicas parlamentares anteriores, cuja paralisia e indecisão deram origem a golpes de Estado. (No primeiro caso, a Segunda República deu lugar, em 1851, a Napoleão III; no segundo caso, cerca de um século depois, De Gaulle assinou o obituário da Quarta República.) Igualmente inquietante é o maior papel que Mélenchon pretende atribuir aos referendos, o mesmo instrumento populista a que Napoleão III e De Gaulle recorreram para se manterem no poder.
Não será por acaso que a aparente convicção de Mélenchon de que só ele pode salvar a França anda de par com a retórica providencialista em torno de Le Pen. Embora não apele à criação de uma nova República e de uma nova Constituição, Le Pen deseja alterar profundamente estas instituições. Tanto assim é que há juristas franceses a alertar para o perigo de a líder de extrema-direita ter nos seus planos um espécie de golpe de Estado constitucional.
Tal como Mélenchon, Le Pen pretende aumentar drasticamente o recurso aos referendos, o que — na sua opinião — lhe permitirá criar uma nova norma constitucional que imponha la préférence nationale, ou «preferência nacional». Na prática, esta expressão aparentemente banal implicaria acabar com a cidadania por direito de nascimento em França e restringir os direitos sociais — nomeadamente, o direito ao emprego e à habitação — apenas aos cidadãos nacionais.
Os objetivos de Le Pen não só violam os princípios republicanos de 1789, como também entram em choque com a legislação acordada no seio da União Europeia; se concretizados, transformariam a França num país explicitamente racista e marginal.
Quanto à chamada «muralha republicana», que os principais partidos ergueram para combater as campanhas anteriores de Le Pen, desta vez há menos material de construção e ainda menos pedreiros dispostos a trabalhar em conjunto para a erguer. Entre os dois extremos ideológicos atuais, há uma profusão de candidatos, poucos dos quais têm hipóteses realistas de passar à segunda volta.
A maioria destes candidatos, com vários matizes de verde, provém da esquerda tradicional. Com admirável persistência, a líder dos Ecologistas tem-se empenhado em unir a esquerda, abrangendo as formações do centro-esquerda à extrema-esquerda; contudo, a profunda antipatia entre Raphaël Glucksmann, do mesmo partido que Tondelier, e Mélenchon, do LFI, faz com que os seus esforços se assemelhem a um trabalho de Sísifo.
Nada disto é um bom augúrio para o futuro da Quinta República. Brice Teinturier, diretor da agência de sondagens Ipsos, fez notar que reina, entre a população, a «sensação avassaladora de que os políticos estão mais preocupados com as suas disputas internas em torno de 2027 e de que ninguém presta atenção às preocupações das pessoas».
Sébastien Lecornu, atual primeiro-ministro francês, colocou a questão de forma contundente: o verdadeiro risco, disse, é que os franceses estejam revoltados «com esta profusão de egos tão alheados da realidade». Enquanto, a França da Quinta República arde literalmente, o desencanto popular com os partidos tradicionais parece anunciar que as resilientes instituições e a Constituição dessa Quinta República também podem perecer num incêndio político de grandes proporções.