Inovar e diferenciar

Turismo

As cidades, o turismo e a cultura são instrumentos poderosos e fundamentais para a criação de um novo paradigma de crescimento económico centrado no valor. As reflexões que se seguem constituem uma adaptação dos elementos de análise e proposta contidos em diversos estudos, desenvolvidos sob minha coordenação pela Sociedade de Consultores Augusto Mateus e Associados, visando colocar em perspectiva os desafios e papel das cidades e do turismo na “invenção” de um novo paradigma de crescimento económico sustentável na sociedade portuguesa, onde, necessariamente, a criação de riqueza suportada pelas competências que permitem casar a inovação com a diferenciação deve assumir o principal protagonismo.

A crise de competitividade da economia portuguesa, que, para além dos profundos desequilíbrios financeiros, caracteriza a presente crise económica, nomeadamente nas suas dimensões de estagnação e elevado desemprego, exige, com efeito, uma participação na globalização muito mais activa e articulada com a qualidade e sustentabilidade do desenvolvimento económico e social interno.

Numa economia mundial que vive uma segunda grande fragmentação, agora das actividades no seio das diferentes cadeias de valor, e onde o ritmo do crescimento económico se tornou muito mais desigual, muito mais forte nas economias emergentes do que nas economias mais avançadas, a natureza dos processos de criação do valor económico tornou-se fundamental para garantir, ou não, níveis adequados de crescimento e de emprego.

Nas economias mais avançadas, especialmente nas economias europeias mais sujeitas à perda de dinamismo económico induzida pelo envelhecimento da população, a inovação e a diferenciação dos processos e dos produtos constituem um caminho inescapável para voltar a crescer e a gerar empregos suficientes para satisfazer procuras sociais mais qualificadas.

A economia baseada no conhecimento, o novo papel das cidades como espaços privilegiados de criação de riqueza e a crescente interpenetração das actividades materiais e imateriais, da produção de bens e de serviços, constituem realidades e propostas que devam ser levadas muito a sério.

O futuro das economias europeias, bem como da economia portuguesa, depende decisivamente da respectiva capacidade de colocar a cultura, a criatividade e o conhecimento no centro das actividades económicas.

Em Portugal, a aceleração da internacionalização da economia constitui uma condição necessária para a superação da crise estrutural de competitividade.

A inovação e a diferenciação são decisivas para promover a competitividade não-custo, a competitividade valor, e elas dependem da combinação entre a mobilização do conhecimento, a valorização da cultura e o fomento da criatividade, seja ao nível do capital humano, seja ao nível da organização das empresas.

Criatividade ou morte

Os factores avançados de competitividade são escassos e diferenciados e desenvolvem-se endogenamente de forma cumulativa. Os seus efeitos de arrastamento difundem-se para montante e para jusante contribuindo de forma poderosa para dinamizar toda a actividade económica (efeitos de difusão, formas de eficiência colectiva, consolidação de ambientes empresariais mais favoráveis).

A economia é cada vez menos um caminho entre matérias-primas e produtos acabados, mas uma mistura cada vez mais explosiva de inovação e de diferenciação. Neste sentido, todas as indústrias serão culturais e criativas ou simplesmente não persistirão.

Cada vez mais exposta à concorrência internacional dos baixos custos da Ásia e do Leste europeu, a economia portuguesa só pode gerar um ciclo virtuoso de crescimento quando as actividades produtoras de bens e serviços transaccionáveis forem capazes de tirar partido dos factores mais avançados de competitividade ligados à inovação e à diferenciação, através da mobilização da investigação, do conhecimento, das competências, da criatividade, do património, da cultura.

Para superar a crise de competitividade, é crucial combinar com maior coerência a promoção de exportações, a substituição de importações e a utilização dos recursos endógenos como fontes de valor acrescentado e de melhores empregos.

Em vez de simples acções centradas em empresas, em produtos ou em sectores considerados individualmente, o reforço da capacidade concorrencial do tecido empresarial deve ser incentivado através de formas de eficiência colectiva, alicerçadas em redes empresariais colaborativas de partilha de experiências, de capacidades, de custos e de riscos, bem como em lógicas de aglomeração (clusters).

As questões relacionadas com a natureza do crescimento – inteligente, inclusivo e sustentável – e a qualidade da especialização económica – ligação entre actividades de concepção, produção e distribuição – constituem a marca distintiva das grandes orientações comunitárias para o ciclo de programação estrutural 2014-2020.

Criação como motor

Nesta nova geração de financiamento da União Europeia, o sector cultural e criativo só tem a ganhar com a secundarização das condições potenciais de competitividade (a envolvente, as infra-estruturas e os equipamentos) face à valorização das empresas como efectivos agentes portadores da competitividade.

Aceitando o país o repto da inovação e da diferenciação, a diversidade cultural e o talento das actividades criativas aplicados aos mais diversos sectores de actividade da economia portuguesa têm todas as condições para protagonizar a nova estratégia económica de utilização dos fundos comunitários.

O futuro das economias europeias, bem como da economia portuguesa, depende decisivamente da respectiva capacidade de colocar a cultura, a criatividade e o conhecimento no centro das actividades económicas

Em causa estão, nomeadamente, a articulação entre os domínios do crescimento inteligente, sustentável e inclusivo, e a articulação entre a cultura e a criatividade e as estratégias de especialização regional inteligente, onde se aprofunda a interpenetração entre as actividades de investigação, ciência e tecnologia e as actividades empresariais.

Em causa está o contributo da cultura e da criatividade para potenciar o valor dos produtos e dos serviços que Portugal transacciona com o exterior, através dos efeitos do seu derramamento ao nível do reforço competitivo do tecido empresarial do país.

Cidades na encruzilhada

As cidades, onde, nos nossos dias, se aglomera mais de metade dos habitantes do planeta, em função do recente e rápido crescimento das grandes cidades que protagonizam a liderança do crescimento económico mundial pelas economias emergentes, constituem os exemplos mais complexos e desafiantes das criações artificiais da humanidade.

A ideia de cidade nasceu associada à liberdade humana e, durante séculos, a atractividade da cidade permaneceu associada à liberdade de comércio e indústria, à liberdade artística e cultural e à liberdade propiciada por alguns serviços estruturadores da qualidade de vida e mitigadores dos grandes riscos que começavam a fazer o seu caminho.

Era o tempo das cidades onde a incerteza e o risco moldavam decisivamente as vidas humanas e os homens sentiam a possibilidade de “desafiarem os deuses”, num quadro onde prevaleciam os mercados locais e regionais, ainda que tocados por sucessivos ciclos comerciais de mercadorias oriundas de mercados externos, mais ou menos distantes.

As cidades modernas desenvolveram-se e consolidaram-se, impulsionadas pelas sucessivas revoluções industriais e pela plena afirmação de sociedades de consumo, onde a produção e o consumo de massas permitiram o protagonismo dos mercados e das instituições de base nacional, assumindo a forma de tecidos singulares e razoavelmente contraditórios de convergência de múltiplas cidades (da cidade residencial à cidade administrativa, da cidade logística à cidade industrial, da cidade do comércio à cidade do turismo, da cidade do conhecimento à cidade dos serviços, da cidade da cultura à cidade da criatividade, da cidade dos serviços e infra-estruturas de interesse geral à cidade da recuperação, reutilização e reciclagem dos resíduos, nomeadamente).

Foi o tempo em que as cidades conheceram um caminho longo de luz e nevoeiro, de ascensão e declínio, de ganho e perda de população, em que, na grande maioria dos casos, foram gerando mais problemas do que soluções, em que o congestionamento foi limitando a liberdade, em que o artificial se afastou perigosamente da sua indispensável base ecológica e em que níveis de complexidade e diferenciação não programados ou controlados minaram a coesão económica e geraram múltiplas formas de exclusão e desigualdade social.

O desenvolvimento das cidades confronta-se, hoje, com a aceleração da globalização, isto é, com a integração em profundidade de espaços económicos, sociais e culturais, com uma fragmentação e desintegração vertical das actividades produtivas à escala mundial sem precedentes, gerando uma clara prevalência do “made in world” no comércio internacional de bens e serviços não diferenciados (mercadorias) e forçando uma enorme reestruturação dos sistemas e modelos de governo onde as realidades nacionais vão perdendo grande parte da sua autonomia no quadro de uma crescente afirmação das realidades infranacionais e supranacionais.

É o tempo onde as cidades acumulam ameaças e oportunidades que geram desequilíbrios e dificuldades mas podem ter um balanço global bem positivo se as soluções (primado do olhar em frente gerando as forças para agarrar as oportunidades) se puderem impor aos problemas (primado do olhar para trás corrigindo as fraquezas). É, por isso, o tempo da afirmação das cidades com e não contra ou à custa, nomeadamente do mundo rural, da equidade social e de uma base ecológica sustentável. É, também, o tempo da diversidade criativa e da singularidade territorial, da eficácia construída mais sobre alto valor do que sobre o baixo custo directo associado à uniformização.

O impacto da globalização no turismo gerou uma actividade cada vez mais global ao nível da procura, mas ainda mais local e descentralizada ao nível da oferta de bens e de serviços

As ameaças correspondem, no essencial, à perda de coerência das redes materiais e imateriais que fazem a cidade e que, em muitos casos, se traduziu num acentuado declínio dos seus espaços mais centrais e numa desarticulação entre actividade, residência e emprego.

As oportunidades correspondem, no essencial, ao novo valor adquirido por territórios singulares polarizadores de competências e talentos, no espaço gerado pela globalização dos mercados, das cadeias de valor, das instituições e dos modos de vida.

As cidades capazes de produzir uma convergência aberta entre viver e trabalhar, residir e visitar, viver e investir, estudar e aprender, investigar e conhecer podem transformar-se em novos campos de produção de riqueza, onde a cultura, a criatividade e o conhecimento se transformam nos factores chave de competitividade e novas formas de serendipidade (sinergias resultantes da interacção na diferença) geradas pela articulação entre concepção, produção e distribuição de bens e serviços diferenciados permitem reconstruir as cidades como espaços de facilidades, de eficiência colectiva e de partilha ousada de custos e riscos.

Turismo transversal

O impacto da globalização no turismo gerou uma actividade cada vez mais global ao nível da procura, mas ainda mais local e descentralizada ao nível da oferta de bens e de serviços, isto é, marcada pelas características da sua localização territorial.

As viagens e turismo constituem assim um mecanismo de exportação que se diferencia por três aspectos principais.

Em primeiro lugar, os produtos e as experiências turísticas surgem como combinações complexas de bens e de serviços sujeitos a princípios de atractividade e de diferenciação que se organizam e se estruturam com base numa referência territorial determinante.

Os produtos e as experiências turísticas, para além de combinarem múltiplos bens e serviços, integram as características globais, reais ou percebidas, dos territórios (países, regiões, cidades e complexos), reforçando ou diminuindo a respectiva atractividade e competitividade. O desenvolvimento da base territorial dos produtos turísticos constitui, assim, uma alavanca de promoção da qualidade de vida dos residentes, na medida em que envolve a expansão da oferta de um vasto conjunto de serviços, nomeadamente de mobilidade, de saúde, de segurança e de lazer.

Em segundo lugar, o turismo surge como uma área absolutamente transversal de actividade económica, combinando vários sectores e produtos sob a égide do valor da experiência turística.

O turismo não pode ser concebido como um simples sector económico de fronteiras bem delimitadas, mas como uma vasta aglomeração não hierarquizada de actividades e tarefas (mobilidade, alojamento, restauração, artes, cultura, lazer, segurança e saúde, entre muitas outras) e activos (património natural e histórico, material e imaterial, paisagem e estética, museologia e arquitectura, entre muitos outros), protagonizada pelas próprias escolhas e iniciativas dos utilizadores (turistas).

Em terceiro lugar, as viagens e turismo surgem como um canal próprio de exportação centrado na mobilidade das pessoas, sendo os consumidores que se deslocam até aos mercados e locais de venda e não os produtos que são deslocados até aos mercados e aos consumidores.

Quando envolvem viajantes não-residentes no país, as viagens e turismo configuram um canal de exportação de bens e serviços mas também um veículo específico de internacionalização em termos de práticas empresariais, de hábitos de consumo e de formatos de negócio, nomeadamente. O alcance do canal específico de exportação aberto pelo desenvolvimento do turismo não se limita aos bens e serviços de consumo, podendo assumir, em vários domínios, uma importância determinante.

Com efeito, o turismo surge como um veículo fundamental na exportação do imobiliário de lazer, seja na forma de acesso à segunda residência, seja na forma da escolha de uma nova primeira residência para um ciclo de envelhecimento cada vez mais longo, tal como representa um elemento determinante na sustentabilidade da oferta de equipamentos e serviços numa lógica plurianual (como, por exemplo, na guarda e manutenção de embarcações na náutica de recreio) ou na viabilização de produções artísticas e culturais associadas à revitalização do património.

Geometria variável

A especificidade do turismo, actividade transversal onde importa compreender a inseparabilidade da competitividade das empresas da competitividade dos territórios, explica como se tem vindo a manifestar de forma mais mitigada neste sector o quadro global da reorganização e redistribuição do poder económico à escala mundial entre economias ditas avançadas e economias ditas emergentes.

Em causa está um jogo mais complexo entre factores competitivos, com a dimensão do património histórico e cultural acumulado, a extensão do património natural ainda preservado da pressão industrial e urbanística, os níveis salariais e a qualidade dos serviços a conjugarem-se com muitos outros aspectos para gerarem uma forte geometria variável.

As vantagens competitivas duradouras que a economia portuguesa acumulou em matéria de turismo constituem um activo para a imperativa viragem na afectação dos recursos e convergem para o alargamento da gama de actividades transversalmente aglomeradas em torno das viagens e turismo. Contribuirão também para a criação de riqueza e de empregos, ganhos de relevância dos cuidados de saúde na determinação das condições que suportam a qualidade de vida no longo prazo e a transição para um paradigma de consumo mais segmentado.

O vasto aglomerado transversal de actividades em torno das viagens e turismo em Portugal, considerando as despesas de consumo dos visitantes não residentes, constitui não só a principal base de exportação da economia nacional, como ocupa a melhor posição competitiva entre as principais actividades transaccionáveis nacionais em termos de comparação internacional e tem sido a que melhor tem resistido à concorrência das economias emergentes.

 

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