O último palmo de Lisboa

Reportagem

No limite norte da cidade de Lisboa, nas duas margens da auto-estrada que é o Eixo Norte-Sul, há ovelhas que pastam entre a zona histórica e os bairros de realojamento, paredes meias com os condomínios de classe média/alta. Retratos de uma coexistência nem sempre pacífica. Na Ameixoeira. O que o tramou foram os sacos de lixo. Um homem descuida-se e lá vão elas, “eh pá Grandona! Aqui, Andorinha”, o Traquina a ladrar e os chocalhos a confundirem plástico com erva. “Larga isso!”, lixo é veneno nas entranhas. Duas ovelhas finadas num par de meses. As carcaças e o prejuízo são fardo que carrega, também a dor, que “o coração está nos animais”. Já contou além de duzentas ovelhas, mas isso foi antes da “plantação de cimento”, quando a Ameixoeira eram quintas, camionetas pesadas de couve, tomate e queijo fresco a roncar até ao centro de Lisboa.

Abel Vicente nunca pousa o cajado. Herança do pai, é a sua companhia há três décadas. Tem 66 anos, o retrato tirado: “Há o filme do último moicano e eu sou o último pastor”. O seu rebanho é história incomum, 21 ovelhas na capital, balidos por entre prédios e asfalto. Traz o cão junto às botas de borracha, guarda-chuva na mão esquerda, olhar colado às ovelhas. Viver à moda do campo na cidade é difícil caminho, mais betão do que pasto. Chama o rebanho, “bora, bora”, a erva rasteira, uma nuvem de prédios no horizonte. Chuvisca, um pingo fraqueja-lhe na testa: “Isto é cidade e não é...”. Vive em Lisboa como se província fosse, o relógio ao mando dos animais, sempre a ideia de que a cidade bule longe. Há mais de meia dúzia de anos que não pisa o Chiado, a bem da verdade, só lá foi a contragosto “tirar a licença da Flaubert”. O castelo espreitou-o uma vez, sorriso ainda moço no casamento de uma prima.

 

A Ameixoeira reside no último palmo de Lisboa, limite norte ocidental da capital. Para lá da raia, terras de Odivelas e de Loures. Mas, para muitos dos que aqui vivem, o mapa é outro. Lê-se no sentimento que os acompanha quando precisam de cruzar a antiga periferia: “Tenho de ir a Lisboa”. A chegada do metro, de vias como o Eixo Norte-Sul e a proximidade da Segunda Circular diminuíram a distância do centro e promoveram a urbanização, mas isso são avanços que pouco mexem com a rotina de Abel. Já teve “cidade de sobra”, anos de bate-chapas na Estrela, na Alemanha: “Aqui no campo respira-se melhor”.

 

O dia envelhecido, Outono no pulôver coçado. O pastor atravessa a estrada, abre um pequeno portão, “fuck the police” gatafunhado na madeira. Traquina segue na dianteira, “anda, Gulosa”, as ovelhas em fila indiana, conhecem o trilho, sempre a fome da tarde naquele pedaço de mato. Os chocalhos na intimidade da Torre da Azinhaga, uma das áreas de génese ilegal que, ao longo do século passado, por ali cresceram. Na sua ideia, a “desgraça” principiou com a chegada dos prédios, “esta gente do [bairro de] realojamento até lixo atira pelas janelas”. O cajado em círculos na lama, um suspiro: “Duas ovelhas mortas, já viu o que é?”. Palavras enlutadas que o vento leva até ao Largo do Terreiro.

Benedito Pereira tem aqui a vida. Uma tábua deitada em caixas de cervejas é o seu banco. As costas amparadas na parede do café Nha, o pensamento às voltas pelas andanças da sua terra: “A Ameixoeira era o paraíso, isto agora tá tudo mudado”. À sua frente, do outro lado da rua, bancos de alvenaria acolhem velhotes, baralhos de cartas. O largo fica na passagem da Rua Direita da Ameixoeira, alma do chamado centro histórico. Benedito é “da criação” do pastor, conhecem-se das disputas de pião, partilham a mesma idade, iguais memórias: “Isto era campo... Onde fizeram o Eixo Norte-Sul eram quintas, havia uma taberna onde os velhos jogavam à laranjinha”. Suou 46 anos na construção civil, a reforma não vai além dos 310 euros, “o que me safa são os ganchos”. Traz o fato no compasso do lamento, calças pintalgadas, rugas estafadas. Pinta paredes, arranja portas, trata dos caixotes de lixo de quatro prédios. A mulher também tem uma boa reforma – arrasta-se como pode a limpar e a passar, o dia inteiro na casa de muitos patrões.

 

Passa um carro acelerado, música em altos berros, abeira-se a dona do café: “Atão, Pélinha!”. Todos o conhecem pela alcunha, ganha à conta do amor ao futebol e às proezas de um jogador italiano. Continua sentado, balanceia os sapatos gastos, o bigode. Mais um carro, outra carrinha, o filho a chegar, velocímetro e rádio no máximo. “Sabe como é a Ameixoeira agora? Lá em baixo, junto ao metro, só bairros chiques, la finesse, aqui é só pobreza, ali em cima, ciganada.” O mapa molda-lhe os dias. Há um par de anos, tentaram assaltar-lhe a casa, tijolo e quintal na Azinhaga das Galinheiras: “O cão atacou, nem sabe o que aquilo foi! Vieram os ciganos todos!”. O cigarro esquecido nos dedos, o sorriso há muito perdido: “Bom é ter bairros finos, sempre dá para ganhar algum”. Foi uma patroa da mulher, médica, que lhe valeu quando recebeu a neta ao colo. Puxa outro cigarro, tristeza em nuvens de fumo. Tinha sete meses, marcas de fome e abandono. “Coitadinha da menina, a mãe era da Musgueira, anda para ali na Alta de Lisboa, na droga...”

O norte da capital é velho conhecido de Cristina Simões, coordenadora do K’Cidade da Ameixoeira – programa de desenvolvimento comunitário levado a cabo com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa –, portas abertas no bairro social. O tempo tem mudado as feições do território. As quintas deram lugar a urbanizações, restam pedaços meio esquecidos. Ainda no Estado Novo, vieram os desalojados das grandes obras e das intempéries, gentes das aldeias em busca de melhor vida nas costuras da cidade. Ergueram tecto nas imediações do centro histórico, cultivaram o espírito rural. No primeiro respirar deste século, chegou o Plano Especial de Realojamento. “A implantação do bairro social foi a última grande transformação e marca muito o dia-a-dia.” Surgiram igualmente urbanizações com mil promessas de bom viver, “casas para classe média alta” e, em 2004, a estação de metro. “Esta é uma zona de fortes assimetrias.”

Terça-feira, tarde quente. Um raio de sol atravessa duas fiadas de prédios. O Bairro da Ameixoeira é um enclave, betão entre barrancos e baldios. Faltam transportes e a estrada que sobe da Torrinha até ao bairro é um fio de asfalto esventrado. As ruas ganharam nome, mas poucos os conhecem, vale o baptismo inicial, o bairro social dividido em zonas numeradas. A rua é morada de choros de criança, uma voz desafinada a ensaiar canção, um carro apressado, duas mulheres zangadas. Prédios altos, paredes cremes, 13 anos de vida a darem ares de 30. No K’Cidade, janela para o burburinho, Cristina Simões prossegue a radiografia: “Foram aqui realojados muitos agregados do Bairro das Galinheiras, alguns das antigas colónias e muitos de etnia cigana”. Integração é paz mais sonhada do que conquistada. Longe vão os primeiros tempos, desacatos e protestos contra a instalação das famílias ciganas de Vale do Forno a fazerem notícia de jornal, mas os problemas continuam presentes.

 

 

 

 

 

 

António Maia caminha pela Zona 3 como se a rua fosse a sala de estar. Cumprimenta um, logo outro. Veio das Galinheiras, alguns são velhos vizinhos. Aquando do realojamento, era já pastor da Igreja Evangélica Filadélfia, mais conhecida por igreja dos ciganos, e mediador comunitário. Juntou-se às vozes que pediram para não colocar mais do que uma família cigana por lote. “Temos a nossa maneira de ser, por exemplo, quem está de luto não quer ouvir barulho no prédio. Há muitos miúdos, andam à zaragata e os adultos acabam por se meter. Se estivéssemos mais dispersos, evitavam-se problemas.” O bigode aparado no rosto sério, o corpo redondo. Um palmo abaixo do seu olhar, um pequeno campo de futebol; à frente, numa corda estendida entre o tronco de uma árvore e um candeeiro público, enxugam dois cobertores. Mais adiante, num vazio entre lotes, um cavalo às voltas. “Sofremos muito com a mudança, havia guerras, roubos.” No chão, um jogo de crianças desenhado, “ladrois” de um lado, “pulicias” do outro.

Dois passos adiante, moradores vêem a tarde passar. À frente dos prédios, caixas de plástico pretas, daquelas de carregar fruta, guardam lugares de estacionamento. Estendem-se ao longo da rua, somam dezenas, não há um lugar à solta. António arruma explicações: “É para terem sítio para as carrinhas quando vêm da venda”. Três raparigas conversam no corredor que vai do passeio à entrada do prédio. Nenhuma alcança 30 anos, todas desempregadas. Ana Gonçalves, cabelo muito louro e mão na anca, apressa apresentações: “Eu cá vim de Cascais!” Uma sonora gargalhada pontua a ironia, os chinelos desassossegados na realidade: “Sou das Galinheiras”. O amor aos filhos a negro nos pulsos, Sandro e Bianca são letras tatuadas. O seu maior receio é ficar sem tecto, sabe bem que, volta e meia, alguém é despejado. É preciso dever rendas sem fim, mas o melhor “é ter o olho aberto”.

Sacode o cabelo, o sorriso: “Isto aqui já se vai dando tudo bem. Aquela cigana ali é minha amiga”. Atravessa uma idosa, revoltas na bata azul: “Disparates... Sabes o que é nossa amiga? A barriga quando não dói!” Marta Ferreira, filha a tiracolo, aproxima verbo: “Eu moro ali em baixo, na Zona 3, isto não é sítio para criar miúdos...” Passam dois homens escanzelados, corpos abandonados em marcha rápida: “Oh, estes vão comprar fruta...”. Droga. Encolhem os ombros, mudam a prosa: “Nas Galinheiras havia muito mais”.

Quatro prédios adiante, sentada à beira do passeio, está Prazeres Cruz, bata apertada no corpo roliço. A vida inteira em barracas, sempre a rua como prolongamento da casa e agora enfiada num terceiro andar: “Custa a gente habituar-se”. Mantém os costumes das Galinheiras, se a chuva não apoquenta, é na rua que gasta os dias. Mas as pernas já maçam e tudo fica longe, vender ovos vielas afora é sustento abandonado. Atrás de si, duas janelas emparedadas, lojas com vidros partidos. O que nunca pensou foi ver ratazanas “grandes como coelhos” no betão nem “tudo degradar-se tão depressa”. Na sua boca, o Bairro das Galinheiras renasce paraíso – a saudade tem destes mistérios. “As casas são boas, mas não há transportes e o ambiente é mau. Tá bem que também há muita gente séria.” Um vizinho alinha na roda: “No outro dia, atiraram um verniz pela janela, partiram-me o vidro do carro”. António Maia compõe a camisa, a voz de púlpito de igreja: “Até nós, ciganos, temos receio dos roubos. Uma senhora que veio da venda chegou a casa e tinham-lhe levado tudo, o frigorífico, o LCD...”.

 

As queixas dos moradores batem à porta de Sérgio Cintra, presidente da Gebalis, empresa que gere os bairros municipais. Também ele lamenta o rés-do-chão dos prédios ocupados por lojas, que é como quem diz, dores de cabeça. A lei exige a sua construção, mas quase não há alma que arrisque negócio. Mais não lhe resta do que magicar remendos, muitas vezes, emparedar. O fim das barracas e o realojamento na cidade de Lisboa foi feito em tempo recorde, muitas vezes sem margem para estudos aprofundados. “Cometeram-se alguns erros, o Bairro da Ameixoeira foi construído porque era preciso realojar todas aquelas pessoas, aproveitando o espaço disponível. À luz de hoje, a distribuição dos moradores não terá sido perfeita, mas foi impossível fazer melhor”, esclarece Helena Correia, socióloga com responsabilidades na administração da Gebalis.

O estudo de “Satisfação Residencial e Participação Cívica”, desenvolvido em 2011 pela empresa, traça o retrato das populações dos bairros sociais. Em comparação com o resto da capital, contam famílias mais numerosas, mais crianças. Menos jovens com escolaridade obrigatória, esmagadoramente menos licenciados. O desemprego atinge 46 por cento dos moradores e mais de 37 por cento estão dependentes de transferências sociais. Helena Correia tem a sua leitura dos números: “Muitas vezes, pobreza gera pobreza. É preciso apostar mais na educação, só assim é possível mudar hábitos e aspirações. Ao contrário do que aconteceu na restante cidade, nestes bairros não houve uma evolução da taxa de estudo, em alguns agregados registou-se até um retrocesso”.

 

Todas as luas, Abel Vicente mói saudades da G3. Nada sabe destes estudos e, em rigor, pouco lhe importa o bairro social. Guarda o rebanho numa quinta, como o pai fez a vida inteira, “nem sei bem quem é o dono”, soma patos, gansos, um galo no lugar de despertador. “Mas a Ameixoeira já não é a mesma...” Quatro vezes. Quatro madrugadas vítima de tentativa de roubo: “Queriam levar as ovelhas e os borregos”. Respira fundo, crava o cajado no chão: “Tivesse eu a arma que tinha em Angola...”. Desceu o oceano no Pátria, lançar âncora em Luanda e enfileirar para Nambuangongo. Numa emboscada, seis camaradas sem sopro, o furriel trespassado por “20 balas”. Não é amigo de violência, mas não se metam com as suas ovelhas. Endireita a boina, a arma bem “assustava a bandidagem”. Há muito trocou a cama de casal por um colchão na quinta, mal os cães ladram põe-se de pé. Está encostado a um velho portão, o rebanho aguarda ordem para bater em retirada do curral. Ao seu lado, José Dionísio, quase 70 anos, é eco da insegurança: “Abriram-me a cabeça para me roubar 15 euros, tive de levar 17 pontos”.

À sombra de uma árvore, Alexandre Martins tem os ouvidos nos homens e os olhos nas ovelhas. “Quieta, Henriqueta”, “espera aí, Malhadinha”. Conta 19 anos, anda a aprender o ofício de pastor: “Se isto aguentar, hei-de ficar a tomar conta das ovelhas.” Já teve outras ideias, ser veterinário ou informático, mas a vida “está pouco para sonhos”. A escola nunca lhe acertou nos afectos, não foi além do 9º ano e arranjar emprego parece miragem. Ainda andou de servente, mas “as obras acabaram”. Óculos, borbulhas de juventude e calças de fato de treino. Na vizinhança, mora a sede do SIS, o Instituto Superior de Economia e a Academia de Santa Cecília, possibilidades que jamais imaginou. O sonho nasce do que se conhece. Habituado a ver o rebanho e com um certo gosto pelo campo, aos 15 anos fez amizade com Abel. Lá anda, a pensar futuro num mundo em vias de extinção.

 

 

 

 

 

 

Leva os dias com o rebanho e as gentes da Torrinha, as noites no Bairro da Ameixoeira. Vive com os pais e um irmão na Zona 6, já nem sabe há quantos anos o elevador deixou de subir e descer: “Os ciganos destroem tudo, não há luz nas escadas, os contadores não têm portas, há vidros partidos...” Veio da Serafina quando as casas incomodaram a construção do Eixo Norte-Sul. O pai porteiro numa empresa, a mãe doméstica. Os vizinhos chegaram de Vale do Forno. “A gente tem que se dar bem com eles.” Aos poucos, uns e outros foram-se descobrindo, aceitando: “O meu pai esteve agora internado no hospital e os ciganos foram para lá todos”. Desde que tem carta e carro, o isolamento do bairro pouco o incomoda. O coração da capital, esse, é pulsar que pouco sente: “Isto ainda é Lisboa e tem o metro lá em baixo, mas só vou ao centro se preciso de tratar de papelada”. A burocracia é o único passaporte. 

Noite escura, céu pesado de chuva. A pouco mais de um quilómetro, Francisca e Maria enganam o cansaço do dia – escola, ginástica, trabalhos de casa. Francisca soma 10 anos, Maria fez cinco, uma loura, outra morena, o mesmo olhar verde brilhante. Vivem na Alta de Lisboa, freguesia do Lumiar, num dos seus muitos condomínios elegantes. A fronteira com a Ameixoeira é linha quase invisível, geografia e vivências tocam-se e influenciam-se. A reforma administrativa de 2012 uniu a Ameixoeira e a Charneca numa única freguesia, Santa Clara. A Alta de Lisboa abrange Santa Clara e, mais ainda, o Lumiar. O projecto nasceu promessa, ideia de transformar o norte da capital no espaço perfeito, casas aconchegantes, parques verdes, serviços. Os bairros sociais integrados nos condomínios, nenhum gueto como o Bairro da Ameixoeira. Mas o presente fica aquém do papel. “Se o projecto for concluído, apenas 20 por cento será de realojamento. O problema é que a venda livre abrandou demasiado”, explica a responsável da Gebalis, Helena Correia.

Lá fora, noite fria. Cá dentro, o termómetro na Primavera, Francisca e Maria sorrisos de manga curta. Nos rostos bonitos, os traços dos pais. João Bruto da Costa e Cristina Silva conheceram-se no Porto nos anos noventa, ela a estudar e ele a cumprir o serviço militar obrigatório. A paixão semeou caminho e o casal não mais se apartou. Cinco anos em casa da mãe de João a procurar morada certa. Percorreram imobiliárias, visitaram centenas de tectos. O desejo conduzia-os ao centro – Chiado, Castelo, Campo de Ourique –, mas a realidade levou-os à Alta de Lisboa. Ela jurista e ele agrónomo eram a imagem da classe média desafogada a quem o projecto piscava o olho. As maquetas faziam sonhar “outro Parque das Nações ou ainda melhor” e o apartamento era o que ambicionavam, três quartos, espaço para os filhos que haviam de ter. A inclusão de lotes de habitação pública pouco os assustou, na verdade, até a julgaram “interessante”. Ainda que fizesse mais vida no Saldanha, morada dos avós, João crescera no Lumiar, acostumara-se a apanhar o autocarro que vinha das Galinheiras, a passar junto à Musgueira para fugir ao trânsito. Em 2001, ainda em planta, assinaram escritura.

Estava Francisca pronta a espreitar mundo quando se mudaram para o Condomínio da Torre. Não havia por ali nada, além da promessa de tudo – avenidas, hotel, centro cultural, edifícios de escritórios, famílias a passear na rua. Os eixos viários foram surgindo, os prédios, as escolas e a reabilitação dos parques também, o resto nunca saltou do plano. Sentado no sofá, João Nuno encolhe os ombros: “Com a crise deixaram de se vender casas e o realojamento já estava feito, por isso, parece que eles são mais do que nós”. A vida entre “nós” e “eles”.

 

O prédio em frente é de habitação pública. Por fora, só a degradação os distingue, mas há muito mais do que a rua a separá-los. “Acho que a relação entre nós e eles é boa ou inexistente”, avança João. Cristina interrompe: “Não há relação”. João deita água na fervura: “Estou convencido de que a maioria das pessoas daquele lado têm comportamentos adequados à vida em comunidade, mas o que salta à vista é o lixo, o barulho, a vandalização dos espaços”. As miúdas no sofá, Cristina numa cadeira: “As pessoas deviam ter sido ensinadas a viver num prédio e, provavelmente, nós também temos muito a aprender”.

No primeiro Verão, chegaram a ter churrascos e uma piscina de plástico à porta, crianças em banhos de sol no capot dos carros, adultos em mantas no chão. Cristina leva os olhos à janela: “Às vezes, sinto-me um bocadinho defraudada... comprámos outra história”. Suspira: “Bem vistas as coisas, tem havido uma certa harmonização e foi feito algum trabalho nesse sentido, mas os estilos de vida continuam completamente diferentes. Estamos a perder uma excelente oportunidade de integração a sério, de os filhos destas pessoas terem outras perspectivas”. Não tem receio de andar na rua, mas nem lhe passa pela cabeça matricular as filhas na escola da esquina, tão pouco fazer vida de bairro: “Sinto-me um bocado prisioneira dentro de casa”. Até para comprar pão pega no carro e evita levar as miúdas à mercearia onde gosta de escolher fruta: “O ambiente é pesado”. João pouco vagueia pelo bairro, estaciona na garagem e sobe o elevador. Não dá fé de medos, mas sempre que Cristina chega mais tarde, fica inquieto até a chave rodar na fechadura. Ela olha em frente: “Se apostarem na concretização da Alta de Lisboa, o projecto é exemplar”.

 

Desconfiança é pau de dois bicos. José Maia olha os “prédios dos senhores” sem grandes simpatias, “vivem na garagem e no elevador”. Sabe bem o que é “gente da Alta, gente chique”, até numa casa no Chiado chegou a beber uns copos: “É tudo igual”. Pouco gosta destes assuntos, mas tem uma certeza: “Para eles, a culpa é sempre dos ciganos”. Veio ao mundo numa chabola, assim gosta de dizer barraca, sempre o verbo a fugir para espanhol. Foi em Moscavide, a parteira a pô-lo “cá fora”. Aos oito anos começou a cantar, “como era ciganito davam-se um ou dois tostões”. A vida afinou-lhe a voz, ensinou-lhe os amores de Julio Iglésias e as lágrimas do fado. Uma noite, em Alfama, um estrangeiro deu-lhe dois contos e meio de gorjeta: “Cheguei à chabola e a minha mãe ia morrendo, nunca tinha visto tanto dinheiro”. Quando as barracas da Avenida de Berlim tombaram, mudou-se para as Galinheiras. Viveu lá quase trinta anos, tempo para cair de amores “pela mulher mais bonita do bairro” e somar sete filhos. Os pais fizeram vida na venda, fazendas apregoadas no passeio, ele escolheu outra sorte. Os dias trocados pelas noites, a voz a entreter as boîtes da cidade, “casas de mulheres fáceis”. Gravou um disco, conheceu as estrelas da canção, apostou no guarda-fatos: “Era feio, mas vestia-me à galã. Tenho uns 30 fatos”. Agora, saudade é a palavra. “Das luzes, dos aplausos.” Da juventude. “Tenho 62 anos, só ferrugem...” O discurso mais velho do que o Bilhete de Identidade.

A demolição das Galinheiras trouxe-o para o Bairro da Ameixoeira, realojado na Zona 3. A mulher há muito era dor no peito, embarcou no pensamento de “ganhar dinheiro com a droga e eu não quis mais saber dela”. No desgosto, “a rapaziada que morreu à conta da droga nas Galinheiras e na Musgueira”. Guarda saudades da “vizinhança das barracas”,mas já se acostumou à nova morada. Leva as tardes junto ao prédio, a conversar com “outros ciganos”, a caminhar pela Ameixoeira e pelo Lumiar. Nos dias de festa, três ou quatro cervejas de um trago, respira alívios. A voz esquece a dor e ele reencontra-se numa “música romântica”, chora-se no Fado Vitória. Ao seu redor, as vidas aquietam-se para o ouvir. Aromas de urze e de lama/ Dormi com eles na cama. Outra cerveja, cigarro saudoso, alegrias no Fado Corrido. Eu tenho as pedras da rua/ Pra passear à vontade. O tempo num suspiro: “Sabe que mais? A Ameixoeira dava um bom fado.”

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