Cidade esponja

Campo/ Cidade

Por excesso de mitologia e ficção, a ideia de cidade transformou-se num conceito-esponja, impreciso e caótico. Na biologia molecular chamar-se-iam paisagens transgénicas e estaria a coisa resolvida. Acontece frequentemente usarmos palavras que pouco ou nada significam por significarem excesso de coisas. Fernão Lopes dizia da Lisboa de outros tempos que era lugar de muitas e variegadas gentes. Queria dizer que a condição urbana era feita de gente em quantidade e diversidade suficientes para que certas qualidades – como o cosmopolitismo – se lhes adequassem. Assim é ainda hoje.

À clareza da condição urbana corresponderia a precisão da sua geografia, o lugar da cidade. Nos séculos XIV-XV, Lisboa e outras cidades eram pouco mais do que um ponto no mapa; um aglomerado escasso com limites claramente definidos; um interior confinado ao lado de dentro da muralha e assim destacado de outros e vastos territórios por terras e mares. O exterior desse limite-muro-com-portas seria o campo, o território de uma sociedade herdeira de remotos servos da gleba e da quase escravatura do trabalho da terra. O campo seria o celeiro da cidade, uma reserva de solo para a sua expansão, trabalho para os camponeses e território de caçadas para os aristocratas, fonte de rendimentos e títulos. A oposição cidade/campo, antes de Rousseau e de os românticos terem encantado os campos, implicaria uma fractura social entre dominadores e dominados; entre os lugares do poder e os territórios administrados, entre um interior e um exterior virtualmente infinito ou, pelo menos, composto de vastidões e fronteiras imprecisas. Por aqui se funda a imagem mental da relação cidade/região com uma geometria simples e dualista composta por um espaço circular centrado num lugar que representaria uma polaridade (ponto) e uma área de influência (superfície); um centro (poder) e uma periferia (dependência).

Percebe-se neste imaginário a subalternidade dos campos e as relações assimétricas entre dominadores e dominados. As elites e a produção de conhecimento e de visões do mundo eram urbanocêntricas; os campos eram dos rústicos e, quando muito, poderiam também pertencer a uma geografia simbólica de éclogas e pastorais onde o físico e o metafísico, o natural e o sobrenatural, se cruzavam na cartografia dos estados de espírito: verdes são os campos, cantava Camões.

Pontos no mapa

A cidade era a figura que se destacava do seu fundo geográfico. Nos mapas, o desenho punctilista da cidade seria ponto ou círculo com nome próprio destacado na base neutra do mapa. A forma, o centro e o limite seriam atributos claros destes artefactos urbanos e que assim definiam um todo que lhe dava coerência e que organizaria o entendimento de cada uma das suas partes. Estava assim criada uma entidade holística que serviria de plataforma de compreensão de tudo o que fosse da cidade. Como numa máquina, as partes eram peças com funções precisas; como num organismo ou num corpo, haveria processos de (auto)regulação de equilíbrios e especializações orgânicas de funções. A imagem da cidade e a sua representação seriam um sistema fechado, aberto à relação e à troca: um dispositivo de organização social e territorial geograficamente centrado.

Outras crónicas continuaram até hoje a preencher e a alargar estes sentidos das cidades visíveis e invisíveis de muitas e variegadas formas, como se o modelo de referência da cidade fosse o de uma cidade-Estado: fronteiras definidas; aglomerado denso de formas edificadas; espaço contentor de uma determinada sociedade e sua visão do mundo e modos de vida; seu governo e administração. A cidade faria o pleno da urbs, da polis e da civitas. Seria densa e teria torres e praças. Podia ser também um campo de refugiados e teria tendas; seria uma realidade inscrita nos mapas ou uma utopia; uma coisa dos homens ou dos deuses.

Por aqui começam as confusões. Cidade, por excesso de mitologia e ficção, transformou-se num conceito-esponja, impreciso e caótico, que cabe numa palavra com recorte totalizante porque convoca, a partir de um qualquer particularismo que faça parte da sua mui polissémica condição, toda uma narrativa, um imaginário sem fim que todos julgam partilhar da mesma forma e com as mesmas representações e códigos de valor. Esse imaginário, de tanto martelado e burilado na alta e na baixa culturas, estendeu-se por esse mundo, descolando da sua condição histórica e do etnocentrismo europeu e transformando-se numa espécie de medida universal e transcultural. Fruto de uma certa concepção unidireccional da modernização, este genérico passou a sobrepor-se a tudo o que é diverso e diferente na tumultuosa história e geografia da urbanização. O genérico acompanhou a colonização das Áfricas, Índias e Américas e globalizou-se, como hoje se diz. A economia-mundo, a tecnologia-mundo e a cultura-mundo seriam a máquina de fazer cidades iguais deixando para a propaganda turística os exotismos e particularidades das suas gentes. Sobretudo, esta Era das Cidades é uma narrativa que não emana da realidade mas que constrói a própria realidade na visão de quem domina essa urbanização global. O capitalismo liberal que habita a globalização produz os mesmos arranha-céus por todo o planeta – todos diferentes, todos iguais. Tanto faz que se fale das fantasias do Dubai, do gigantismo de Xangai, da miséria de Lagos, da pobreza de Bombaim ou de São Paulo, da injusta infinitude da Cidade do México, de Macau, de Las Vegas ou... da Citânia de Briteiros; tudo cabe na cidade, incluindo filmes, novelas e até casual-urban-fashion, seja lá o que isso for.

Misturada nas concepções mais comuns sobre o processo civilizacional e sobre a modernização, a palavra-contentor-de-praticamente-tudo privilegia normalmente coisas positivas e luminosas. A cidade é um expoente civilizacional, um caldo de cultura e inovação. No ar da cidade respira-se liberdade, como se diz, repetindo até à exaustão um velho provérbio alemão que apenas queria dizer que na Alta Idade Média determinados vínculos que ligavam os camponeses à terra poderiam desaparecer se adquirida a cidadania na emergente ideologia burguesa que crescia sobre os escombros da ética feudal nas novas-velhas cidades. Cidadania, democracia, emancipação, etc. seriam valores urbanos herdeiros da velha polis.

A cidade dos deuses, dos príncipes, mercadores, guerreiros e banqueiros deu lugar à cidade das ciências e dos prodígios tecnológicos. Com a industrialização, a cidade passou a ser o locus do trabalho, o motor da economia, da prosperidade e da riqueza das nações. Com a sociedade da informação, passou a ser o lugar do conhecimento, o ecossistema da inovação, a cidade inteligente, como é vulgar ouvir-se na linguagem da construção da realidade por somatório de slogans e fantasias tecnológicas devidamente despolitizadas (ou assim parecendo). No entanto, é já verdade que o surto de escritos sobre a cidade ao longo do século XIX é um poço de contradições sobre realidades e mitos. A tecnologia – o mais estridente sinal da modernização –, que começa com o vapor e termina com o telégrafo, a electricidade, a motorização e os arranha-céus, acompanha as discussões violentas sobre utopias sociais, cidades-jardins, crises endémicas de saúde pública, pobreza e exploração operária, lutas sociais, visões futuristas de Américas e outros mundos novos, ou cidades-entrepostos coloniais para dominar territórios de além-mar. Peter Hall, no seu conhecido livro Cities of Tomorrow, foi buscar a um poeta a metáfora “The city of dreadfull night” para falar do século vitoriano e das suas cidades de miseráveis, barracos, carvão e ostentação. Começava aí uma urbanidade intensamente marcada por sistemas sociotecnológicos que distribuíam e segregavam próteses infra-estruturais e seus serviços (mobilidade, água, saneamento, energia, telégrafo...) em geografias urbanas muito distintas onde a uns faltava quase tudo e a outros nem por isso.

A urbanização da pobreza

Hoje diz-se (e pensa-se) que estamos num mundo onde a maioria das pessoas vive em cidades, pensando dessa maneira num mundo mais justo ou mais emancipado e “moderno”. A verdade é que essa afirmação contém outra bem menos positiva: a urbanização do planeta é, na sua maioria, a urbanização da pobreza: Planet of Slums, como escreve Mike Davis no seu livro homónimo.

As megacidades de que se fala no Grande Sul dos eufemisticamente chamados países em desenvolvimento da América Latina, de África, da Índia ou do Sudeste Asiático são expressões urbanas pós-coloniais mergulhadas num mar de contradições que admite:
– o socialismo esquemático e o capitalismo tribal (uma expressão que ouvi em Luanda);
– a pré-modernidade rural e os centros financeiros pertencentes à hipermodernidade global;
– os musseques, caniços, favelas, barriadas, bairros de lata, vilas-miséria, slums... e um sem fim de palavras para demonizar o grau zero das condições de alojamento onde não existe sequer água e saneamento;
– o contraste entre microterritórios intensamente infra-estruturados onde se fixam os actores principais do capitalismo global e outras elites em suas torres altíssimas ou condomínios fechados; e os extensos territórios onde a infra-estrutura é escassa ou mesmo ausente;
– a cultura-mundo e as idiossincrasias étnicas e respectivos conflitos ou fragmentações;
– os mosaicos complexos de crenças, extremismos e fanatismos religiosos;
– as democracias mais ou menos formais e as ditaduras cruéis;
– as cleptocracias e autênticos saques de riqueza, matérias-primas ou
solo agrícola, juntamente com gente que não tem nada de seu;
– as economias fracturadas entre a inserção directa no capitalismo global e a denominada informalidade que alimenta um intenso microcomércio de rua;
– a persistência de conflitos armados e violência organizada;
– bem como desastres naturais, epidemias e resorts tropicais ...

Estes e outros assuntos de uma lista em permanente expansão seriam ainda mais se considerássemos também as urbanidades do Golfo Pérsico ou da China. No conjunto percebe-se que este mosaico de diversidades tem pouco a ver com os modelos de referência na Europa, no Japão ou nos EUA, já de si muito diversos.

É muito difícil dizer se a Cidade do México, São Paulo, Lagos ou Bombaim são cidades, querendo com isso designar uma ideia de todo que sirva como descritor de uma determinada formação social e seu território. A extensão, a fragmentação, o contraste e a contradição dominam sobre qualquer ideia de conjunto, que apenas se vislumbra de uma imagem de satélite ou de uma estatística. Serão galáxias urbanas se a metáfora cósmica servir. O que salta à vista é o jogo planetário do capitalismo liberal e das suas complexas redes de poder e influência onde o Estado se dilui e se desrespeitam os direitos humanos. Dumping ambiental e social convivem nestes modernismos radicais onde a maior parte parece nada ganhar, nem do desmoronamento das suas culturas, territórios e modos de vida tradicionais, nem de uma modernidade violenta que só os toca como possíveis consumidores e, sobretudo, como trabalhadores quase neo-escravos.

Urbanização não corresponde por isso a uma espécie de processo ou forma universal que se oponha a outra categoria supostamente universal que seria o rural ou o não-urbano. As contradições sociais e a diversidade de paisagens da urbanização mobilizam actores muito distintos e diversos motores de transformação que operam a escalas muito distintas, desde o capitalismo global às circunstâncias microlocais. Os processos são os mais variados e contraditórios, mesmo considerando fragmentos de uma só megacidade onde hiperconcentração e dispersão convivem, tal como o lixo e os helicópteros. Tendo-se tornado um fenómeno planetário, a urbanização tornou-se um processo multiescalar que tanto pode designar uma parcela de qualquer território supostamente periférico que se liga à sua área central através de redes infra-estruturais de mobilidade de pessoas, informação, mercadorias, capital, energia..., como, ao mesmo tempo, um resíduo de sociedade/território que se insere num complexo sistema de mercado global de trabalho e de procura de condições mínimas de custo de produção. A urbanização está constantemente a produzir formas e processos de diferenciação que resultam do embate das dinâmicas globais com o sem fim de especificidades locais que assim se glocalizam. Às velhas áreas de influência regionais que se organizavam à volta de cidades, temos agora que acrescentar ou modificar uma outra geografia relacional bem mais complexa.

Um novo léxico

Por todas estas razões é que é necessário um novo léxico. As palavras que temos descolam com facilidade da realidade que deveriam designar; no entanto é com essas próprias palavras que se constrói o conhecimento do mundo e por isso mesmo, uma completa fractura entre as palavras e as coisas, como diria Michel Foucault. Parece uma charada.

Curiosamente esse novo léxico provoca vertigens – metrópole, área metropolitana, metrópole policêntrica, conurbação, cidade difusa, cidade dispersa, megalópolis, constelação urbana, subúrbia, sprawling, megametrópole, metapolis, cidade-região, suburbanização, periurbanização, desurbanização, edge city, edgeless-city, generic city, cidade genérica, cidade global, cosmopólis, exopólis, tecnopólis, cidade informacional, cidade fluxo, cidade relacional, sistema de cidades, cidade congestão, cidade-mosaico, cidade partida, cidade fractal, arquipélago urbano ... 

Porque a palavra cidade, à procura da coisa que deveria denominar, não foi substituída por um nome próprio com artigo definido, chegou-se a uma situação curiosa, uma espécie de efeito de blindagem: quando não vai em registo genérico-vago, cidade denomina a verdadeira cidade, face à qual tudo adquire um estatuto de coisa de menor valor, mais ou menos predatório, caótico, feio, irracional, etc., etc. – o mesmo sentido que tinham os antigos arrabaldes, periferias ou subúrbios. Qualquer coisa que seja estranha, incomodativa, ética ou esteticamente duvidosa, etc. é remetida para esse território vago que funciona como air-bag com poder absorvente das coisas indesejáveis que podem acontecer à cidade. Os dormitórios, por exemplo, não seriam da cidade; a invasão dos automóveis que todos os dias vêm para Lisboa (a cidade...), pertencem a uma horda de selvagens vindos das periferias, e por aí fora. Quer isto dizer que a cidade não acompanhou o processo de urbanização na sua constante extensão territorial e diversidade morfológica. E por isso, aquilo a que habitualmente se chama cidade perdeu o monopólio da urbanização, transformando-se num seu especial fragmento nobilitado pela sua excepcionalidade, linhagem ou valor patrimonial. Coisa esquisita que em si mesma anula a própria visibilidade da urbanização (ordinária), banalizando-a segundo olhares negativos e usando-a como bode expiatório para esconjurar uma qualquer mudança menos favorável na cidade (extraordinária).

O campo, elemento de contraste da cidade, não teve melhor sorte. Enquanto era campo/rural tinha que ser, ao mesmo tempo, uma sociedade camponesa marcada pela sua especial visão do mundo, tradicionalista, pré-moderna e mais ou menos fechada sobre si; uma base económica fundada na produção e no autoconsumo familiar de produtos agrícolas, vegetais, animais, florestais; e uma paisagem construída e mantida pelos agricultores-jardineiros da paisagem, tradutora de umas tecnologias, de uns saberes e sistemas de produção e modos de vida adequados às vicissitudes das condições naturais. Em Portugal, as décadas de desruralização que explicam a desconstrução desta tripeça e o valor reduzido da produção agrícola limitado a uns residuais 3 ou 4% do Produto Interno Bruto, deixam-nos dois cenários de pós-ruralidade: as novas agriculturas e suas paisagens ultratecnológicas inseridas em mercados globais (sem “rurais” ou camponeses mais ou menos romanticizados); e a metamorfose dos espaços e sociedades ex-rurais que, se não estiverem vazios, serão urbanos porque assim resulta das coisas estarem metidas em léxicos binários, rural/urbano, onde só havia duas linhagens puras: sem rural, tudo é urbano, se não houver outro nome que lhe dar. Na biologia molecular chamar-se-iam paisagens transgénicas e estaria a coisa resolvida.

Urbanizar

Há uma tese bastante sinistra e paleolítica sobre a cidade das origens. Era uma vez um grupo que frequentava o topo de uma colina; seu chefe via passar outras tribos com seus gados e pensava: “se matarmos aqueles, as suas ovelhas são um excedente para o nosso sustento”. Assim foi. Quando, dali a tempos, passou outra tribo, o chefe pensou: “agora mataremos metade, escravizaremos a outra metade e ficaremos com o excedente; os escravos trabalharão a terra e criarão carneiros para nós”. Nascia a cidade e o campo; o lugar foi fortificado e construiu-se uma torre de observação com a muralha à volta. Esta imagem é mais recente. Era uma vez o campo; havia caminhos, casas, leiras e vinhas. Trabalhava-se a terra e comia-se do que havia. Depois vieram máquinas, asfaltaram-se os caminhos e instalaram-se próteses e sistemas de próteses tecnológicas: água, saneamento, energia, telecomunicações, gás. O território ganhou outras dimensões. Os campos continuam a ser campos mas já não se vive do que eles dão. Nasceu a urbanização.

 

Os arrabaldes, periferias ou subúrbios são remetidos para um estatuto de coisa de menor valor, mais ou menos predatória, caótica, feia, irracional. Estranha, incomodativa, ética ou esteticamente duvidosa

Urbanidade em rede

Não existe urbanização sem rede. Para além dos nossos grupos e lugares de pertença, a rede quebra barreiras, abre um campo infinito de possibilidades; não se resolve nenhuma desigualdade ou injustiça social, mas pode ajudar. A rede é uma estrutura sem centro, um suporte de relação e dissipação. Tudo pode estar algures; tudo se pode relacionar com tudo e nada; tudo se pode transformar – a rede é uma máquina de produção de invisibilidade. Como labirinto de múltiplos caminhos, ninguém sabe dizer onde está realmente ou sequer quem é ao certo. A voz dos desorientados pergunta incessantemente ao ouvido da sociedade ingovernável de onde é que se pode ver melhor, onde é que está o ponto fixo. Não está. Agora é ponto móvel, um vórtice; dos infinitos fios que nos tecem, podemos escolher os que mais nos convierem e mudar de ideias a seguir.
Este é o território da sociedade em rede. Uma sociedade extremamente diferenciada que tem à sua disposição uma parafernália de próteses técnico-sociais que permitem ao indivíduo navegar por múltiplas relações, cruzamentos e bifurcações: da escala local à global, do sucesso à ruína, do ruído à solidão (em rede). Com rede pode-se estar em qualquer lado moendo ignorâncias, rumores, certezas convenientes e derivas voláteis. Sem rede é um sarilho.
 

 

Rua da Estrada

Da longa história da cidade ficaram algumas coisas sobre as quais estamos todos de acordo: uma organização social; suportes infraestruturais necessários à troca e à relação; edificação; diversidade e mudança. A aglomeração e a proximidade acompanhavam tudo isso enquanto a congestão não desse cabo de tão preciosa intensidade. Assim é a Rua da Estrada: uma espécie de dispositivo sócio-técnico que possibilita a mobilidade das pessoas, da informação, das mercadorias, da energia...e que funciona como uma prótese que torna possível a organização da sociedade/ território. Falta só imaginar que a cidade se desconfinou, que galgou muralhas e limites, que colonizou o infinito rizoma do asfalto e de outras redes com ou sem fios, canos, condutas, cabos e outras teias. Por estes infinitos caminhos circulam os humanos e as suas urgências: vão à bola, à fábrica, à farmácia, ao comboio, remar, à escola, a Aveiro ou a Sarrazola... Escreveu Agustina Bessa-Luís no seu Dicionário Imperfeito (Guimarães Editora, 2008): “A estrada é, acima de tudo, civilidade, tem que ser construída para o uso das pessoas e para efeitos de uma economia. A estrada romana é ainda hoje modelo de mecanismo social. Levava não só os poetas até Brindisi, como as mercadorias aos portos e, mais ainda, a imaginação até aos confins da memória”. É tal qual.
 

 

Hoje diz-se (e pensa-se) que estamos num mundo onde a maioria das pessoas vive em cidades, pensando dessa maneira num mundo mais justo ou mais emancipado e “moderno”

Hipertexto urbano

Passando da geografia dos lugares para a geografia dos sites, entra-se no hiper-espaço, um espaço de relações múltiplas que não está confinado a limites precisos ou características imutáveis. A cibernética e a literatura hipertextual estão mais próximas deste universo. Os lugares dão a ilusão do encantamento, da poesia habitada por génios e espíritos. Costumam chamar não-lugares a tudo o resto, mas nem Marc Augé juraria ser verdade.  
Os sites são lugares neutros; só tomam sentidos quando são visitados, experienciados, vividos, usados e ficcionados, e assim passam a existir em cada um de nós. Os sites definem-se segundo os seus conteúdos e modos de aceder. Localizam-se em espaços topológicos onde o perto e o longe não são medidas da geometria de Euclides.
Acessar é a palavra brasileira que define a facilidade ou a dificuldade em navegar pelo espaço relacional. Edifícios são apenas contentores, e estradas, ruas, telemóveis, internet, autocarros, auto-estradas são conectores e condutos que definem uma territorialidade. O resto é o velho assunto das boas e das más raparigas: as boas vão para o Céu e as más vão para todo o lado. Já se sabe que a mobilidade – a social e a territorial – está e estará sempre mal distribuída. É como a moral.
 

 

Rebuliço de Verão

Na Rua da Estrada Malhada Velha, entre o 28 e o 52, vai um rebuliço transcultural de umas casas para as outras: a Casa da Avó Rita fica junto à Casa da Azinheira, onde mora o mr. N. Davis, a caminho da Vine Cottage, perto da Casa da Música e da Vila Tina; não se sabe quantos moram na Casa da Colina, na Casa Perada ou na Casa da Alta Vista; tão pouco na Quinta da Rosa ou na do Monte da Francesa. Parece outra vez Fernão Lopes: muitas e variegadas gentes, cosmopolitas, com seus diversos linguajares de estrangeirice e algaraviada. 
É o Algarve a que teimam chamar rural, vá-se lá saber porquê. Para haver cidades de arranha-céus é necessário haver energia eléctrica, motorização, elevadores e ar condicionado. Aqui não é preciso elevador e o resto já há. Havendo internet e telecomunicações pode-se fazer uma cidade horizontal, ao baixo, em vez de vertical, ao alto, e não terão que estar todos apinhados no mesmo lugar. Não consta que as cidades dos arranha-céus sejam mais justas do que estas, embora haja muito quem jure que é na aglomeração que nos entendemos. Provavelmente estão a pensar na interacção. Há muita nas favelas; densas e aglomeradas como são...
 

 

Urbanidade transgénica

Dizia Georg Simmel em 1913 que “para que haja uma paisagem, a nossa consciência tem que se dar conta de uma totalidade, de uma unidade acima e abaixo dos elementos que a compõem, sem estar vinculada às suas especificidades ou ser mecanicamente composta por elas. (...) raramente estamos conscientes de que uma paisagem seja formada a partir da percepção imediata de um conjunto de vários tipos de coisas espalhadas lado a lado ao longo de um pedaço de terra”. Aparentemente assim é, pelo menos para quem pensa que só há paisagens classificáveis em linhagens puras e taxionomias estanques, como as famílias, géneros e espécies para a Biologia.
A mesma Biologia anda a perturbar a ordem natural das coisas. Um organismo transgénico, como um coelho fluorescente, produz-se manipulando uma proteína luciferina (o diabo!), GFP, Green Fluorescent Protein, existente numa alforreca. Continuaremos então perante um coelho ou será semi-alforreca de pêlo? O mesmo aqui: casas brancas, pretas e velhas, fábricas, vinhas, socalcos, painéis fotovoltaicos... compõem uma paisagem com um código genético compósito. É a vida e funciona.

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