Uma escola onde cabem todos os sonhos

A escola é um elevador social, como espaço promotor da igualdade e de oportunidades. É assim a Básica 123 do Curral das Freiras, num dos lugares mais pobres da Madeira. Não há campainha, nem trabalhos para casa. E em poucos anos entrou no top nacional.

Uma escola na zona mais pobre e isolada da Madeira, onde metade das famílias não tem internet e 92% dos alunos beneficiam de Acção Social Escolar, tem tido – consistentemente – notas superiores à média nacional. Em 2015, a Escola Básica 123 do Curral das Freiras superou-se. Teve a terceira melhor média nacional no exame de Português do 9.º ano, com 4,4 valores (o máximo é cinco) e foi a melhor escola pública do país na disciplina, num ano em que apenas três escolas públicas ficaram entre os 50 primeiros lugares.

A Matemática, embora mais modestos, os resultados também surpreenderam, com a média de 3,6 a colocar esta escola enterrada no maciço central da ilha no 12.º lugar de entre os estabelecimentos públicos e dentro do top-100 na classificação geral.

As notas valeram um telefonema de parabéns do secretário de Estado da Educação e colocaram a vila, onde vivem pouco mais de 1500 almas, no mapa educativo nacional. Não é para menos. Tinha tudo para dar errado. O Curral das Freiras é a freguesia mais pobre de um dos concelhos mais carenciados da Madeira: Câmara de Lobos.

Enterrado num vale profundo onde, contam as lendas, freiras de um convento do Funchal encontraram refúgio de um ataque de corsários franceses na segunda metade do século XVI, o único acesso do Curral das Freiras ao mundo é através de um túnel com quase 2,5 quilómetros.
Com uma orografia agreste, cujo desenho se confunde com a cratera de um vulcão, a pequena vila é dos raros lugares na ilha da Madeira de onde não se vê o mar. Mas ali, numa escola inaugurada em 2009, com a pompa e circunstância que Alberto João Jardim insistia em ter, cabem todos os sonhos do mundo. “Quando cá cheguei, existia nestes miúdos a ideia de que o filho de um agricultor estava condenado a ser agricultor”, recorda Joaquim Sousa, director executivo da escola. “A única saída era trabalhar a terra ou emigrar.”

Mudar isso foi o primeiro objectivo. Além do isolamento, acentuado no Inverno pelo constante perigo de queda de árvores ou pedras na estrada que liga a zona mais alta do Funchal até à entrada do túnel, existia uma sociedade conformada com a sua (pouca) sorte e uma enorme resistência dos professores em ficar.

A escola tem 28 docentes no quadro, que no início de cada ano fogem para paragens mais arejadas. Apenas seis têm permanecido de ano lectivo para ano lectivo, e, desses, três tentam sempre pedir destacamento – os que não integram a direcção executiva.

O próprio director da escola foi aconselhado a não ir para ali. Lisboeta de nascimento, Joaquim Sousa, 43 anos, chegou à Madeira para ir dar aulas para o Porto da Cruz, uma freguesia no Norte da ilha, que conhecia das conversas do avô, que cumpriu ali o serviço militar. Quando soube da abertura da escola do Curral das Freiras, já não leccionava na Madeira. Era presidente da Associação Insular de Geografia, funções que acumulava com a de professor convidado da Universidade dos Açores, e uma das pessoas que o desaconselharam foi o então director regional de Educação. “Quando contei à minha mãe, ela proibiu-me de ir lá sem ela chegar. Estava em Lisboa. É lá que vive. Apanhou um avião no dia seguinte e foi ter comigo, para ter a certeza de que era seguro”, conta Joaquim Sousa. Porquê ir para ali? Joaquim Sousa encolhe os ombros. Está sentado na esplanada de um café na baixa do Funchal, e o que vai dizer, admite, pode parecer utópico. “Eu acredito na escola. Acredito que a escola é, por definição, um elevador social. Foi por isso que fui. Para mostrar que era possível.”

Joaquim Sousa - O director chegou em 2009 à escola que tinha tudo para dar errado. Seis anos depois, recebeu um telefonema do Governo a dar-lhe os parabéns
Joaquim Sousa - O director chegou em 2009 à escola que tinha tudo para dar errado. Seis anos depois, recebeu um telefonema do Governo a dar-lhe os parabéns

Um laboratório para testar a igualdade

Ninguém acreditava naqueles miúdos. E todos os anos, os novos professores que chegam continuam a colocar reticências. As aulas, diz, só começam verdadeiramente em Janeiro. O primeiro período é para os professores se adaptarem e aceitarem a ideia de que não vão conseguir um destacamento para outra escola do arquipélago. “Deixamos tudo preparado de um ano para o outro, para que os professores que chegam assimilem rapidamente o ADN da escola”, explica. Mal chegam, os professores percebem o que vão encontrar.

“Falo com eles individualmente. Várias vezes. O que digo, e repito, é que estes alunos têm sonhos, têm direito a ter todos os sonhos do mundo e a nós cabe ajudar a concretizálos.” A conversa é feita na sala do Conselho Executivo, onde uma das paredes está forrada com recortes de jornais sobre os feitos e as conquistas dos miúdos da 123 do Curral das Freiras. Não foi fácil chegar aqui. O primeiro ano foi para esquecer. Melhor: para aprender. Na escola, os alunos tiveram uma média de 4,1 e, quando chegaram ao exame nacional, baixaram para 1,9. A culpa não podia ser dos alunos. “São miúdos, iguais aos outros miúdos, e têm direito a ter os mesmos sonhos.” Um dos problemas, aponta Joaquim Sousa, é que não existia nas famílias a vontade de estruturar esse sonho. “Estamos a falar de pessoas com baixo nível de ensino e com expectativas igualmente baixas em relação à formação dos filhos.”

Com excepções pontuais de filhos de professores ali colocados, os encarregados de educação do Curral não têm formação superior. “Vi ali um laboratório para aquilo que eu acredito que a escola dever ser: um lugar de igualdade e de oportunidades que permita projectar e elevar as pessoas”, diz o professor. Assim, a derrota do primeiro ano foi o mote para uma pequena grande revolução. Em vez de optar pelo facilitismo, a escola aumentou os níveis de exigência.

A componente “saber” (conhecimento da matéria), que representava 60% ficando os restantes 40% para o “estar” (comportamento, assiduidade, participação), foi elevada para uma proporção de 90/10. “Estes alunos, pelo contexto social onde vivem, só têm uma oportunidade e precisamos de agarrá-la.”

A subida da exigência não significou uma pressão acrescida sobre os alunos. Pelo contrário, diz. A escola adaptou-se às necessidades dos alunos e o próprio funcionamento teve ligeiras alterações. Para começar, não existe campainha. A que existia avariou-se algum tempo depois da inauguração da escola e não havia dinheiro para uma nova. Agora, mesmo havendo verba, continua a não haver “toques”. “Há mais responsabilização e menos tolerância”, sintetiza o director. Outra mudança foi feita na hora de entrada. Numa freguesia pequena mas com uma acentuada orografia, os alunos dependem dos autocarros para chegar à escola. Por isso, os horários foram ajustados, de modo a coincidirem com os dos autocarros. Outra mudança foi a abolição dos trabalhos para casa. A lógica é a de que se os alunos cumprirem na escola, não é preciso sobrecarregá-los em casa. “Os miúdos têm de ter vida para além da escola.” Além disso, Joaquim Sousa não quis passar para os pais a tarefa de co-ensinar. “Neste contexto social, não ia resultar. Ia ter um efeito contrário.”

No interior da escola, à medida que a exigência foi aumentando, foi também sendo feita uma adaptação dos métodos de ensino para cada aluno. “É um erro tratar por igual o que não é igual. Isso não é igualdade, promove, sim, a desigualdade.”

Por isso, aqui os alunos têm menos uma hora livre do que os das restantes escolas da Madeira, mas os apoios curriculares são feitos à medida das necessidades e expectativas individuais de cada um. Exemplo: os filhos de emigrantes que ingressam na escola têm aulas extra de Português e depois de História.

“Os miúdos chegam aqui a saber quem é a rainha de Inglaterra ou quem foi o Simon Bolívar, mas nunca ouviram falar de Afonso Henriques.” É preciso integrá-los, para que eles sintam a escola como sua.

Nesse caminho, houve que fazer sacrifícios porque o tempo não estica. Os tradicionais clubes deram lugar a apoios a Matemática, Português e outras disciplinas nucleares. Foram criadas actividades extracurriculares que promovem a cidadania e o respeito ambiental. Mas a biblioteca – numa terra onde 80% dos lares não têm livros – foi recheada e uma das salas da escola foi transformada em salão de jogos. Há matraquilhos e uma PlayStation, e a sala de informática está sempre pronta a usar. “Eles gostam da escola. Gostam de cá vir. Isso é uma vantagem que temos. Não há no Curral das Freiras muitas outras coisas para fazer”, explica. Por isso, mesmo nas férias, as portas estão sempre abertas. É um ponto de encontro para os que lá estudam, mesmo quando não estão a estudar.

Outro factor que joga a favor é a falta de alunos. A escola tem 320, mas nestas contas entram desde as crianças que frequentam a creche até aos adultos que estudam em horário pós-laboral. É que o 123 do Curral das Freiras tem essa particularidade. É praticamente a única escola do país que vai da creche até ao 12º ano. Por isso as turmas são pequenas.

Cerca de duas por ano de escolaridade, o que permite um acompanhamento mais personalizado, dividindo os jovens por nível de aprendizagem. Há duas turmas de 8º ano, exemplifica o director. “Uma tem muito mais apoios. É normal, as crianças têm ritmos diferentes e não olhar para eles tem consequências no aproveitamento escolar.” Nem todos podem ser doutores, nem todos querem sê-lo, acrescenta, mas todos podem sair preparados para o mercado de trabalho.

Aqui, tudo é pensado com um único objectivo: o futuro sucesso profissional. Até o lazer. Anualmente, os finalistas do 9º ano fazem uma viagem, a Lisboa ou ao Porto, alternadamente.

O roteiro não inclui apenas diversão. Os alunos visitam lugares históricos, culturais e simbólicos como Serralves ou o Oceanário. Vão à Assembleia da República, à Presidência e demoram-se na Universidade de Lisboa, com quem a escola tem um protocolo. “Eles têm uma aula lá [o mesmo acontece na Universidade do Porto, quando a viagem é para o Norte], porque queremos que eles vivam essa experiência e percebam que ali também pode ser o lugar deles”, diz Joaquim Sousa.

Para embarcar nesta “viagem motivacional” é preciso integrar o projecto – e é preciso trabalhar, independentemente de os pais terem ou não dinheiro para a viagem (e a maioria não tem). Os alunos vendem bolos na sala dos professores, ajudam nas festas da freguesia e, mais importante, têm que passar o ano. “É este o contrato que fizemos com eles. O contrato mais amplo é até simples: vão ter de ser melhores do que a geração anterior.”

Exemplos a seguir Joaquim Sousa não se vê como o herói desta história. Mas é o rosto mais visível desta revolução de hábitos, conceitos e expectativas que, tudo somado, tem resultado num abandono escolar quase inexistente – o pouco que ocorre é motivado pela emigração dos pais – e numa taxa de retenção praticamente nula.

Os heróis, porque todas as histórias têm um, são os alunos. Jovens como Jéni Quintal, 22 anos, a estudar Medicina no Porto. Na 123 do Curral das Freiras, é sempre apontada como um exemplo a seguir. “Muito trabalho e muito esforço”, elogia o antigo director. Jéni sorri da fama, e não consegue disfarçar a pontinha de orgulho. Os pais, garante, sempre a apoiaram, mas o dinheiro nunca abundou em casa. Mesmo assim, a irmã mais velha é enfermeira e a mais nova está firme no 11.º ano.

“Tive que trabalhar muito, mas estar ali naquela escola ajudou bastante”, diz a estudante. O pai, condutor, está desempregado. A mãe é auxiliar médica. Jéni, com a “ajuda de todos” conseguiu vencer as adversidades. “Muitas vezes basta sentirem que alguém acredita neles. Sentirem que conseguem”, adianta Joaquim Sousa. E neste cenário, Jéni Quintal é uma espécie de pop-star. Mesmo quando mudou de escola, no 9º ano, porque no Curral o ensino secundário está vocacionado para cursos profissionais, sentiu-se preparada. “Foi fácil, vinha com os conhecimentos sedimentados”, diz, elogiando tudo o que deixou para trás. Os colegas, os professores, a direcção. “Tudo.”

André Santos também tem saudades. É outro dos heróis da 123 Curral das Freiras. Estuda agora no Funchal, de onde pretende saltar para o curso de Medicina. Tem média de 18,14. “Todos nos conhecíamos ali. Éramos amigos, companheiros mesmo”, recorda.

Em casa, a vida de André tem sido marcada pela crise que se abateu no país e na Madeira em particular. Além da agricultura, a construção civil era a segunda actividade da vila. Mas sem dinheiro não há obras. O pai teve que emigrar para Cabo Verde para encontrar trabalho; a mãe, cozinheira, ficou a cuidar da casa. Nada que demova a vontade do filho em se fazer médico.

É esta força de vontade que Joaquim Sousa destaca. Quando chegou à Madeira ouvia muitas justificações para os resultados serem inferiores aos do resto do país. O parque escolar era recente. A geração anterior não estava tão bem preparada. Tudo verdade, mas perante estes exemplos já não há desculpas. “Provámos que é possível.”

André Santos concorda, e sublinha o bom ambiente escolar como condição para o sucesso. “Ali vivemos uma boa relação entre professores, alunos e funcionários. Sentimos que todos lutam por todos, e isso ajuda-nos a sermos melhores.”

Escola, poiso seguro

A escola – agora quem fala novamente é Joaquim Sousa – não são paredes e muros. É um conceito abstracto, um lugar seguro para os sonhos dos jovens. Por isso, ninguém é deixado para trás. Em 2010, por exemplo, quando a Madeira foi atingida por um temporal que provocou várias enxurradas houve essa preocupação. Morreram perto de 40 pessoas.

Estradas cortadas. O Curral ficou isolado do resto da ilha. Joaquim Sousa e o presidente do Conselho da Comunidade Educativa, Marco Melo, foram no próprio automóvel buscar os alunos a casa. Era preciso mostrar que a escola era um lugar seguro. E foi. Já aconteceu, noutras ocasiões, os alunos terem que dormir na escola, também devido ao mau tempo. Numa ilha montanhosa, e onde a temperatura média anual ronda os 13 ou 14 graus, no Curral das Freiras, durante o Inverno, os termómetros podem descer até aos oito. Uma diferença amplificada, dada a humidade elevada da ilha. Mas os resultados escolares têm ido em sentido contrário à temperatura.

Depois do descalabro do primeiro ano, o Curral das Freiras não parou de subir. Em 2010 estava ainda entre as piores do ranking regional, mas no ano seguinte os exames já sinalizavam a mudança de paradigma que estava a acontecer. Foi a melhor escola pública do arquipélago e, pela primeira vez, a nota nacional foi superior à média interna.

Em 2012 foi a terceira melhor entre as públicas, e a sexta geral na Madeira, para regressar ao topo da hierarquia regional no ano seguinte. Em 2014, os resultados começaram verdadeiramente a aparecer: o Curral ficou à porta do top-100 da classificação geral nacional a Português, sendo a segunda melhor escola madeirense nessa classificação. A primeira é privada.

E se 2015 foi o ano que surpreendeu, 2016 consolidou. “Estamos no ponto de equilíbrio, em que as notas internas correspondem aos resultados dos exames”, explica, satisfeito, Joaquim Sousa. O Curral manteve-se entre as 100 melhores do país e na liderança das escolas públicas da ilha.

Quando chegou à escola, depois do desastre do primeiro ano, Joaquim Sousa disse que ia torná-la na melhor do país.  “Olhando para trás, se calhar foi pedir muito. Mas a verdade é que provámos que é possível”, diz, defendendo que o modelo implementado deve ser replicado noutros estabelecimentos de ensino. Não a papel químico, porque é preciso olhar para as características dos alunos e para o contexto social onde a escola está inserida.

“É preciso colocar os alunos em primeiro lugar. Colocar mesmo. Isto não pode ser apenas uma frase”, sublinha, repetindo o que diz aos professores que, ano após ano, têm chegado ao Curral das Freiras. “Isto só funciona se tratarmos os miúdos da mesma forma que queremos que os outros tratem os nossos filhos.”

Ler do início