Num texto anterior sobre a Europa [XXI, No 3, 2014] tentei fazer um balanço entre as facetas positivas e negativas do carácter europeu. À Babel de línguas e sucessão de guerras intestinas contrapus três ou quatro virtudes globalizadoras: o amor, a democracia (aperfeiçoada pela liberdade, igualdade e fraternidade), a ópera e a ciência. Curiosamente estas duas últimas (ópera e ciência) nasceram na mesma década: a primeira do século XVII. São ambas produtos do Renascimento. Refiro-me, obviamente, à ciência moderna. É do conhecimento geral que houve concepções, descobertas e invenções extra- ordinárias na China e nas Arábias, e que na Índia despontou uma maneira diferente de entender o mundo, baseada em signos. Mas a construção que venceu e vingou foi a ocidental, assente na observação e estudo da Natureza – a chamada filosofia natural. A ciência, mole ou dura, é conhecimento vali- dado empiricamente (através da experiência). No princípio do século XVII Francis Bacon apontou o caminho: analisar a experiência e desmontá-la e, através de um processo cuidadoso de exclusão e rejeição, chegar a uma conclusão inevitável – a verdade possível, nesse momento.